Seniores: um público descurado pelos anunciantes

Seniores: um público descurado pelos anunciantes

Cativar publicidade para a Rádio Sim, um projeto da Renascença vocacionado para o público sénior, tem sido um desafio e um caminho lento. A diretora de Programação da emissora, Dina Isabel, lamenta que as marcas e as agências ainda não tenham percebido o potencial de comunicar para os mais velhos.

Em entrevista, Dina Isabel explica a razão de ser da Rádio Sim e faz o balanço destes primeiros quatro anos:

Briefing | Como surgiu a ideia de uma rádio vocacionada para um público acima dos 55 anos?
Dina Isabel | A ideia surge das circunstâncias: uma faixa etária em crescimento e a ausência de projetos de comunicação, nomeadamente rádios, vocacionados para eles. Os números são claros, Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo onde mais de 30% da população está acima dos 55 anos. Por outro lado, com o reposicionamento da Renascença para um público entre os 35 e os 54 anos, esta faixa etária (acima dos 55) deixou de ter um produto radiofónico especialmente dirigido aos mais seniores. Por essa razão, e pelo facto de as televisões generalistas trabalharem cada vez mais para este público, estes foram abandonando o meio radiofónico. Sabemos também que os maiores de 55 anos são cada vez mais ativos, têm um maior poder de compra, e estão disponíveis para novos desafios. As Universidades Sénior têm cada vez mais alunos e são em cada vez maior número. Nessa medida, a Rádio Sim pensou a sua programação de forma a ir ao encontro dos seus gostos e das suas apetências.

Briefing | Porquê Sim?
DI | E porque não? O nome foi pensado de forma a ser fácil de memorizar e de ter uma boa articulação em qualquer discurso. Por outro lado, sendo este público tendencialmente pessimista, achámos importante ter uma postura positiva, que puxe para cima e que os faça sentir parte fundamental de uma sociedade para a qual devem contribuir de uma forma dinâmica.

Briefing | Faz sentido uma rádio assim segmentada?
DI | Faz. Nos dias de hoje as ofertas são cada vez mais segmentadas. É por isso mesmo que os seniores foram ficando para trás. Faz-me muita impressão uma sociedade que valoriza a juventude e a beleza, esquecendo as suas memórias e o seu património. O próprio mercado publicitário está ainda muito estanque nesta matéria. Todas as iniciativas da Rádio Sim têm uma adesão brutal. As pessoas precisam é se der desafiadas, interpeladas. Cá estamos para combater essa postura e mostrar o potencial de um público sénior.

Briefing |Como se constrói a programação de uma rádio com esta especificidade?
DI | Através da música, da comunicação e dos conteúdos. A Rádio Sim toca música até ao início da década de 80 e tem sido emocionante a reação das pessoas quando percebem que ouvem aqui a musica que marcou a sua geração e que praticamente deixaram de ouvir nas outras rádios. Acreditamos também que uma das grandes vantagens da rádio é a proximidade que consegue estabelecer com os seus ouvintes.  Temos locutores que gostam do que fazem, são bem dispostos, não têm medo de ter um discurso próximo sem serem condescendes ou paternalistas, e isso nota-se pelo retorno que temos. Somos uma rádio sem pressas e que procura adaptar o seu ritmo ao público a que se destina.

Briefing | Qual a filosofia dos conteúdos?
DI | Procuramos trazer à programação conteúdos que vão ao encontro dos gostos dos nossos ouvintes sem passar o tempo todo a dizer-lhes que são velhos. As pessoas sabem quantos anos têm, mas na maior parte dos casos não se sentem com a idade que a sociedade lhes atribui. Falamos de atualidade, de saúde, da família, temos apontamentos de humor, falamos da parte positiva da vida. Claro que não somos alheios às dificuldades de cada um e aos tempos que atravessamos. Não somos “tontinhos” nem enterramos a cabeça na areia. Sabemos que fisicamente há algumas limitações que se vão acentuando, que à medida que a idade avança se perdem pessoas queridas, que a idade da reforma pode ser uma angústia. Mas sabemos também que os menos jovens têm mais tempo disponível, conseguem olhar para o mundo de uma forma mais sensata, são solidários, gostam de viajar, de dançar, de ver um bom espetáculo.

Briefing | Que relação mantém a rádio com a comunidade e, concretamente, aqueles a quem se propõe dar voz?
DI | O perfil da Rádio Sim torna-nos muito próximos da comunidade de diversas formas. Por exemplo, temos uma programação muito diversificada até na origem das suas emissões. Ao longo do dia temos programas que são emitidos a partir de Lisboa, Porto, Évora, Palmela e Braga. Temos correspondentes (além das cidades já referidas) em pontos tão diversos do país como Elvas, Chaves, Leiria, Rio Maior e Viseu. Procuramos fazer da nossa emissão uma emissão com uma matriz global em termos de território e não apenas vocacionada para os grandes centros. Se pensarmos bem, mesmo que grande parte da população esteja de facto no litoral, estas pessoas como eu costumo dizer “têm terra”. Falar-lhes do que está a acontecer no interior do país é muitas vezes dar-lhes notícias das suas origens. Há tanta coisa interessante a acontecer por esse país fora sem que as pessoas tenham conhecimento disso. Por outro lado, somos uma rádio com uma grande dose de interatividade. Os nossos ouvintes vêm muitas vezes à antena, quer seja para darem a sua opinião sobre os temas que lhes lançamos, quer seja para pedir a música preferida. Isso dá-lhes algum “tempo de antena”. Temos também presença nas plataformas digitais através do nosso site e da nossa página do Facebook. Temos mais de 8300 amigos que participam e interagem de uma forma muito dinâmica. De resto, a informática é um dos grandes interesses dos mais velhos.

Briefing | Como é captar anunciantes para a SIM, tendo em conta que a publicidade é um suporte essencial para qualquer meio?
DI | É um desafio e um caminho. As agências são constituídas por gente mais jovem que tende a ver o mundo à sua medida e as marcas continuam a achar que o mais importante é conquistar os jovens e rejuvenescer a perceção que as pessoas têm delas. Se pensarmos bem, e infelizmente, hoje em dia são provavelmente os jovens que menos poder de compra têm. Os mais velhos têm muitas vezes a vida organizada e estabilizada e são eles que ajudam os filhos e os netos a vencer algumas dificuldades. Gostava que não se descurasse, sem mais nem menos, mais de 30% da população. Felizmente há já alguns sinais de mudança por parte de algumas marcas e instituições, mas o caminho tem sido mais lento que o desejável na minha perspetiva. Também temos de perder a ideia de que só devemos comunicar para os mais velhos os produtos exclusivos para eles. É claro que isso é importante e há cada vez mais produtos nesse sentido, mas os seniores vão aos mesmos hipermercados que os outros, gastam os mesmos detergentes, comem os mesmos produtos alimentares. Mantemos também um contacto publicitário mais direto: os pequenos empresários, os estabelecimentos comerciais de proximidade. Para tornar mais prática a difusão dessa publicidade temos três formas de difusão: nacional, rede sul e rede norte. Uma oferta que se adequa aos interesses dos nossos anunciantes.

Briefing | Que balanço faz destes quatro anos?
DI | Muito positivos! Temos uma equipa fantástica, de uma enorme entrega e de idades que vão dos 26 aos 74 anos. Cruzamos a experiencia e a memória dos mais velhos com a dinâmica e a capacidade de adaptação às novas tecnologias dos mais novos. Os nossos ouvintes são bastante participativos e mantêm uma enorme ligação à rádio e aos animadores. Todas as nossas iniciativas têm esgotado e superado as expectativas. O ano passado esgotámos o Coliseu de Lisboa, em poucos dias, para a nossa Grande Gala Anual. Fazemos Chás Dançantes em vários pontos do país, sempre com salas cheias. O ano passado fizemos um calendário solidário com as caras dos locutores e os 2000 exemplares que mandámos fazer não chegaram para a procura. Este ano vamos fazer a nossa 4ª Grande Gala no Porto, na Casa da Musica, com uma grande orquestra, como sempre, a acompanhar grandes nomes da música portuguesa de diferentes gerações, será no dia 20 de outubro.

Fonte: Briefing

Quinta-feira, 11 Outubro 2012 09:49


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