Patrícia Santos digitaliza o Modo Avião

Entre História, literatura e rock, a Marketing Senior Director da Claranet Portugal partilha as suas escolhas para o Modo Avião. Patrícia Santos explica ainda por que razão “Homens de Honra” merece um lugar entre as suas recomendações deste verão.

Patrícia Santos digitaliza o Modo Avião

Que podcast estou a ouvir?

“Tempo ao Tempo”, de Rui Tavares.

Gosto do convite a refletir sobre os momentos e pessoas que nos trouxeram ao ponto presente da História; ajuda-nos a observar a realidade com outras lentes, com uma profundidade maior, que providencia mais substância ao contexto do quotidiano. É quase uma contra-corrente: quando tudo parece exigir uma reação imediata, uma opinião instantânea e uma disponibilidade permanente para o ruído, este exercício de cruzar História, política, cultura e cidadania, oferece-nos ferramentas para compreender melhor o mundo.

E isso é um dever tão importante quanto agir (positivamente) sobre ele.

Um livro que estou a ler?

“Herscht 07769”, de László Krasznahorkai.

Escrito numa só frase, quase sem fôlego, que nos obriga a entrar no ritmo do pensamento humano, com todas as suas contradições, desvios e inquietações. Não tem muita piedade do leitor e confronta-nos com questões difíceis sobre a memória, o poder e a natureza humana. Não é uma leitura confortável, mas é, sem dúvida, memorável; e eu aprecio escritores desafiantes. Comprei este livro em viagem, porque despachei os dois que tinha levado comigo; era o que havia em inglês, na livraria de um aeroporto. Tinha uma banda vermelha a sinalizar o Prémio Nobel de 2025, e eu ainda não conhecia. Fazia mal.

Uma música que não me sai do ouvido?

“Starless”, de A Perfect Circle.

Tive o privilégio de assistir a dois concertos da muito aguardada digressão europeia de A Perfect Circle. Eu sou um bocadinho melómana, mas é de um modo muito particular. Sou péssima a decorar nomes de álbuns e títulos de canções, mas obceco frequentemente com um artista específico ou um disco que, por qualquer razão, ressoa comigo. Esta música, que não me larga há umas semanas valentes, funciona como um comentário inquietante à atualidade política e social, polarizante, que temos vindo a observar nas democracias ocidentais, incluindo Portugal. A letra fala-nos de radicalização e da facilidade com que passamos a olhar para quem discorda de nós como um inimigo. Vivemos tempos que exigem mais pensamento crítico, com empatia, e capacidade de resistir e dialogar, em simultâneo.

O que ando a ver?

“Homens de Honra”, na RTP Play.

Uma série nacional extraordinariamente bem escrita, realizada e interpretada. Além da belíssima qualidade da produção, impressiona-me a forma como nos recorda que a História não é um conjunto de datas e factos distantes, que é feita de escolhas, de coragem, de princípios e das consequências dessas decisões. Quando parece faltar profundidade ao debate público, obras como esta ajudam-nos a refletir sobre valores fundamentais como a honra, a responsabilidade e o serviço público, à comunidade e ao país. Este excelente exemplo de serviço público da RTP é um contributo objetivo para garantir que o lazer (neste caso, o tempo de televisão) não se limite ao entretenimento, e que seja também oportunidade para aprender, refletir e crescer. Não me refiro à intelectualidade como exercício de erudição, mas como ferramenta de compreensão do mundo e de mim própria. Procuro conteúdos que me desafiem, que me obriguem a questionar pressupostos e que alimentem uma prática constante de autoanálise e autocrítica gentil.

Porque acredito que todos os papéis que cada um de nós desempenha — no meu caso, diretora de marketing, cidadã, mãe, mulher, irmã, tia, filha ou amiga — beneficiam quando dedicamos tempo a pensar melhor para, só então, agir.

Terça-feira, 28 Julho 2026 12:55


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