Mais nove milhões de euros. Apenas mais 1% de embalagens recicladas. Até quando?

Nos primeiros nove meses de 2026, as embalagens da recolha seletiva enviadas para reciclagem registaram um ligeiro crescimento de 1 %, com apenas 373 182 toneladas de embalagens recolhidas dos ecopontos (+4 194 toneladas face ao período homólogo). No mesmo período, as entidades gestoras (EG), como a Sociedade Ponto Verde, financiaram mais 9,2 milhões de euros em operações de recolha seletiva e triagem, através dos Valores de Contrapartida (VC), um aumento de 5,9 %. Num contexto em que o financiamento do sistema deverá continuar a aumentar, a SPV questiona a eficácia do investimento realizado e exige maior transparência sobre a sua aplicação.

Na prática, o crescimento de apenas 1 % traduz uma evolução praticamente estagnada, sobretudo quando comparada com o aumento do financiamento do sistema. Perante este desfasamento, a SPV considera incontornável perceber porque é que os recursos mobilizados não estão a produzir os resultados esperados e questiona: se o financiamento continua a aumentar, onde estão os resultados proporcionais a esse investimento?

Este tema ganha particular relevância num contexto em que o investimento no sistema tem vindo a ser reforçado de forma consistente e histórica, e que continuará a crescer nos próximos anos. Em 2025, o financiamento assegurado pela SPV e pelas restantes entidades gestoras aumentou 90 milhões de euros e, nos primeiros nove meses de 2026, registou um novo reforço de 9,2 milhões de euros. Com a execução prevista para este ano, estima-se que em dois anos – entre 2024 e 2026 – o investimento acumulado quase duplicou (valor estimativo).

Assim, os sistemas municipais, multimunicipais e concessionários, responsáveis pela recolha seletiva de resíduos de embalagens, viram a sua capacidade de investimento aumentar em 2025 e beneficiaram de um novo reforço em 2026, decorrente da aplicação dos atuais valores de contrapartida, precisamente para acelerar a execução no terreno e incentivar uma maior participação dos cidadãos.

“Estamos a investir cada vez mais num sistema que continua a apresentar resultados manifestamente insuficientes. Um crescimento de apenas 1 % nas quantidades retomadas, obriga-nos a questionar a eficácia do investimento realizado. Importa lembrar que este financiamento tem origem nas contribuições das empresas clientes da SPV e das restantes entidades gestoras, que enfrentam também um contexto económico exigente. Num momento em que o sistema está mais financiado do que nunca, não podemos continuar a aumentar os encargos das empresas sem garantir uma melhoria efetiva do serviço e resultados concretos na reciclagem de embalagens. É fundamental perceber onde estão os constrangimentos, como estão a ser aplicados os recursos e que mudanças concretas vão permitir inverter esta trajetória”, afirma a CEO da Sociedade Ponto Verde, Ana Trigo Morais.

De recordar que, em 2025, Portugal registou uma taxa de retoma de resíduos de embalagens de 60,5 %, ficando abaixo da meta de 65 % atualmente em vigor. A evolução registada nos primeiros nove meses de 2026 reforça a necessidade de acelerar o desempenho do sistema, sob pena de o País continuar sem conseguir alcançar as metas estabelecidas.

A eficácia do sistema tem de ser a prioridade

Além da otimização operacional, é essencial assegurar uma maior transparência nos sistemas de recolha e triagem e reforçar a utilização de dados na sua gestão. Para isso, é fundamental dispor de um registo único e de uma base comum de dados do sistema, que permitam assegurar indicadores fiáveis e comparáveis, apoiar decisões informadas e avaliar o impacto das medidas implementadas. Neste sentido, a SPV tem vindo a defender a criação de um Observatório Nacional de Resíduos, que permita consolidar informação e acompanhar, de forma mais rigorosa, o desempenho do sistema. Só através de uma gestão baseada em dados fidedignos será possível medir resultados, identificar oportunidades de melhoria e acelerar o cumprimento das metas de reciclagem de embalagens.

Esta informação é também fundamental para orientar o investimento em soluções que aumentem a eficácia da recolha seletiva, como ecopontos mais inovadores, equipados com tecnologias de sensorização, sistemas de recolha porta a porta mais eficientes e modelos pay as you throw. De destacar que a SPV tem assumido, nos seus 30 anos de atividade, um papel de liderança na inovação e investido no desenvolvimento de soluções para o setor, com um investimento acumulado de 19,4 milhões de euros em inovação e I&D.

Dados da reciclagem de embalagens por material

A evolução por material demonstra que persistem dificuldades em acelerar a recolha de determinadas embalagens. No entanto, há matérias, como é o caso do papel/cartão e das embalagens de cartão para alimentos líquidos (ECAL), que cresceram 4 % e 3 %, respetivamente, alcançando um desempenho positivo face ao primeiro semestre do ano.

Já o vidro registou um crescimento de apenas 1 % entre janeiro e setembro de 2026, mantendo-se praticamente estagnado.

No que diz respeito ao plástico, a análise revela uma realidade distinta entre os diversos tipos de plásticos. Embora, genericamente, apresente uma quebra (-4 %), o filme (sacos com e sem asas e plástico que envolve os packs de pacotes de leite) registou um crescimento de 10 %; e o PEAD, (embalagens como frascos de champô e detergentes) aumentou 4 %. O decréscimo na quantidade de plástico reciclado pode ser explicado pelo PET (utilizado nas garrafas de bebidas), que regista um decréscimo de -2 %; e pela diminuição das chamadas Outras Embalagens de Plástico (categoria que inclui, por exemplo, embalagens de batatas fritas, copos de iogurte e embalagens de frutos secos). Além disso, também o alumínio apresenta um decréscimo de -5 %.

Assim, apesar da evolução positiva de algumas tipologias, o crescimento global de apenas 1 % demonstra que continua a ser necessário melhorar o desempenho do sistema como um todo.

A SPV defende, por isso, que a próxima etapa da gestão de resíduos de embalagens deve estar centrada na eficácia e em transformar o financiamento em melhores operações e melhores níveis de serviço; e apela ao Governo que acelere as medidas previstas no programa Terra + para que o País possa cumprir as metas de reciclagem de embalagens.

Quarta-feira, 14 Outubro 2026 11:13


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