Briefing | A presença da WSL em Portugal começou em 2009, com uma licença móvel. Como evoluiu este projeto e que papel desempenhou na afirmação de Portugal enquanto destino internacional de surf?
Frederico Teixeira | Em 2009, quando recebemos a primeira etapa em Peniche, tínhamos uma licença móvel, inicialmente prevista para um único ano. O sucesso da organização, a qualidade das ondas e a resposta do público fizeram com que, logo no ano seguinte, conseguíssemos garantir uma licença fixa. Os surfistas ficaram seriamente impressionados com as ondas da Praia de Supertubos mas também da proximidade de outras praias na região, com outros tipos d eondas que lhes permitia treinar noutras condições.
Passados 17 anos, Portugal mantém-se como a única paragem europeia do Championship Tour. Somos uma localização estratégica com uma oferta de hospitalidade e gastronomia diferenciadoras.
Ao longo deste percurso, conseguimos também alargar a presença da WSL a diferentes competições, desde as Challenger Series e Qualifying Series até às provas de ondas gigantes. Ou seja, alargámos as provas geograficamente, o que se traduziu em mais hipóteses para a qualificação ao longo do País e também diversificamos em formatos: não só provas de qualificação com a prova de renome internacional das Ondas Garndes, com características muito especificas da Nazaré.
Os resultados refletem esse crescimento. Se, em 2015, o impacto económico total da etapa de Peniche era estimado em 10,68 milhões de euros, em 2024 aproximou-se dos 20 milhões de euros. No mesmo período, o público cresceu cerca de 20 %, o que demonstra que conseguimos aumentar não apenas a dimensão do evento, mas também o valor que gera para a região.
Talvez o maior resultado seja termos conseguido transformar um evento que começou com uma licença de um ano num projeto com continuidade, reconhecimento internacional e um contributo efetivo para a economia e a promoção do País.
Que contributo têm as competições para a construção da marca Portugal e para a projeção internacional dos territórios que as recebem?
Acredito que um dos maiores contributos destas competições é a capacidade de apresentar Portugal a públicos internacionais que, de outra forma, talvez não tivessem contacto com determinados territórios.
Em 2025, por exemplo, a etapa de Peniche foi transmitida através de nove plataformas, entre canais digitais e televisivos, chegando a espectadores em mais de 100 países e ultrapassando as dez milhões de visualizações. É uma dimensão que permite projetar não apenas a competição, mas também o destino que a recebe.
Em 2024, estimámos cerca de 120 mil espectadores na etapa de Peniche, com uma taxa de ocupação hoteleira de 95 % durante o período da competição. O mais interessante é que 36,5 % do público era estrangeiro, o que demonstra a capacidade do evento para atrair visitantes internacionais.
Temos uma vantagem extraordinária: os nossos eventos acontecem em cenários naturais, com características únicas, que acabam por fazer parte da própria transmissão. Mas há também um enorme trabalho de produção para garantir que essa experiência chega ao público com a qualidade exigida por uma competição mundial.
A evolução tecnológica tem sido fundamental neste processo. Aliás, já em 2009 procurámos diferenciar-nos pela qualidade da transmissão, numa altura em que a utilização de fibra ótica representou um avanço importante para a cobertura dos campeonatos de surf. Desde então, temos acompanhado a transformação do consumo de conteúdos, com uma aposta cada vez maior nas plataformas digitais, e isto tem implicações diretas que de facto materializamos no terreno.
O MEO tem sido um parceiro importante neste percurso, não apenas pela sua associação ao evento, mas também por acompanhar a evolução de uma competição cuja projeção internacional depende, em grande medida, da qualidade da transmissão e da capacidade de chegar a novas audiências.
Hoje, conseguimos chegar a diferentes gerações e geografias, com conteúdos que continuam a circular muito depois de terminado o campeonato. E isso é particularmente relevante para a marca Portugal, porque permite manter os nossos destinos presentes junto de uma audiência internacional ao longo de todo o ano.
O que procuram hoje as marcas quando se associam a estas competições e como evoluiu o valor do surf enquanto plataforma de comunicação e ativação?
O surf evoluiu muito enquanto plataforma de comunicação. Se inicialmente era um território dominado pelas marcas diretamente ligadas à modalidade, hoje conseguimos atrair empresas de setores tão distintos como as telecomunicações, energia, banca, mobilidade ou turismo.
A nível global, estamos a falar de um universo de cerca de 366 milhões de pessoas interessadas em surf, das quais 128 milhões são consideradas fãs da modalidade. É um público com uma dimensão e diversidade particularmente interessantes para as marcas.
Penso que esta transformação está muito relacionada com a evolução do próprio consumidor. As marcas procuram cada vez mais experiências que lhes permitam estabelecer relações de proximidade com os seus públicos, e não apenas garantir visibilidade através de um patrocínio.
O surf tem aqui uma enorme vantagem, porque reúne desporto, entretenimento, cultura e lifestyle numa mesma plataforma. Existe uma ligação emocional muito forte à modalidade e uma comunidade bastante abrangente, que vai muito além dos praticantes.
O MEO e a Rip Curl são bons exemplos de parceiros com uma ligação de continuidade à competição de Peniche, que nos têm acompanhado no crescimento e na evolução do evento. Acreditamos muito neste modelo de parceria, em que existe um compromisso que vai além da componente financeira e que permite desenvolver projetos com maior consistência.
No fundo, queremos que uma marca encontre na WSL não apenas um evento para patrocinar, mas uma plataforma onde possa desenvolver diferentes objetivos de comunicação, desde notoriedade e envolvimento com o consumidor até experiências de marca e produção de conteúdos.
Além da exposição mediática, que impacto geram estas competições no turismo e nas comunidades locais? Como é medido esse contributo?
O impacto de uma competição desta dimensão começa muito antes do primeiro dia de prova. Existe toda uma operação de preparação e montagem que mobiliza empresas, profissionais e fornecedores de diferentes áreas de atividade. Este movimento gera atividade económica direta, mas o contributo estende-se naturalmente ao turismo.
Temos procurado medir este impacto de forma rigorosa, através de estudos independentes. O estudo de 2024, realizado em parceria com o ISEG, estimou um impacto económico total próximo dos 20 milhões de euros, incluindo os efeitos diretos, indiretos e induzidos na economia. Só a despesa dos visitantes ultrapassou os 13 milhões de euros, um crescimento de cerca de 68% face a 2015.
Mas há outro aspeto que considero fundamental e que nem sempre conseguimos traduzir num indicador: a transformação da economia local. Ao longo destes anos, vimos surgir novas unidades de alojamento, escolas de surf, restaurantes e serviços associados a uma procura que deixou de estar concentrada exclusivamente no verão.
Para nós, a relação com as comunidades é essencial. Temos consciência de que um evento desta dimensão também exige muito dos territórios e, por isso, trabalhamos em proximidade com as autarquias, entidades regionais e empresas locais. O objetivo é garantir que o crescimento da competição se traduz em oportunidades e benefícios que permaneçam na região.
Que oportunidades identifica para reforçar o valor destas competições para as marcas, os territórios e o País?
Penso que uma das grandes oportunidades está na capacidade de continuar a evoluir a experiência que oferecemos, tanto aos atletas como ao público e às marcas.
Hoje, os eventos desportivos competem num mercado global de entretenimento muito exigente. Já não basta ter uma grande competição e boas condições naturais. É necessário garantir uma organização de excelência, uma transmissão de qualidade e uma experiência que motive as pessoas a acompanhar o evento, presencialmente ou através das plataformas digitais.
A dimensão digital será certamente outra das áreas de crescimento. Entre 2022 e 2025, as visualizações das competições de Peniche e Ericeira cresceram cerca de 33 %, o que demonstra que existe espaço para continuar a ampliar a nossa audiência internacional. E uma audiência maior representa também novas possibilidades de comunicação e valorização comercial.
Gostava igualmente de destacar o papel que estas competições podem continuar a desempenhar no desenvolvimento do surf português. Ter os melhores atletas do mundo a competir no nosso país é uma oportunidade extraordinária para as novas gerações. Este ano, em Peniche, contamos com cinco atletas portugueses, incluindo três mulheres, uma presença particularmente relevante que demonstra a evolução da modalidade e o talento que temos vindo a desenvolver.
Por último, há uma responsabilidade que não podemos desvalorizar: a preservação dos territórios onde realizamos as competições. A sustentabilidade ambiental e a relação com as comunidades têm de continuar a fazer parte das nossas prioridades. Através da iniciativa WSL One Ocean, temos vindo a estabelecer metas concretas de redução da pegada ambiental das competições, porque o oceano é a nossa principal riqueza e temos a obrigação de contribuir para a sua proteção.
O nosso objetivo é continuar a fazer crescer a WSL em Portugal, mas sobretudo garantir que esse crescimento acrescenta valor aos parceiros, cria oportunidades para as regiões e reforça o posicionamento do país no panorama internacional do surf.
Simão Raposo

