A Mariana e a rádio

Paula-Cordeiro rotatorA Mariana raramente ouvia rádio. Normalmente ligava o seu leitor de Mp3, colocava os auscultadores e seguia, no carro, com os pais. A música, era gentilmente fornecida pelos irmãos mais velhos. Um deles, ocupava o tempo livre a sacar coisas da web.

Seja lá o que isso signifique. Muitas vezes, as amigas enviavam-lhe os ficheiros mp3 através do sistema de conversação instantânea (messenger) ou por correio electrónico. Coisas que sabiam que a Mariana gostaria, ou que deveria conhecer, porque era o que estava a dar naquela altura. A Mariana nunca teve trabalho a procurar música.

Com dois irmãos mais velhos e muitos amigos na rede, sempre encontrou tudo o que precisava. Rádio, ouvia de manhã, quando a mãe a levava até ao liceu. Ou quando aproveitava a boleia do irmão mais velho, para ir surfar na praia. Mas não dava muita atenção. Sabe que a mãe ouvia a RFM, ou a Comercial, não tem a certeza.

No carro do irmão sempre música da pesada, coisas que não conhece bem. Não faz ideia da estação. Eu, que conheço a programação da maior parte das estações de rádio em Portugal, acho particularmente difícil que o irmão ouvisse música da pesada na rádio. Mas, também, não sei exactamente a que se refere a Mariana quando usa a expressão “música da pesada”.

Há dois anos, a Mariana fez 18 anos e entrou para a Universidade. O pai ofereceu-lhe um automóvel em quinta mão. Era da tia. Passou para a prima e foi comprado pelo pai da Mariana. A primeira objecção da Mariana, quando se sentou para conduzir: “não tem entrada USB, pai!”. O pai olhou duas vezes. Fez um breve silêncio e disse: “pois… pois não. Será que tem motor de arranque?”, retorquiu, a brincar. A Mariana não gostou. As amigas têm todas entrada USB no auto-rádio. Não só isto lhe levantava sérios problemas ao nível da sua auto-estima social como a impedia de ouvir música no carro. O irmão arranjou-lhe uma solução. Um cabo que liga a saída para auscultadores do telemóvel à entrada no carro.

Mas, para isso, a Mariana passou a ter de tirar o bumper (protecção) do telemóvel sempre que queria ouvir música. Assim foi. Até ao dia em que, à pressa, não tirou o bumper, o cabo não ligou e se deixou ficar na sintonia que estava definida. Não gostou. Carregou num botão e procurou outra. E assim continuou até se fixar. No dia seguinte, entrou no carro. Olhou para o cabo. Olhou para o bumper. Ligou o motor e partiu. A ouvir rádio.

E assim foi, desse dia em diante. Em casa, passou a ouvir mais vezes a rádio. Porque também procurou a estação na web e segue os seus animadores nas redes sociais online. Pensava que um deles só fazia televisão. E já o seguia no instagram. E que a outra, a quem acha imensa piada, era uma daquelas figuras que nascem e crescem no facebook.

Descobriu imensas coisas e assume aquela, como a sua rádio. Na Mariana, a música do mp3 e a rádio passaram a coabitar. Ao ponto de passar a pedir ao irmão que saque (ou lá o que ele faz), da web, as canções que ouve na rádio. A sua rádio.

Digam o que disserem, a rádio é, de facto, viciante.

Paula Cordeiro
Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSP

(Declaração de interesses: Paula Cordeiro é actualmente a provedora do ouvinte na rádio pública. Escreve na qualidade de investigadora na área da rádio)

Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.

Fonte: Briefing

Segunda-feira, 23 Setembro 2013 13:00


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