As redes internacionais são essenciais para as indústrias criativas, diz a Cristina

 Cristina Farinha, diretora executiva da ADDICT, Creative Industries PortugalLisboa recebe, desta terça a quinta-feira, a primeira edição do European Creative Hubs Forum, um fórum de gestores de centros criativos. Cristina Farinha, diretora executiva da ADDICT, que organiza o evento em parceria com o British Council, explica ao Briefing os objetivos da criação desta plataforma de networking e a importâncias das indústrias criativas em Portugal.

Briefing | O que motivou a escolha de Lisboa para receber a primeira edição do European Creative Hubs Forum?

Cristina Farinha | Esta edição do European Creative Hubs Forum, uma parceria da ADDICT com o British Council, decorre da realização de um primeiro evento em fevereiro de 2014, pelos mesmos parceiros e sob o mesmo tema, que reuniu em São João da Madeira no Oliva Creative Factory, que tinha aberto as suas portas no final de 2013, cerca de 50 gestores de centros criativos portugueses, espanhóis e de mais cinco países europeus para promover o encontro e mutuo conhecimento, capacitação e avaliação de necessidades e assim testar a ideia da criação de uma potencial rede a nível europeu dedicada a este grupo de interesse.

Dado o sucesso do primeiro evento, tornou-se claro que seria extremamente importante dar novos passos na promoção desta plataforma, desta vez num âmbito mais alargado. A cidade de Lisboa, sendo um polo económico nacional e internacional por excelência, que tem investido também especialmente neste setor, surgiu como palco natural para o lançamento europeu desta nova rede.

Briefing | Qual o objetivo do European Creative Hubs Forum?

CF | Os centros criativos e seus gestores, a criação de condições adequadas ao nível de equipamentos bem com os desafios da internacionalização, têm merecido uma atenção particular, pela ADDICT desde a sua criação em 2008 e pelo British Council em Portugal pela sua importância na dinamização da economia criativa que acreditamos com potencial valioso e por explorar.

O European Creative Hubs Forum surge com o objetivo de proporcionar aos gestores de centros criativos europeus uma plataforma de networking, capacitação e exploração de novas oportunidades e mercados, pretendendo tornar-se um espaço de referência e excelência. De facto, o setor das indústrias criativas, onde esta nova rede se insere, é extremamente dinâmico mas emergente, onde existem ainda diversas condicionantes a ultrapassar, assim como perfis e desafios por mapear e identificar.

Trata-se, assim, e efetivamente de uma plataforma inexistente a nível nacional e internacional, que importa desenvolver e consolidar, sendo de realçar os passos que Portugal se encontra a dar neste sentido, nomeadamente através da realização deste evento.

Briefing | Em que consiste o manifesto que vão preparar?

CF | Este manifesto permitirá reunir num documento-síntese, para fácil difusão a todos os potenciais interessados, desde gestores, empresários e empreendedores bem como decisores políticos, um conjunto de valores e princípios de atuação de carater mais politico, bem como objetivos estratégicos para o desenvolvimento do setor em geral e mais concretamente desta nova rede europeia de centros criativos, indo ao encontro das necessidades específicas do setor e da sua comunidade, em particular. Será, assim, um documento estratégico e estruturante e, sobretudo, representativo das diferentes realidades do setor.

Briefing | Como observa o crescimento dos centros criativos em Portugal?

CF | Em Portugal, com algum destaque para a região norte e para a cidade de Lisboa, entre outros territórios um pouco por todo o país que consideraram esta área estratégica e com forte potencial de crescimento, têm investido nos últimos anos, ao nível público e privado, na criação de um conjunto diversificado de infraestruturas, eventos e serviços para assegurar condições de acolhimento, criação e desenvolvimento do ecossistema criativo. Assim, surgiram no período 2009-2013 um conjunto de iniciativas que congregam atores relevantes institucionais e empresariais, e pretendem explorar o potencial criativo existente e seu desenvolvimento em negócios e organizações sustentáveis na área cultural e criativo. Neste âmbito emergem uma série diversificada de equipamentos, nomeadamente incubadoras, espaços de co-work, laboratórios de prototipagem e experimentação e centros de investigação, que designamos por centros criativos.

A partir de 2013, quando a maior parte destes espaços abriu as suas portas (e novos espaços continuam a surgir), ficou claro que era essencial a promoção do encontro e discussão e troca de experiências, bem como a procura de sinergias entre os seus responsáveis. A sustentabilidade financeira destes centros, a formação e capacitação das suas equipas, a dinamização de novos serviços e atividades, a especialização versus a promoção da interação intersetorial são os desafios com que defrontam neste momento. Daí que a internacionalização, através do fomento dos contatos e parcerias internacionais, seja fundamental.

Estamos precisamente a trabalhar para criar esta plataforma de reflexão partilhada sobre experiências e o papel destes espaços no desenvolvimento do setor e do território, com vista à identificação de matrizes comuns e estabelecimento de potenciais parcerias que possibilitem ganhar escala e aumentar visibilidade e atuação concertada ao nível regional, nacional e internacional.

Briefing | Qual a importância das indústrias criativas na economia europeia e, em especial, na portuguesa?

CF | É inegável, hoje em dia, o peso das indústrias criativas na economia europeia e nacional. Trata-se, efetivamente, de um setor com uma capacidade de resposta extremamente flexível e com um posicionamento transversal, que lhe permite acrescentar valor e induzir inovação em inúmeros outros setores, desde os setores industriais tradicionais, PME, para a promoção do turismo e branding regional, para a educação e aprendizagem ao longo da vida, para a inovação e coesão social, para a sustentabilidade ambiental e urbana e para a valorização das tecnologias da informação e comunicação.

Dados mostram que as indústrias criativas na Europa já representavam em 2006 um volume de negócios de 654 mil milhões de euros, correspondendo a 2,6% do Produto Interno Bruto da União Europeia. Naquele período cresceram 12,3% acima da média da economia e já empregavam 5,8 milhões de pessoas.

Em Portugal, a nível nacional, os dados mais recentes do INE referem que as empresas cuja atividade principal se situa na área cultural e criativa são em número de 53 361 no total, já geraram em 2011 um volume de negócios de 5,6 mil milhões de euros. Quanto à população empregada, em 2011, foi estimada em 76,8 mil pessoas, sendo que 34,8% do total deste emprego é de nível de ensino superior.

São números de extrema relevância e bastante indicativos da importância deste setor.

Briefing | Que desafios enfrentam as indústrias criativas a nível nacional?

CF | Importa definir e manter políticas públicas específicas e de longo-prazo que reconheçam o valor da economia criativa e garantam condições para o seu florescimento, para além do mercado, nomeadamente apostando na formação e desenvolvimento de competências e recursos humanos; investindo na experimentação e no desenvolvimento de novos produtos e serviços e nos processos de internacionalização.

Neste sentido, o apoio à presença em eventos e participação em redes internacionais é fundamental para que os profissionais e seus projetos e empresas possam posicionar-se, dar-se a conhecer e identificar potenciais parceiros.

Briefing | O próximo passo é a criação de uma rede europeia de centros criativos?

CF | A rede que pretendemos dinamizar, no sentido do fortalecimento da comunidade de gestores dos centros criativos, ao nível da promoção de conhecimento sobre este grupo de interesse, da sua interação e capacidade de afirmação, não tem necessariamente que assumir um formato legal ou institucional.

É uma rede de contatos e projetos conjuntos que pretendemos despoletar, pelo que o evento de 2014 em São João da Madeira e este em Lisboa são já a sua materialização.

Todavia, este evento pretende impulsionar esta plataforma ao nível europeu e internacional, ao lado de um trabalho paralelo que estamos a desenvolver com outras entidades internacionais de mapeamento e elaboração de perfis dos centros criativos a nível europeu, de reunião de um conjunto de casos de sucesso num formato de guia prático para questões-chave do setor, de um site de referência, iniciativas que pretendem consolidar o conhecimento sobre esta comunidade e abrir de contato e atuação conjunta. O manifesto será o documento orientador para esta nova rede.

sd@briefing.pt

Segunda-feira, 12 Janeiro 2015 12:53


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