Chicoco. Ou o poder da rádio

paula cordeiro ff879

Há umas semanas escrevi sobre o poder das pessoas. A forma como passaram a fazer parte do que se passa na comunicação social, transformando-se, em alguns casos e por virtude da tecnologia, numa nova versão da própria comunicação social.

Também já falei sobre como a crise económica e social é reflexo de uma mais profunda crise cultural e de valores, que expõe a fragilidade dos sistemas sobre os quais assenta a nossa sociedade.

Hoje, escrevo indirectamente sobre tudo isso, mais aquilo que acontece lá tão longe que, por vezes, nos escapa. Estamos tão perto e, contudo, cada vez mais distantes de conseguir saber o que se passa no mundo. Pela sua vastidão, mas, acima de tudo, pela dimensão imensurável do que existe na internet. Talvez por isso, muitos não saibam o que é a Chicoco Radio. Eu não sabia.

A Chicoco apresenta-se como uma emissora flutuante, criada por moradores de bairros de lata no delta do Niger em Port Harcourt’s.

Ao que apurei, são 480 mil pessoas que vivem na orla costeira da capital da Nigéria, em barracas assentes na água. As notícias que encontrei remontam a 2009 e sucedem-se ao longo dos anos, apontando essencialmente o facto destes serem locais de crime organizado, a par com a intenção do governo de modernizar a zona. Os planos de demolição encontraram a resistência dos moradores, baleados ao protestarem contra a demolição das suas casas.

A força das armas suplantou os protestos. Contudo, todos sabemos que nos bairros onde a criminalidade impera, moram também outras tantas pessoas que vivem honestamente. Não vou, igualmente, debruçar-me sobre um contexto que desconheço e que a comunicação social, por cá, não me deu a conhecer. O que importa aqui é reflectir sobre duas coisas: o poder da rádio e as vantagens da web. Juntas, criam as condições ideais para reforçar os benefícios de cada uma.

Sem a força das máquinas ou das armas, os moradores encontraram outra forma de acção: juntaram-se para criar um estúdio de rádio, com uma área de exposições e ponto de encontro para a comunidade. A rádio Chicoco é feita pelas pessoas dos bairros de lata da orla costeira em Port Harcourt, conscientes dos seus direitos e do direito a reclamarem por eles. Neste processo, contam com o apoio da Amnistia Internacional, bem como outras organizações internacionais.

A rádio, produzida pelos habitantes, é não só meio de comunicação, mas escola e local de trabalho, dando atenção aos problemas dos moradores, envolvendo-os na produção dos programas, conscencializando cada vez mais pessoas para a importância da participação cívica e envolvimento dos cidadãos no processo de reconstrução da cidade. Ou, como defende DJ Murphy, de Amatari Polo, “um microfone na mão, uma ideia na cabeça, um novo som para a cidade”. Na rádio e através da rádio.

Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSP

(Declaração de interesses: Paula Cordeiro é actualmente a provedora do ouvinte na rádio pública. Escreve na qualidade de investigadora na área da rádio)

Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.

Fonte: Briefing

Sexta-feira, 16 Agosto 2013 09:43


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