Briefing | Qual o estado atual do sector da produção de som em Portugal?
Nuno Tempero | De acordo com a nossa perspetiva, o sector encontra-se estável, no entanto, devido a determinadas condicionantes de mercado, não se prevê um crescimento acentuado no curto prazo.
Briefing | É adequado para a dimensão do mercado/da procura?
NT | O sector está perante uma conjuntura de circunstâncias que confluem adversamente e distorcem o normal funcionamento do mercado, tendo-se verificado por isso, uma redução da sua dimensão.
Para esta redução tem contribuído a acentuada contração internacional da economia, que fez baixar a procura de uma forma generalizada em todo o tipo de produtos.
E ainda também o outro fator adverso que verificamos foi a pulverização da oferta de música original e da pós-produção áudio pela entrada no mercado de inúmeros concorrentes, em grande parte não pertencentes ao sector, na sua generalidade sem estrutura empresarial, impondo uma concorrência desleal tanto na obtenção de trabalho como a formulação dos orçamentos.
No entanto, para o número de produtoras existentes, penso que o mercado e a procura estão adequados.
Briefing | Qual o peso das produções publicitárias no negócio da produtora?
NT | 70%.
Briefing | Como pode o som contribuir para a eficácia de uma peça/campanha publicitária?
NT | O principal papel da banda sonora de uma campanha publicitária é aumentar a sua carga emocional, criando uma sensação mais abrangente e intensa da mensagem no recetor.
A banda sonora pode ter várias funções diferentes. Pode ajudar a contar a história, a caracterizar esteticamente o ambiente e as personagens, pode aumentar a carga emocional, ou retirar emoção e sentimento. Tudo vai depender do que se pretende transmitir com a campanha.
No entanto, e com o objetivo único de baixar custos, verifica-se que o mercado está a deixar de lado bandas sonoras originais (criadas exclusivamente para cada campanha) e está a optar por música de livraria, que, por vezes, funciona bem, mas, noutros casos, o produto ficaria a ganhar mais com uma banda sonora original.
Briefing | Esse contributo é devidamente reconhecido, por exemplo nos prémios de criatividade?
NT | De certa forma sim, mas talvez devesse ser um pouco mais reconhecido por ser um trabalho com um papel determinante no resultado final das campanhas.
Briefing | O contexto económico do país, com o impacto na redução de muitos orçamentos dos anunciantes, tem-se refletido na produtora?
NT | Sim, tem. A contração internacional da economia e concorrência por parte de elementos fora do sector, sem estrutura empresarial, tem levado a um esmagar de margens.
Hoje em dia tende-se a exigir mais por menos, e é fácil e exequível se falarmos em termos de quantidade, ou em sistemas de produção em massa. O mesmo não se pode verificar quando se fala em termos de qualidade e de produtos únicos, porque os materiais, a criatividade, o conhecimento e o desempenho são elementos que não podem ser eliminados dos orçamentos e são os reais fatores de diferenciação num mercado saudável.
Briefing | Em que medida é que a promoção do país e de Lisboa como cenário de produções cinematográficas pode ser benéfico para as produtoras de som?
NT | Como promoção do país e do sector cinematográfico português penso que é muito útil e vantajoso, e seria bom que se colocasse Portugal como um destino para a rodagem de filmes internacionais. Veja-se os casos de filmes como “Indomitable Will -the movie” rodado no Estoril, ou do filme “Balapu” com uma das maiores estrelas de Bollywood rodado entre Lisboa e o Algarve, ou até mesmo dos ciclos e festivais de
cinema como o Indie Lisboa, FantasPorto, entre outros.
Mas relativamente às produtoras de som, penso não haver uma relação benefício, num futuro próximo, porque geralmente a filmagem é feita cá, mas a produção é feita nos países de origem. A menos que a produção seja feita cá, não penso haver uma relação direta de benefício.
Briefing | Este é um sector que já está internacionalizado ou que pode vir a internacionalizar-se?
NT | Há alguns pontos em que se consegue chegar ao mercado internacional mas sem grande expressão. A internacionalização talvez venha a ser possível num futuro próximo.
Fonte: Briefing

“Com o objetivo único de baixar custos, verifica-se que o mercado está a deixar de lado bandas sonoras originais e está a optar por música de livraria”, afirma o fundador da produtora de som Liquido, Nuno Tempero, em entrevista ao Briefing sobre o estado atual do mercado.