Económico 24 horas em todo o lado

Económico 24 horas em todo o ladoA marca Económico em todo o lado e em várias plataformas, da televisão ao digital, sem esquecer o papel. Esse é o objetivo de António Costa, diretor do Diário Económico há cinco anos. Para isso fez uma parceria com a RTP, mantém a ligação ao Sapo, vai renovar o site do jornal e criar aplicações para tablets. “O que eu pretendo é que as pessoas tenham acesso à marca Económico em todos os momentos do dia”, afirma, em entrevista ao Briefing.

Briefing | Há cinco anos que é diretor do Diário Económico. O que se ganhou até agora e como serão os próximos cinco anos?
António Costa | O que se ganhou até agora foi o alargamento da marca, apesar de um contexto difícil, por razões que têm a ver com os problemas económicos, por um lado, e do acionista, por outro, que condicionaram muito a atividade do negócio e do Diário Económico em particular – o facto de sermos um jornal isolado, isto é, não pertencemos a nenhum grupo bem beneficiarmos de nenhuma sinergia, acabou por ser um obstáculo e também, de alguma maneira, um incentivo. Nestes últimos cinco anos ensaiámos uma edição ao sábado – que correu menos bem embora continue a acreditar que não faz sentido o mercado português não ter uma edição de um jornal económico ao sábado. Eu acredito muito nesse projeto mas está suspenso. Tivemos um momento muito importante que foi o lançamento do Económico TV. Diria que o jornal, que já vinha a afirmar-se não apenas como um jornal de economia, se afirmou como um jornal com uma visão económica. Lançámos o ETV como uma plataforma e um meio de difusão da marca Económico que eu considero estratégica, apesar das restrições económico-financeiras que o mercado vive. Chegamos ao fim destes cinco anos mais fortes, com uma marca mais implantada, continuamos líderes na área comercial, editorial, nas audiências e nas vendas. No meio da dificuldade que é o panorama editorial português e de estarmos num grupo que não é um grupo mas um título que se está a transformar em várias plataformas, chegamos ao fim destes cinco anos numa boa posição para aproveitar uma recuperação quer do mercado quer da evolução do negócio.

Briefing | Isso vai materializar-se em quê?
AC | Uma das primeiras coisas que eu queria ter feito quando aqui cheguei mas como o mercado, na altura, nos apontava para outras coisas e por isso acabámos por não o fazer, era rever o estatuto editorial do Diário Económico e criar também um para o site e para a televisão – é isso que tenho feito nos últimos seis meses. Também quero fazer um livro de estilo e um código de conduta.

Briefing | Porquê?
AC | Porque são as fundações que devem balizar o que é ação de todos os jornalistas do Económico. O estatuto editorial existia desde a fundação e estava completamente desatualizado e que, de alguma maneira, é a “constituição” desta marca. Um código de conduta porque um dos valores do Económico é a credibilidade junto dos leitores, telespectadores e visitantes do site. Trata-se de uma clarificação e de um salto de transparência que entendemos dar para que toda a gente saiba com o que é que nos regemos. Depois, um livro de estilo porque crescemos, temos novos projetos e negócios e novas áreas e precisávamos de um documento que uniformizasse estas práticas e as relações entre as redações. O estatuto editorial tem algumas evoluções e eu gostava de sublinhar uma: nestes cinco anos nunca nos dispensamos de assumir posições quando foi necessário e uma delas foi a petição contra novos aumentos de impostos, que foi discutida na Assembleia da República e teve entre cerca de 67.000 assinaturas. Isso levou-nos a uma discussão interna sobre a dimensão do jornalismo da procura da objetividade para servir melhor os leitores e decidimos evoluir dizendo que os jornalistas do Económico têm a obrigação de procurar a verdade. Procurar a verdade ou a objetividade não é necessariamente a mesma coisa e entendemos que devemos evoluir para a verdade pois é esse o valor que nos parece mais relevante para os leitores. Esse passa ser o grande objetivo e a grande linha de orientação editorial dos jornalistas do Económico.

Briefing | Construídas essas fundações como é que vão ser os próximos cinco anos em termos de relação com os leitores?
AC | A internet continua a ser um drive fundamental mais ainda quando temos papel e televisão. A internet é uma espécie de argamassa que une o papel e a televisão. O nosso site evoluiu muito mas o seu modelo de conceção está esgotado e já cumpriu o seu papel. O próximo passo vai ser dado com o lançamento de um novo site até ao final do mês de setembro e será um passo em frente em relação ao que existe no mercado português. Tenta fundir o que é uma matriz tradicional de um órgão de comunicação social com as matrizes que hoje dominam o acesso à internet e que são as redes sociais. O site está a ser desenvolvido por uma empresa do grupo e por outra externa ao grupo e vai apelar muito às comunidades, em especial a do Económico, que já tem cerca de 224.000 seguidores no Facebook. Não vamos abdicar da nossa decisão editorial mas queremos uma maior intervenção e proximidade dos leitores. Vamos passar a ter na redação um diretor de desenvolvimento ao lado do editor online, que é uma prática que os jornais ainda não têm.

Briefing | E para além do site?
AC | Estamos a preparar o início do que será o nosso 25º aniversário. Vamos fazer um conjunto de iniciativas que quero que arranquem, na prática, de uma forma soft, com o lançamento destes três documentos, e que arranquemos formalmente no dia 1 de novembro com iniciativas muito variadas e para as quais contamos com o apoio de pessoas externas ao jornal. O que queremos ter é ao longo deste próximo ano iniciativas que não serão apenas editoriais e passam por novas parcerias, conferências, novos projetos. Também vamos ter uma nova solução de mobilidade, com uma aplicação para tablet. Para nós, mais importante do que saber se as pessoas leem papel ou online é saber que leem, que estão em contacto com a marca Económico. Fizemos no início deste ano uma parceria importante com a RTP, da qual não recebemos um euro.

Briefing | Qual é a importância dessa parceria e porque é que a fizeram?
AC | Fizemo-la pois sentíamos que tínhamos qualidade e produzimos conteúdos económicos e financeiros com qualidade superior que não eram aproveitados simplesmente porque não estávamos integrados num grupo. O que fiz foi rodear-me de parcerias, e eu acredito muito nelas, e portanto procurei ver qual o nosso parceiro no audiovisual. Para além de não envolver custos nenhuns para a RTP a parceria foi absolutamente editorial. Com mais essa parceria, o Diário Económico chega hoje, de manhã, se calhar a entre 800 mil a um milhão de pessoas através da RTP, da Antena Um e do Sapo, com quem também temos uma parceria. O que procurei fazer nos últimos cinco anos foi um conjunto de parcerias no online, rádio e televisão que potenciassem muito a marca Económico. Vamos também fazer uma grande conferência com a Antena Um logo a seguir à divulgação do Orçamento de Estado. No fundo, com todas estas iniciativas, o que eu pretendo é que as pessoas tenham acesso à marca Económico em todos os momentos do dia. A televisão e o site muito virados para breaking news, com muito debate e análise, e o jornal mais seletivo nas suas escolhas. Isto é, mais pequeno mas muito mais focado e onde os leitores percebam que o conteúdo são as nossas apostas. Vamos procurar que a presença nestas três plataformas não se repita e seja complementar entre si.

Briefing | Hoje, a estrutura de receitas do Diário Económico ainda é dominada pelo papel? É a fonte de receita principal?
AC | Ainda é, mas menos.

Briefing | Vai continuar essa tendência?
AC | Acho que a tendência vai ser diminuir a prazo. Diria que numa situação normal de mercado – e nós não estamos numa situação normal e portanto é difícil fazer previsões – a televisão teria tendência para se equiparar ao papel nos próximo cinco anos e então teríamos uma estrutura de receitas, em números redondos, 30 do papel, 35 da televisão, mais 20 de online e o resto de novos negócios, incluindo as conferências e outro tipo de iniciativas. Aliás, aproveitando os 25 anos, queremos colocar a marca Económico associada a iniciativas que normalmente não estão associadas. Hoje temos uma estrutura mais focada para este tipo de inovações, o que resulta também da redução da estrutura do Económico, que, nos últimos três anos, passou de 220 pessoas para cerca de 150. Foi um ajustamento muito grande mas não perdemos qualidade e estamos hoje mais flexíveis e mais focados.

“Banca aguenta títulos artificialmente”

Briefing | Quando é que prevê o regresso do mercado à sua “normalidade”?
AC | Se falarmos que o normal é regressar a números de há cinco anos, acho que não regressa, quer em termos de vendas de papel quer em termos de receitas comerciais de publicidade. Quando digo regressar ao normal é sobretudo regressar à previsibilidade. O que é difícil hoje neste mercado não é ele ter encolhido. Tenho de fazer aqui uma observação que pode causar alguma controvérsia: se o sector de media fosse o da construção ou do turismo já teria havido mais fechos e falências do que há e não estou a falar só de jornais mas sim de comunicação social em geral. Acho que a banca tem aqui um papel particularmente negativo pois vai aguentando títulos artificialmente pois não quer ficar com o ónus político de fechar um órgão de comunicação social. Enquanto não se der uma clarificação do sector é difícil voltar a um modelo previsível. Essa previsibilidade depende de dois fatores: de uma regeneração do sector dos media e da recuperação económica. As duas estão interligadas e uma depende mais de nós do que a outra. Poderia ter havido uma regeneração se tivesse havido uma decisão sobre a RTP, pois o sector estava à espera do que ia acontecer. Não ter acontecido nada, com a crise a prolongar-se, sem uma perspetiva de recuperação a curto-prazo, acabou por manter este estado um pouco comatoso do sector que vai ajustando na despesa e isso vai trazer menos qualidade, pois redações mais curtas têm menos capacidade para oferecer qualidade aos seus leitores. Quanto mais tempo demorar a fazer essa regeneração, pior, mais difícil será sair da crise. O que nós tentamos fazer aqui no Económico é isso mesmo: uma regeneração. Primeiro do modelo de negócio, depois das estruturas, para estarmos mais bem preparados para a previsibilidade. O mercado caiu quase 40 por cento nos quatro ou cinco anos em termos de receitas, mas não encolheu em títulos os mesmos 40 ou 50 por cento. Há aqui um problema, de facto, de sustentabilidade financeira.

Briefing | Tendo em conta as ambições que o grupo já teve na área dos media o accionista está hoje confortável com o produto Económico?
AC | Como é evidente não posso falar pelo acionista mas posso falar pelo que acionista me diz: está muito contente com o Económico, com a qualidade que tem e a relevância que hoje continua a ter no panorama económico, social e até político do País. Obviamente que o acionista tem uma restrição que têm todos: o Económico tem de viver com o que gera. Sendo uma dificuldade, que é, constitui também um desafio pois obriga a uma regeneração que, repito, é absolutamente crítica no sector. Enquanto ela não ocorrer, vamos todos tentar aguentar, aguentar…

Briefing | Essa regeneração passa por onde? Encerramento de títulos? Maior preponderância do digital, que ainda não gera receitas…
AC | Ainda não gera mas temos um ativo que é a língua portuguesa. Entendemos o jornalismo como um bem não transacionável. Tratamos como se fosse para os portugueses, para os leitores da nossa rua. No caso dos jornais económicos, e falo particularmente do Económico, esse bem pode ser transacionável, pode ser lido no estrangeiro e ter ligações ao Brasil e Angola, onde já temos ligações que queremos reforçar. Para essa regeneração vai ter de haver um pouco de tudo num momento que, infelizmente é difícil. Se tudo continuar como está, dentro de dois anos estaremos piores do que hoje. Há várias soluções possíveis e cada meio vai ter de encontrar as suas. Por exemplo, um jornal generalista tem menos potencial de internacionalização que um económico – um quadro superior de um grupo português no estrangeiro tem obviamente interesse em acompanhar o que se passa na sua empresa; um expatriado ou um estrangeiro que esteja num grupo muito internacionalizado querem saber o que se passa com a informação desse grupo. O mais provável e que sejamos nós a dar essa informação e não um generalista. Esta avaliação faz com que eu olhe para o mercado dos expatriados, por exemplo, de uma maneira diferente de um jornal generalista. O jornalismo económico tem todas as condições para se afirmar como dominante no mercado português. É por isso que o Económico tem de se manter como um jornal que não é apenas de economia mas que tem uma visão económica do País.

Briefing | Situações como a do Boston Globe e do Washington Post, que foram comprados por milionários, seriam possíveis em Portugal?
AC | Se olharmos para o Público, a verdade é que Belmiro de Azevedo “antecipou” em muitos anos esse movimento internacional de um milionário que não tinha nada a ver com os meios de comunicação social e que decidiu investir no sector e fez um grande jornal, que continua a ser de referência… Essa solução dos milionários não me parece que seja a melhor. Gostava muito que houvesse novos investidores nos media mas estruturais, sejam milionários, com mais ou menos visibilidade, ou sejam grupos. O que gostava era que houvesse um alargamento da base de investidores nos media pois acho que se pode ganhar dinheiro e não ser uma espécie de contributo social que esses milionários têm que dar à sociedade. A carta do Jeff Bezos aos trabalhadores do Washington Post é muito sintomática quando diz que o primeiro objetivo que o jornal vai continuar é com os seus leitores e não com os seus donos. Isso é muito importante e, de resto, foi sempre o mandato que eu tive, desde o primeiro dia, dos meus acionistas.

Fonte: Briefing

Quinta-feira, 12 Setembro 2013 11:33


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