“Em termos de fortalecimento do idioma, aplicar o AO aproxima muito o
português e o galego porque as pessoas começam a ver futuras mais valias
económicas e políticas para o galego. Começam a ver a lusofonia como um
mundo mais forte em que faz todo o sentido estarmos”, explicou à Lusa
Eduardo Maragoto, coordenador da equipa de aplicação do AO no jornal.
O número de janeiro do jornal – que se considera “reintegracionista” –
aplicou o AO numa nota editorial em que explica a decisão de adotar o AO
em todos os textos de português padrão que sejam publicados no jornal.
A questão linguística na Galiza, e a defesa do galego, têm sido um dos
aspetos mais polémicos para esta região a norte de Portugal, sendo que,
em geral, quem usa o português na Galiza “fá-lo para defender o próprio
galego”, como explica Maragoto.
“Poderá haver casos de pessoas, nas universidades e no meio científico
que usam o português não por motivos políticos mas científicos. Que
consideram que o galego e português são a mesma língua. Mas a maioria
usa-o para defende o galego”, afirmou.
Maragoto explicou à Lusa que esta questão se torna crucial no seio do
movimento que tenta proteger e preservar o galego e, nomeadamente, nos
meios de comunicação “próximos a esse movimento”, como é o caso do Novas
da Galiza.
“Há uma parte significativa, não maioritária da população, dos apoiantes
do galego, que escrevem em português. Que editam jornais e paginas web.
Dentro desse grupo há quem use o português padrão. E há quem use uma
aproximação bastante grande ao português padrão. Tanto uns como os
outros juntaram-se e decidiram aplicar o acordo”, afirmou.
Maragoto explica que é uma mudança progressiva que se formalizou agora
no Novas da Galiza, o jornal generalista “mais importante” deste
movimento.
Em termos gerais Maragoto reconhece ter havido “grandes avanços na
aproximação do galego à lusofonia, ou no reconhecimento institucional do
galego”.
Em paralelo, porém, “houve um grande recuo no número de falantes”, já
que entre a população mais velha e rural se usa muito mais o galego, do
que entre os jovens e urbanos.
“O mundo de dignificação do galego continua autónomo”, explicou.
Em termos técnicos, a aplicação do AO no jornal abrange, nomeadamente, a
“supressão de muitos grupos consonânticos cultos”, que “já não eram
pronunciados nas variedades populares galegas e cultas portuguesa e
brasileira”.
O jornal reconhece que os novos hábitos gráficos poderão causar “certa
surpresa inicial [que] será compensada com o contributo para um maior
fortalecimento do galego a nível internacional”.
Para Maragoto, e depois de “duas décadas de intensos debates,
designadamente no seio da sociedade portuguesa, deixou de existir a mais
mínima dúvida de que (o caminho do AO) este será o caminho seguido por
todos os países de língua oficial portuguesa”.
Apesar do AO já resolver muitas das discrepâncias entre as normas
portuguesa e brasileira, “ainda falta bastante para a convergência
total”, sendo que os apoiantes do Galego esperam poder participar na
próxima fase desse processo.
“Esperemos que no próximo passo que os países lusófonos derem no mesmo
sentido, a Galiza possa participar em igualdade de condições. Fazemos
votos para que as instituições galegas saibam estar à altura e agir com
responsabilidade neste âmbito”, disse.
ASP.
Lusa/Fim
