O trabalho da beActive chega aos quatro cantos do mundo e contempla contratos com empresas internacionais como Universal Pictures, a FOX ou a HBO.
Briefing I A beActive comemora dez anos, qual o balanço deste tempo de atividade?
Nuno Bernardo I O resultado do trabalho da beActive ao longo destes últimos dez anos vai muito além do que poderíamos ter sonhado em fevereiro de 2003 quando abrimos a empresa. Se na altura alguém me dissesse que uns anos mais tarde iria estar a assinar acordos com a Sony Pictures Television, a ter um filme a estrear no Reino Unido com a chancela da Universal Pictures, a produzir séries para a FOX e a HBO, eu diria que essa pessoa era maluca. Mas a verdade é que para além destes feitos, únicos para uma produtora nacional, conquistamos mais de uma dezena de prémios internacionais, fomos nomeados para um Emmy e vimos o nosso trabalho ser exportado para os quatro cantos do globo, da China à Austrália, da Rússia ao Chile.
Briefing I Qual tem sido o “segredo” para o sucesso?
NB I A beActive tem apostado na diferenciação e na inovação dos seus conteúdos. Ao apostar num conceito transmedia – conteúdos criados para e distribuídos simultaneamente em diferentes media – estamos a ir de encontro às necessidades e expectativas das audiências atuais: conteúdos em qualquer lugar e em qualquer plataforma. O conhecimento que fomos adquirindo em comunicar com o público-alvo através de múltiplas plataformas tem permitido à beActive ser hoje uma empresa de referência nesta área.
Briefing I Ao fim de uma década continua a sentir-se realizado a contar estórias?
NB I A aventura da beActive começou com a história de uma adolescente e o seu diário, mas ao longo dos últimos dez anos fomos crescendo e as nossas histórias passaram a abordar diferentes temas. Desde três jovens universitários a partilhar um apartamento em Lisboa até oito mulheres numa prisão no Rio de Janeiro, passando por uma viagem pelo mundo árabe, a beActive está atenta o mundo que nos rodeia, às suas mudanças, e este tem servido de inspiração para as nossas séries e filmes. O mundo à nossa vai gerando eventos e acontecimentos que nos continuam a inspirar e entusiasmar, que acabamos por transformar nas histórias ficcionadas (e mais recentemente em documentários).
Briefing I Atualmente está presente em quatro países (Portugal, Irlanda, Inglaterra e Brasil), pretende apostar em novos mercados?
NB I Além dos países referidos – Portugal, Irlanda, Inglaterra e Brasil – a beActive tem tido uma atividade constante no Canadá onde produziu para a HBO duas temporadas das séries The Line (estreada em Portugal no MOV) e Living in Your Car (que conta com as presenças dos portugueses Ivo Canelas, Lúcia Moniz e Rita Pereira). Em 2013 estamos a tentar expandir a nossa atividade no Reino Unido – onde vamos estrear um novo filme em maio – e nos Estados Unidos onde estamos em avançadas negociações para a venda dos nossos formatos Beat Girl e Collider.
Briefing I Quais os projetos da beActive para 2013?
NB I Em 2013 a beActive vai estrear o seu segundo filme para cinema – Beat Girl – simultaneamente no Reino Unido, Irlanda, E.U.A. e Portugal. Este filme é acompanhado por uma forte presença interativa nas redes sociais, um jogo para tablet e smartphone, um livro e uma série para Web e TV. Além disso estamos em fase de pós-produção do nosso filme de ficção científica Collider (gravado em outubro passado em Dublin com a presença de Marco Costa e Teresa Tavares) que deverá estrear no outono e do documentário sobre a primavera árabe, Estrada da Revolução (que já deu lugar a um Webdoc e a um livro editado pela Leia). Estamos ainda a trabalhar ativamente na adaptação de Beat Girl ao mercado norte-americano e vamos lançar no mercado internacional um novo livro e ebook interativo “Made with Love”. Até ao final do ano vamos iniciar a produção da nossa primeira série de animação (usando a metodologia machinima).
Briefing I Recentemente foi criada a Lisbon Film Comission que tem como missão promover Lisboa como destino privilegiado de filmagens e sessões fotográficas. Qual a sua opinião sobre este projeto?
NB I A criação de uma nova film comission é sempre um passo positivo para atrair produções estrangeiras ao nosso País. No entanto, tendo em conta a concorrência internacional de muitos outros países e film comissions, não é hoje suficiente ter bom tempo, muitas horas de sol e preços competitivos. As grandes produções internacionais para se instalarem em determinado país procuram não só essas condições logísticas, mas também regimes fiscais favoráveis, os chamados Tax Credits (onde normalmente por cada 1 Euro gasto no país, a produção recebe 20 a 30 cêntimos) e cofinanciadores locais, nomeadamente institutos de cinema, canais de TV ou outros fundos públicos ou privados. A beActive tem beneficiado destes regimes e incentivos nas obras que produz na Irlanda, Inglaterra e Canadá. Temo, por isso, que se não implementarmos medidas similares no nosso país, poderemos continuar a abrir film comissions (nos últimos 10 anos abriram várias film comission um pouco por todo o país sem nunca gerar um atividade visível) para as fechar uns anos mais tarde.
Briefing I Acha que o País (e não só Lisboa) tem potencial nesta área?
NB I O país tem um grande potencial para atrair produções internacionais devido ao referido acima – clima, paisagens, horas de sol, etc. Mas os operadores e entidades responsáveis precisam de compreender as dinâmicas atuais das coproduções televisivas e cinematográficas que se regem pela existência de tax credits, de capacidade dos países de acolhimento em coproduzir e coinvestir nas obras, quer através dos canais de TV locais, quer através de fundos público ou privados. Em Portugal isto não acontece, por isso torna-se menos atrativo para uma produção se instalar em Portugal, a não ser quando o guião assim o exige ou quando existe uma grande afinidade entre os produtores e o nosso país. Na Irlanda, um país com metade da população de Portugal, a introdução de uma política de créditos fiscais aplicados ao audiovisual permitiu criar uma indústria que hoje representa 500 milhões de euros e atrair grandes produções internacionais (20 a 50 milhões de euros), ano após ano.
Fonte: Briefing

