Produtoras de som enfrentam concorrência dos “vãos-de-escada”

“Todos os que investiram em estruturas profissionais adequadas, com profissionais treinados, ressentem-se na comparação diária e sistemática com os ‘vãos-de-escada'”. A crítica é do ceo da Indigo, Manuel Faria, em entrevista ao Briefing sobre o estado do mercado da produção de som.

Briefing | Qual o estado atual do sector da produção de som em Portugal?

Manuel Faria | O som não vive separadamente dos outros parceiros do mercado. Quando este último encolhe, todos encolhemos. E tudo tem encolhido muito: em qualidade, em criatividade, em quantidade e, claro, no valor que é atribuído ao trabalho. Todos os que investiram em estruturas profissionais adequadas, com profissionais treinados, ressentem-se na comparação diária e sistemática com os “vãos-de-escada”, com o “primo-do-amigo-que-até tem-um-filho-com-jeito” ou com a “rádio-que-até-oferece-o-spot”. Há que continuar, mostrar a diferença entre o desenrasca e o trabalho bem feito e investir, cada vez mais, na criatividade.

Briefing | É adequado para a dimensão do mercado/da procura?

MF | Todos estamos dimensionados para um mercado mais próspero e ativo. Todo o País estava sobredimensionado. Por isso, estamos na fase de downsizing, tal como todo o mercado. Mudámos de instalações para umas mais modernas e funcionais para fazer face aos novos desafios.

Briefing | Qual o peso das produções publicitárias no negócio da produtora?

MF | O peso é bastante grande, embora tenhamos investido, há alguns anos, em novas apostas que vão dando frutos a pouco e pouco. A publicidade vive da urgência e, em Portugal, tudo o que não é urgente…adia-se. Por isso, as novas ideias têm muita dificuldade em ganhar dimensão. Mas o esgotamento dos canais publicitários já está a fazer os marketeers olhar para outros lados mais interessantes e mais criativos. E estamos na linha da frente desta mudança.

Briefing | Como pode o som contribuir para a eficácia de uma peça/campanha publicitária?

MF | De muitas formas. O sentido do ouvido é o nosso sentido mais apurado e o que reage de forma mais subconsciente e emotiva. Uma peça bem sonorizada tem muito mais hipóteses de comunicar algo ao consumidor que outra mal executada. E não falo só da gravação, falo sobretudo na conceção do nosso espaço de 30 segundos e o que queremos que ele provoque no consumidor. Um texto corrido do princípio ao fim tem impacto zero no consumidor porque o cérebro filtra esse som contínuo da voz. É claro que o anunciante gostaria de dizer aquilo tudo, e até pode estar convencido que o que diz será ouvido, mas terá de ter algum especialista que o aconselhe e o convença que mais vale dizer quatro frases que fiquem, do que um texto que, está provado, ninguém irá ouvir.

A escolha das vozes certas, com o tom certo e a música correta, coerente com os valores da marca e com as emoções que se pretendem passar no spot ou filme faz toda a diferença. Se essa música estiver sempre coberta pela locução, de pouco servirá.
Depois, uma boa sonoplastia ajudar a levar a história para o ambiente certo. Por fim, uma mistura equilibrada permite que o todo viva, sobressaia, se diferencie do resto do bloco e crie memórias e ligações emocionais à marca e à campanha.

Briefing | Esse contributo é devidamente reconhecido, por exemplo nos prémios de criatividade?

MF | Sim e não. Normalmente, as peças mais criativas têm mais pistas para uma boa sonorização. Não nos podemos queixar, temos tido muitas peças premiadas. Mas há outros caminhos onde o som interage com o consumidor e que não entram nos regulamentos dos festivais, muitos deles muito antiquados. Por exemplo, as nossas Sound Experiences para a Vodafone, não tinham lugar nem sequer em Cannes. Por cá, o caso mais gritante é o CCP, onde o regulamento é tão básico e antigo que já premiaram uma agência de publicidade e uma produtora de imagem com o prémio para a melhor produtora de som. Por causa disso, neste momento, nenhuma das principais produtoras de som inscreve trabalhos nesse festival e o mesmo mantém, autisticamente, o regulamento inalterado.

Briefing | O contexto económico do país, com o impacto na redução de muitos orçamentos dos anunciantes, tem-se refletido na produtora?

MF | Com certeza. Estaríamos a mentir se deixássemos a nossa veia publicitária dizer que está tudo ótimo. As dificuldades são enormes, as margens dos anunciantes diminuíram, isso reflete-se nas agências que, por sua, vez, fazem refletir na produção. Muito mais por muito menos. É o valor do trabalho que está em causa, onde há sempre alguém que faz por menos. O que não podemos deixar é baixar o valor daquilo que nos diferencia verdadeiramente, como é o caso da música original.

Briefing | Em que medida é que a promoção do país e de Lisboa como cenário de produções cinematográficas pode ser benéfico para as produtoras de som?

MF | Poderá ser se os filmes forem finalizados cá em Portugal. O cinema português tem muito pouca atividade devido à falta de apoio nesta crise. Estamos preparados para editar som e misturar em 5.1 e 7.1 e temos vários prémios internacionais de som para cinema. O que se passa é que a grande parte dessas produções é terminada fora daqui.

Briefing | Este é um sector que já está internacionalizado ou que pode vir a internacionalizar-se?

MF | Felizmente para nós que sim. E não é só Angola e Moçambique, temos clientes na Alemanha, Dubai, Emiratos, Espanha e Canadá. Há cada vez mais comunidades ligadas ao som como a Audio Branding Academy e constelações de agências independentes como a Thenetworkone. São ferramentas fundamentais de partilha e entre ajuda.
Mas é necessária muita perseverança porque o Mundo é muito grande e temos de batalhar muito para captar a atenção. Mas pertencemos todos ao mesmo planeta e a música é uma língua universal.

Fonte: Briefing

Terça-feira, 24 Setembro 2013 11:07


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