Como nasceu a ideia de transformar alterações genéticas associadas a doenças raras em matéria-prima para a criação de poesia?
A ideia nasceu da vontade de encontrar uma forma diferente de chamar a atenção para as doenças raras e, sobretudo, para o impacto que têm na vida das pessoas. Não queríamos criar apenas mais uma campanha ou mais um conteúdo para a Sobi, queríamos algo que despertasse curiosidade e permitisse olhar para estas doenças a partir de uma perspetiva diferente.
Quando começámos a investigar algumas das condições que fazem parte do projeto, percebemos que alterações muito pequenas no código genético podem ter consequências enormes na vida de uma pessoa. Essa desproporção interessou-nos muito. Algo que acontece numa escala praticamente invisível pode transformar profundamente um corpo, uma rotina e até a forma como alguém imagina o seu futuro.
Depois percebemos que havia uma ligação muito interessante com a própria linguagem. O ADN é construído a partir de um alfabeto de apenas quatro letras e, tal como acontece num texto, substituir, retirar, acrescentar ou repetir um elemento pode alterar o significado de toda uma sequência.
Foi aí que surgiu a ideia de transformar essas alterações genéticas em regras de escrita. Em vez de escrevermos simplesmente textos sobre doenças raras, quisemos que fosse a própria genética a interferir na sua construção. A poesia permitiu-nos depois chegar ao território que os dados científicos não conseguem: o medo, a espera, a adaptação, a relação com o corpo, a esperança ou a vontade de continuar a participar na vida. É muito desse encontro, entre rigor científico, linguagem e experiência humana que nasce o projeto.
Que desafios criativos surgiram ao transformar alterações genéticas, como eliminações, substituições ou repetições, em elementos da escrita?
Criativamente, a ideia estava bastante definida desde o início, incluindo a forma como queríamos que se materializasse no design editorial do livro. A verdadeira complexidade surgiu quando tivemos de transformar essa visão num sistema que efetivamente funcionasse.
O ponto mais exigente foi encontrar uma lógica capaz de relacionar um alfabeto genético de apenas quatro letras com um universo lexical suficientemente rico para gerar poemas diferentes, coerentes e ligados a cada doença e às variantes de cada uma delas.
E havia, ainda, um fator importante, que era o tempo. Queríamos fazer o pitch não apenas com uma boa ideia, mas com uma prova de conceito já testada e uma metodologia clara para produzir todos os poemas. Talvez o maior desafio tenha sido precisamente esse, o de transformar, num curto espaço de tempo, uma intuição criativa numa ferramenta que soubéssemos que podia funcionar à escala de todo o projecto.
Que papel teve a inteligência artificial neste processo e como se dividiu o trabalho entre tecnologia e criatividade humana?
A inteligência artificial entrou no projeto depois de termos definido a ideia e o princípio criativo. Primeiro, precisávamos de identificar, para cada uma das doenças, variantes genéticas documentadas e chegar à sequência de ADN correspondente. Depois, essa sequência tinha de ser interpretada segundo um sistema que criámos, capaz de estabelecer relações entre as quatro letras do ADN e um vocabulário muito mais amplo.
Foi aí que a inteligência artificial se tornou particularmente útil. Ajudou-nos a percorrer e organizar informação científica, a trabalhar as sequências genéticas e, depois, a aplicar as regras que tínhamos criado para transformar essa informação numa estrutura de escrita.
Depois começou um processo muito mais humano. Para cada doença construímos um léxico próprio, relacionado não só com as suas características, mas também com emoções, limitações, experiências e imagens que pudessem fazer parte daquele universo. Definimos, também, o estilo literário, a estrutura dos poemas e a forma como cada tipo de alteração genética se deveria manifestar no texto.
Portanto, criámos primeiro um sistema e utilizámos a tecnologia para nos ajudar a executá-lo. A inteligência artificial permitiu trabalhar uma quantidade e uma complexidade de informação que seria praticamente impossível de gerir manualmente, mas as regras, as escolhas criativas e a decisão final permaneceram sempre do lado humano.
O livro cruza poesia, ciência e design, fazendo da própria edição parte do conceito. Como pensaram a experiência do leitor para que estes diferentes elementos funcionassem como um só?
Pensámos o livro como um objeto em que nenhuma das dimensões pudesse ser separada das outras. Não queríamos ter ciência de um lado, poesia do outro e, no fim, um design que simplesmente organizasse tudo. Queríamos que a própria experiência de leitura ajudasse a compreender o conceito.
Por isso, criámos uma espécie de percurso. O leitor começa por entrar no universo de cada doença, percebe a sua dimensão científica e encontra depois os poemas que nasceram das variantes genéticas associadas a essa condição. A esses poemas juntam-se os textos em prosa do Gonçalo M. Tavares, que partem da mesma base de palavras, mas seguem um caminho literário completamente livre.
O design editorial ajuda a tornar essas relações visíveis. Cada doença tem uma expressão gráfica própria, através da cor e da tipografia, e a própria paginação dos poemas evidencia as alterações que aconteceram na escrita. Uma substituição, uma ausência ou uma repetição são claramente percebidas visualmente na página.
O que trouxe a participação de Gonçalo M. Tavares ao projeto e de que forma os seus textos contribuíram para ampliar a leitura dos poemas e da realidade das doenças raras?
Foi, sobretudo, a vontade de não fazer sobrepor o lado técnico ao lado humano na criação do livro. A sequência genética é o ponto de partida, mas aquilo que queremos aproximar do leitor é sempre a dimensão humana de viver com uma doença rara. O convite ao Gonçalo M. Tavares surgiu porque nos oferece uma segunda forma de interpretar o mesmo ponto de partida.
Os poemas nascem de um sistema muito condicionado. Partem de variantes genéticas reais e são construídos segundo regras que nós próprios definimos. Interessava-nos perceber o que aconteceria se colocássemos esse mesmo material nas mãos de um escritor, mas lhe déssemos liberdade total para o interpretar.
Foi esse o desafio que lhe lançámos. Para cada poema, partilhámos as palavras associadas a cada variante e convidámo-lo a escrever a partir delas, sem ter de seguir o sistema que condicionava a nossa escrita. Para além de um fantástico texto de abertura, o resultado foram 30 textos em prosa que acompanham os 30 poemas e que acrescentam uma perspetiva completamente autoral ao livro.
Simão Raposo



