Tendência: jornalismo explicativo

Diogo Queiroz de Andrade, Consultor de Media, Produtor de Conteúdos e Jornalista Nova moda nos media americanos: o “Jornalismo Explicativo”, que mais cedo ou mais tarde chegará aos media europeus.

Entre março e abril apareceram três projetos editoriais com dimensão e conteúdo relevante, assinalando uma nova tendência nos media norte-americanos. Todos exploram uma tendência recente do jornalismo, que é o modelo de explicador: usando informação numérica e/ou modelos de pergunta-resposta, este sites procuram apresentar as informações complexas de forma mais facilmente entendível pelos leitores. Todos recorrem a infografia, buscam a interatividade e apostam na inovação para mais facilmente descodificar temas complexos. Segue uma breve apresentação de cada um:

FIVETHIRTYEIGHT – Nate Silver era o principal blogger do New York Times, com uma abordagem estatística às notícias que se provou preciosa: foi ele quem melhor previu o resultado das últimas presidenciais americanas, por exemplo. Em dezembro, Nate Silver tinha abandonado o New York Times porque foi contratado pela ESPN para fazer um novo blog que aplica a ciência estatística a cinco áreas noticiosas: Política, Economia, Ciência, Vida, Desporto. O site é bonito e cumpre a função de explicar as notícias através de números e gráficos, embora seja mais um complemento à atualidade noticiosa do que uma proposta de informação autónoma em si mesmo.

VOX.COM – Quando Jeff Bezos comprou o Washington Post, foi confrontado pelo seu principal blogger com uma proposta para criar uma nova área noticiosa que explicasse as notícias de forma inovadora. Como a proposta foi recusada, Ezra Klein saiu do WP e ofereceu a mesma ideia ao dono da VoxMedia, e assim nasceu o Vox. Tem um modelo de explicador realmente útil e original, e possui a proposta mais arrojada e inovadora. Acrescenta realmente um olhar editorial sobre a atualidade e inclui vídeo e um grafismo diferenciado, sem medo de integrar conteúdo patrocinado.

UPSHOT – Para não ficar para trás, o New York Times seguiu na mesma linha e tentou criar um modelo de conteúdos que juntasse o melhor de ambos. Ou seja, tem o modelo numérico do fivethirtyeight e o modelo contextual da Vox, tudo embrulhado num ambiente tradicional de blog do NYT. Vai de certeza ser o mais bem sucedido, porque é uma aposta do NYT e todos os dias algum tema vai à homepage – arrastando muito tráfego para o blog. Compensa a falta de arrojo editorial e visual com a quantidade e a profundidade da análise típica do New York Times.

O fivethirtyeight e o vox arriscam mais, porque tentam levar a abordagem numérica para fora da economia e da política. Isso conduz a abordagens originais e também a erros de leitura da realidade, pelo que é um caminho perigoso que pode afastar mais leitores do que os que aproxima. Ainda assim, o Vox é o mais inovador destes três, porque não tem medo de quebrar o molde do artigo e arrisca novo conceito com os cartões explicadores – e recorre a vídeo com muita frequência, com um modelo de entrevistas descomplexado a que a maioria dos jornalistas portugueses poderia recorrer para melhorar a sua abordagem.

O mais completo em informação será o Upshot, porque rentabiliza os conteúdos do NYT, e isso dá-lhe uma vantagem comparativa relevante. É mais previsível, recusando arriscar, em grande medida porque não precisa de ser um motor de tráfego por si só.

É difícil acreditar que estes sites tenham todos sustentação por si mesmos, visto que poucos serão os utilizadores que estarão interessados em visitar tantos endereços diferentes sustentados na mesma lógica de nicho. Mas parece inevitável aceitar que a forma de jornalismo explicativo terá vindo para ficar – pelo que se espera que a maioria dos jornais credíveis inclua o conceito de explicador no seu modelo jornalístico. Se e quando isso acontecer, estes inovadores terão vingado – porque responderam a uma necessidade dos leitores e lançaram uma tendência.

Terça-feira, 06 Maio 2014 11:29


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