A docente publicou na semana passada o livro “Viver na Sociedade Digital” que assinala os 10 anos da sua carreira. Em entrevista ao Briefing afirmou que os media sociais são incontornáveis e que “as ferramentas específicas, o Facebook, o YouTube ou o Twitter, poderão até mudar com o passar do tempo, mas a passagem de um modelo comunicacional assente na divulgação para outro assente no diálogo é irreversível. É isto que os consumidores 2.0 esperam das marcas, e as que não forem capazes de corresponder a essa expectativa ficarão em desvantagem”.
Patrícia Dias acredita que a sociedade digital “evoluirá no sentido do que tem vindo a ser chamado “web inteligente” ou tecnologias “smart”” e que gerir a perda de autonomia perante as tecnologias, a par da perda de privacidade, serão os grandes desafios da sociedade digital nos próximos anos.
Briefing | Porque é que decidiu publicar o livro “Viver na Sociedade Digital”?
Patrícia Dias | Este livro resulta da minha investigação de doutoramento e, ao mesmo tempo, assinala os meus 10 anos de carreira, dedicados à investigação do impacto social das tecnologias digitais. É um livro com muito significado para mim porque reúne resultados da minha investigação durante este tempo e procura apresentá-los ao público de um modo muito prático, com exemplos do quotidiano nos quais todos nos revemos, desde séries de televisão a produtos que todos conhecemos. Para isto, contei com contribuições de colegas investigadores e de profissionais de excelência ligados às tecnologias digitais, que enriqueceram o livro com as suas experiências e visões pessoais. O livro não se destina apenas a académicos e estudantes, é um livro para todos os que se questionam sobre os efeitos das tecnologias, para todos os que desejam compreender melhor este fenómeno que vivemos todos os dias.
Briefing | O que é que é preciso saber para viver na sociedade digital?
PD | Na minha opinião, é preciso termos consciência de que as tecnologias que utilizamos nos influenciam. Influenciam as nossas práticas, atitudes e opiniões. E vão ainda mais além influenciando as nossas estruturas cognitivas. As tecnologias moldam visões do mundo, relações, transações. Tal como conhecermos as técnicas da publicidade ou as rotinas jornalísticas nos ajuda a descodificar um anúncio ou uma notícia, conhecermos o funcionamento das tecnologias com que lidamos diariamente e termos noção dos seus efeitos ajuda-nos a lidar melhor com elas, tirando maior partido dos seus benefícios e protegendo-nos melhor dos perigos.
Briefing | Como prevê a evolução da sociedade digital?
PD | A sociedade digital evoluirá no sentido do que tem vindo a ser chamado “web inteligente” ou tecnologias “smart”. Vivemos neste momento pautados por uma sobrecarga de estímulos e informação e por uma escassez de tempo. Esta conjuntura é propícia a que acolhamos com entusiasmo a ajuda que as tecnologias inteligentes nos podem dar. Estas tecnologias caraterizam-se pelo registo do nosso comportamento e pelo cruzamento dessa informação com o registo de outros utilizadores, criando perfis e descobrindo padrões. Com base nessa informação, as tecnologias pré-selecionam informação e sugerem-nos ações. Isto já acontece nas pesquisas do Google ou nos anúncios do Facebook, por exemplo. E equivale a uma certa perda de autonomia, da qual abdicamos sem problemas em troca de menos estímulos e de mais tempo. Parece-me que gerir esta perda de autonomia perante as tecnologias, a par da perda de privacidade, serão os grandes desafios da sociedade digital nos próximos anos.
Briefing | Portugal é um país que está preparado para viver neste tipo de sociedade?
PD | Na minha opinião sim. Portugal apresenta bons índices de penetração das principais tecnologias digitais. A adoção de internet móvel, smartphones e tablets tem sido muito rápida, apesar da crise. Além disso, melhorias na literacia e na educação favorecem as competências digitais. Ao contrário do que inicialmente se pensava sobre o fosso digital, de que as tecnologias da informação e da comunicação iriam acentuar as diferenças entre os mais ricos com acesso e competências e os mais pobres sequer sem acesso, esta clivagem tem vindo a diminuir porque os que aderem mais tarde às tecnologias aderem a formatos e modelos mais avançados, recuperando o atraso inicial. Os portugueses apresentam um gosto particular por gadgets tecnológicos e penso que estas tecnologias já estão integradas no quotidiano da maior parte dos portugueses.
Briefing | É coordenadora de uma pós-graduação em media sociais. Porque é que eles são hoje incontornáveis?
PD | Os media sociais são incontornáveis na medida em que a maior parte das pessoas volta atrás quando se esquece do telemóvel em casa, e porque um estudo recente revelou que, se obrigadas a escolher entre telemóvel e televisão, por exemplo, um terço dos inquiridos preferia o telemóvel. Dados como este mostram o quando o telemóvel, os computadores e a internet se tornaram indispensáveis. Num contexto mais empresarial, os media sociais são incontornáveis para as marcas porque são um espaço para partilha de conteúdos gerados pelos utilizadores. As pessoas vão escrever, comentar e partilhar o que quiserem sobre as marcas. A única forma que as marcas têm de gerir essas comunicações é estarem presentes nestes espaços, entrar nas conversas e transmitir o seu ponto de vista. É neste sentido que os media sociais são incontornáveis. As ferramentas específicas, o Facebook, o YouTube ou o Twitter, poderão até mudar com o passar do tempo, mas a passagem de um modelo comunicacional assente na divulgação para outro assente no diálogo é irreversível. É isto que os consumidores 2.0 esperam das marcas, e as que não forem capazes de corresponder a essa expectativa ficarão em desvantagem.

A sociedade digital permite às pessoas escrever, comentar e partilhar o que quiserem sobre as marcas nos media sociais e por isso a “única forma que as marcas têm de gerir essas comunicações é estarem presentes nestes espaços, entrar nas conversas e transmitir o seu ponto de vista”. Esta é a opinião de Patrícia Dias, docente e investigadora especializada em comunicação e marketing em social media e em mobile media na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.