E aí os Pais teriam de escrever João de outras formas (Juão, Jooão, Johão), só para poderem dizer que têm um filho com um nome oficial, ou seja, que mais ninguém tem. Isto é o que acontece todos os dias nos projetos onde se tem de dar nomes às coisas das marcas (elas próprias, produtos, serviços). Esta confusão não acontece na nossa vida pessoal dada a dimensão do círculo de nomes. Conseguimos distinguir os “Joãos” e guardamos na memória aqueles que nos interessam mais. Ou seja, lembramo-nos de um João (ou dois) da empresa, do primo João e do “Grande João”, aquele amigo que vemos muito de vez em quando.
No mundo das marcas é mais difícil porque o nome é um diferenciador essencial. E porque o seu círculo de nomes tem o tamanho da sua ambição. Como queremos sempre ser os maiores do mundo, de repente, estamos a ver a disponibilidade de registo de uma nova marca a nível mundial, pois ela quer dominar o mundo em 15 dias. Já não bastava a responsabilidade de criarmos o nome que vai fazer parte da vida de muitas pessoas, temos de saber fazer um que ainda não exista no mesmo mercado.
Se é relativamente comum aparecer um logótipo ou símbolo que nos lembre outro, é quase impossível que isso aconteça com os nomes. Quantos logótipos vemos com tipografia parecida, com formas semelhantes? Muitos. E nem sempre é cópia descarada. Vemos tantas coisas diariamente que alguma há-de ficar no quarto dos fundos da nossa cabeça para depois aparecer como uma boa ideia. Com os nomes, é muito mais difícil deixarmos escapar. Mais ainda registar. E com os domínios da internet, pior ficou a coisa. Ter um “.com” livre de dono é mais difícil do que pensar em “Cristiano Ronaldo” para nome de filho, mesmo que seja com a ambição de o ver tornar-se o maior do mundo na categoria de Futebolista/Modelo/Conselheiro Capilar.
Nascem, assim, montes de neologismos (ou “o que é que isso quer dizer?”) para batizar marcas e produtos. Por um lado, criam novos territórios e novos mundos de perceções. Por outro, afastam-se do seu significado e exigem mais esforço de comunicação. O seu sucesso depende da personalidade da marca e da experiência que proporciona.
Pode também optar-se por conferir novos significados a palavras existentes – quem questiona um tablet de nome “Tomate”? É tão estranho/plausível como computadores chamados Maçã.
Como dizia um senhor, estamos a ficar sem nomes para marcas. Ou então temos de nos adaptar e ser mais criativos. Ou somos homenzinhos (e mulherzinhas) e seguimos pela liberalização dos nomes, e aí as marcas terão de se esforçar ainda mais pela preferência dos seus adeptos.
Seja como for, o desafio é cada vez maior. Para quem faz disso vida (e tem de explicar aos amigos e à família que isso também é trabalho) e para os consumidores (Josés, Marias, Anacletos e afins) que gostam tanto de marcas complicadas como de caspa no cabelo.
Artigo escrito por José Cerqueira, da Brandia Central
Fonte: Briefing


