Há momentos em que um evento deixa de ser apenas um acontecimento e passa a representar muito mais do que aquilo que acontece no palco. Torna-se uma oportunidade de um país mostrar a sua capacidade de organização, a qualidade das suas infraestruturas, a competência das suas pessoas e a forma como consegue criar experiências capazes de marcar quem participa. Por detrás de cada grande evento existe uma operação complexa, feita de planeamento, tecnologia, logística, coordenação e capacidade de resposta, que raramente é visível para o público, mas que determina o sucesso de toda a experiência. É nessa dimensão, tantas vezes invisível, que se constrói a diferença entre realizar um evento e estar verdadeiramente preparado para acolher acontecimentos de grande escala.
Portugal tem vindo, ao longo dos últimos anos, a afirmar-se como um destino capaz de receber eventos de dimensão internacional, acumulando experiência em diferentes formatos, públicos e níveis de exigência. Do Web Summit à Jornada Mundial da Juventude, passando por grandes concertos, congressos, eventos corporativos e competições desportivas, cada iniciativa contribui para desenvolver conhecimento, testar capacidades e reforçar a posição do país no mapa internacional dos grandes acontecimentos. Esta evolução deve ser valorizada, mas também nos coloca perante uma questão mais ampla: estaremos a transformar a experiência acumulada numa verdadeira capacidade estratégica para organizar os eventos do futuro?
A resposta exige que deixemos de olhar para cada evento como uma operação isolada e passemos a compreender a indústria como um ecossistema que precisa de preparação contínua, investimento e articulação. A dimensão de um acontecimento não se mede apenas pelo número de participantes ou pela visibilidade mediática que alcança. Mede-se também pela capacidade de antecipar necessidades, coordenar diferentes intervenientes, responder a situações imprevistas e garantir que a experiência de quem participa corresponde à ambição de quem organiza. Quanto maior a escala, maior a exigência de integrar todas estas dimensões.
É neste percurso que o Mundial de 2030 surge como um dos grandes desafios que Portugal terá pela frente. Não apenas pela dimensão desportiva e pela exposição internacional que representa, mas pela complexidade de uma operação que envolverá diferentes cidades, infraestruturas, públicos, entidades e sistemas. A preparação para um evento desta natureza não pode ficar limitada à existência de estádios, à capacidade hoteleira ou às infraestruturas de transporte. Esses são elementos fundamentais, mas o sucesso dependerá igualmente da forma como todas estas componentes se articulam para criar uma experiência segura, fluida e memorável.
Um Mundial exige pensar na forma como milhares de pessoas chegam aos locais, circulam, entram, permanecem e saem; na forma como são informadas; na capacidade de responder a alterações e situações imprevistas; na integração entre sistemas tecnológicos; na segurança; na acessibilidade; e na hospitalidade. Exige que cada peça funcione individualmente, mas, sobretudo, que todas funcionem em conjunto. É precisamente nesta capacidade de coordenação que se encontra uma parte determinante do valor de uma operação de grande escala.
Neste contexto, os venues assumem uma importância que vai muito além do espaço físico. Um estádio, uma arena ou uma fan zone são hoje plataformas complexas de experiência, onde coexistem públicos diferentes, necessidades distintas e múltiplos pontos de contacto. A tecnologia terá um papel determinante nesta transformação, desde a gestão de fluxos e acessos à conectividade, passando pela utilização de dados para apoiar decisões em tempo real e pela inteligência artificial aplicada à operação e à experiência do público. Mas não devemos cair na tentação de acreditar que a tecnologia, por si só, é a resposta. O verdadeiro desafio está em conseguir integrá-la com processos bem desenhados e, sobretudo, com equipas preparadas para interpretar informação e agir rapidamente.
Essa dimensão humana será, aliás, uma das variáveis críticas do sucesso. Grandes eventos não se fazem apenas com equipamentos, infraestruturas ou plataformas digitais. Fazem-se com pessoas capazes de antecipar problemas, coordenar equipas, comunicar em situações de pressão e tomar decisões quando aquilo que foi planeado deixa de corresponder à realidade. A excelência operacional não resulta apenas do que está previsto nos planos, mas também da capacidade de responder ao que não foi possível antecipar. Por isso, se queremos que Portugal continue a afirmar-se no circuito internacional de grandes eventos, temos de investir na formação, na especialização e na criação de conhecimento em toda a cadeia de valor.
Portugal parte de uma posição que resulta de anos de experiência e de uma capacidade já demonstrada para acolher acontecimentos exigentes. Temos profissionais, empresas e estruturas que conhecem esta indústria e que têm acumulado conhecimento em contextos cada vez mais diversificados. O desafio está agora em transformar essa experiência numa capacidade integrada e sustentável, capaz de responder não apenas aos grandes eventos que já conhecemos, mas também às exigências dos que ainda estão por chegar.
Esta visão implica uma maior articulação entre entidades públicas e privadas, venues, operadores, fornecedores e equipas. Implica também reconhecer que os grandes eventos podem constituir uma oportunidade de desenvolvimento económico, inovação e qualificação profissional, deixando um legado que ultrapassa os dias em que decorrem. A organização de um acontecimento internacional deve ser encarada não apenas como uma resposta a uma necessidade pontual, mas como uma oportunidade para consolidar competências, desenvolver soluções e reforçar a capacidade de Portugal enquanto destino de eventos.
O Mundial de 2030 será, neste percurso, uma oportunidade para colocar à prova essa capacidade coletiva. Mas a preparação que exige não deve começar nem terminar com o campeonato. Deve integrar uma estratégia mais ampla para o futuro da indústria de eventos em Portugal, assente em planeamento, conhecimento, profissionalização e colaboração. Porque a verdadeira ambição não deve ser apenas conseguir organizar um grande evento, mas estar cada vez mais preparado para acolher muitos outros, com diferentes escalas, formatos e exigências.
A questão que temos pela frente não é apenas saber se conseguimos estar à altura dos grandes acontecimentos que Portugal terá de acolher. É perceber se estamos dispostos a preparar hoje a capacidade que queremos ter amanhã. Porque o verdadeiro sucesso de um grande evento não está apenas naquilo que o público vê. Está em tudo aquilo que foi pensado, testado e preparado para que, durante algumas horas, milhares ou milhões de pessoas possam simplesmente viver a experiência.
E é nessa capacidade de fazer bem, de forma coordenada e consistente, que Portugal poderá continuar a jogar em grande.
Rodrigo Nené, CEO da VenuesIn

