“Somos todos Marcel”. Este é o mantra que guia as equipas do Publicis Groupe nos mais de 100 países onde o grupo está presente. A expressão reflete a influência que o fundador continua a ter na cultura da organização, marcada pelo seu espírito empreendedor e resiliente. Durante a Segunda Guerra Mundial, partiu para Inglaterra para combater os nazis, e ainda foi obrigado a fechar o negócio e a recomeçar do zero.
Marcel Bleustein-Blanchet foi o primeiro de três líderes do Publicis Groupe ao longo de um século. Sob a sua liderança, o negócio foi além dos formatos tradicionais da publicidade, tendo lançado rádios, criado jingles e produzido branded content antes de o conceito existir, aproximando a publicidade do entretenimento. Hoje, a tecnologia continua a ser vista como um meio, e não como um fim. “O nosso segredo é entender a tecnologia como um meio, sendo as pessoas o verdadeiro fator diferenciador”, afirma Alexandra Varassin.
Seguiu-se Maurice Lévy, que teve um papel central na expansão internacional e no investimento em tecnologia, iniciado nos anos 1980. A sua história ficou também ligada ao incêndio na sede localizada nos Campos Elísios, em Paris, que obrigou a empresa a reerguer-se novamente.
Já com Arthur Sadoun, a aposta na tecnologia ganhou um novo impulso, numa época em que os formatos tradicionais e os hábitos das novas gerações estavam a mudar. Nos últimos 15 anos, o Publicis Groupe investiu mais de 14 mil milhões de dólares em aquisições nesta área. A compra da consultora Sapient, em 2014, gerou dúvidas sobre a ligação entre tecnologia e publicidade. Na altura, “poucos entendiam” esta aposta, recorda a CEO em Portugal. Hoje, a integração destas competências está no centro da oferta da empresa.
Em 2018, Sadoun decidiu que o grupo não participaria no festival de Cannes, uma decisão que gerou contestação. O dinheiro destinado à participação das equipas foi canalizado para desenvolver a Marcel, plataforma que reúne as ferramentas usadas pelas agências. Esta aposta revelou-se uma boa aposta porque foi essencial para ajudar a manter as equipas ligadas durante a pandemia de Covid-19. Seguiram-se aquisições em tecnologia e dados, incluindo a Epsilon. A estratégia não é comprar empresas para ganhar clientes, mas ir ao mercado e conquistá-los.
Uma oferta integrada
Alexandra Varassin está na Publicis há 11 anos e lidera o grupo em Portugal há dois. Quando entrou, assistiu ao início do modelo Power of One, que procurou integrar as diferentes áreas de competência numa oferta orientada para as necessidades dos clientes. A mudança não foi imediata. Maurice Lévy tinha adquirido várias agências e marcas como a Leo Burnett e a Starcom tinham identidades muito vincadas, construídas ao longo de anos de sucesso. O desafio passava por ultrapassar essa lógica individual e fazer prevalecer os objetivos do negócio dos clientes. “A cultura de uma agência não pode sobrepor-se às necessidades do negócio do cliente”, explica a executiva.
A mudança chegou também à avaliação dos resultados. A unificação dos P&L (Profit & Loss) foi um dos maiores desafios, uma vez que cada estrutura tendia a defender o seu próprio silo. Para contrariar esta lógica, Maurice Lévy estabeleceu uma regra clara: “No silos, no solos, no bozos”. A viragem aconteceu quando os bónus dos membros do board passaram a depender do desempenho global da empresa, e não dos resultados individuais de cada agência. Como explica Alexandra Varassin, quando a remuneração está em causa passa a ser necessário garantir os resultados do grupo. Esta alteração ajudou a alinhar as equipas e permitiu integrar novas competências na oferta aos clientes de forma mais natural.
Tecnologia com as pessoas no centro
O desafio passa por ligar tecnologia e pessoas de forma autêntica, sem que os egos se sobreponham ao trabalho coletivo. É neste contexto que surgem iniciativas como o Working with Cancer, lançado por Arthur Sadoun em fevereiro de 2023, após o seu próprio diagnóstico. O projeto procura garantir estabilidade profissional e apoiar os colaboradores com cancro, tendo sido posteriormente alargado a clientes. O grupo conta também com o Vivawomen!, uma plataforma global de empoderamento feminino, e com ferramentas de upskilling e inteligência artificial integradas na Marcel, que promovem o desenvolvimento contínuo das equipas.
Para a porta-voz, o desafio da inteligência artificial vai além da tecnologia, está na forma como é aplicada ao negócio. “O nosso papel, enquanto parceiros de negócio dos clientes, é distinguir o que é especulação do que realmente agrega valor”, afirma. A CEO considera que, apesar das oportunidades, é necessário separar as aplicações com utilidade concreta das tendências que não trazem resultados. “Há muito modismo que, no final, não gera valor real”, alerta.
Preparar os próximos 100 anos
A visão para o futuro assenta em três áreas. A Connected Media procura conhecer e ativar melhor as audiências, com uma abordagem mensurável e orientada para resultados de negócio. A Intelligent Content cria conteúdos relevantes e personalizados à escala, acompanhando e criando cultura a partir dos sinais da tecnologia. Já a Business Transformation aproxima as áreas criativa e de media através da integração de dados e identidades. A Connected Identity é uma solução global, disponível em Portugal desde 2025.
Em Portugal, a ambição é garantir que as ferramentas e capacidades do grupo chegam também ao mercado nacional, sob o princípio “No market left behind”. Algumas soluções são lançadas no país com apenas alguns meses de diferença em relação a mercados como Londres. Esta aposta acompanha o crescimento da operação portuguesa, que registou um crescimento de 18 %, em 2025, e de 17 %, em 2026. Nos últimos dois anos, conquistou 25 novas marcas e aumentou a equipa para mais de 170 talentos.
O Publicis Groupe quer que os próximos 100 anos comecem como os primeiros, “antecipando em vez de seguir”. O espírito do leão, ligado a Marcel Bleustein-Blanchet e às origens do grupo numa pequena porta em Montmartre, continua vivo. A ambição é levar essa herança para o futuro, com a consciência de que “estes 100 anos não se constroem sozinhos”.

