Casanovas é um ICON

Num tempo em que a cultura se move ao ritmo dos criadores digitais e artistas independentes, a moda já não se impõe – comunica, conecta e representa. É esse o ponto de partida para a intervenção do cofundador e diretor criativo do Nude Project, Bruno Casanovas, no ICON, em Lisboa. O evento acontece de 4 a 6 de junho, no MEO Arena.

Casanovas é um ICON

Briefing | Vivemos uma era em que os criadores de conteúdo e artistas definem o ritmo da cultura. Na sua opinião, como é que a influência digital está a redefinir o que significa ser uma marca de moda relevante hoje em dia?

Bruno Casanovas | Atualmente, se quisermos que a nossa marca seja importante, temos de nos relacionar com pessoas reais e não com uma campanha gigante que parece perfeita, mas não diz nada. Os criadores de conteúdos e os artistas não estão apenas a comunicar, estão a definir a direção da cultura. E isso muda tudo. Desde que começámos o Nude Project, percebemos que tínhamos de estar onde a conversa estava a acontecer, ou seja, nas redes, na rua, em podcasts, em eventos. A moda já não é só roupa, é o que dizemos e representamos, como o dizemos e com quem o partilhamos.

Na sua intervenção no ICON, vai abordar a ascensão de uma nova geração de trendsetters. Acredita que estamos perante uma descentralização da influência na moda? Ou seja, os nomes emergentes e independentes estão a ganhar mais poder face às grandes casas e figuras tradicionais?

Sem dúvida. Antes, eram poucas as pessoas que decidiam o que era fixe. Agora, qualquer miúdo com uma boa ideia e um telemóvel pode influenciar mais do que uma campanha que vale milhões. As pessoas estão cansadas do mesmo de sempre, do perfeito. Querem realismo, querem ligação. E é aí que os projetos independentes, os novos nomes, se estão a sair muito bem. Não é preciso a validação de ninguém para causar impacto, basta ter algo autêntico para dizer.

Enquanto diretor criativo, como equilibra a inspiração artística pessoal com a necessidade de estar atento às tendências impulsionadas pelas redes sociais e comunidades digitais?

Quer dizer, é claro que temos de estar conscientes do que se está a passar, porque vivemos nesse mundo e faz parte do jogo. Mas nunca deixamos que seja ele a ditar o que fazemos. Partimos sempre do que nos inspira: arte, música, cultura urbana, pessoas à nossa volta. Depois, claro, analisamos a forma como se enquadra no que a nossa comunidade está a viver, mas sem perder a essência.

Se nos guiássemos pelo que está na moda, perderíamos o que torna o Nude especial. Preferimos seguir o nosso próprio caminho e deixar que as pessoas se liguem a isso. Se no final corresponder à tendência, ótimo. Se não corresponder, melhor ainda.

O Nude Project nasceu com uma forte ligação ao digital e à cultura urbana. Como é que a vossa comunidade influencia o desenvolvimento criativo da marca?

Para nós, a nossa comunidade é tudo. Não é um público a quem vendemos roupa, é uma família que construímos e ouvimos. A comunidade é o coração do Nude. Desde o primeiro dia, estamos muito ligados às pessoas que nos seguem, que compram, que comentam… e muitas ideias vêm diretamente daí. Não fazemos focus groups, nem testes de mercado – falamos com as pessoas na rua, lemos as DM, vemos o que é fixe e o que não é. Para nós, não se trata apenas de desenhar roupas, trata-se de criar com as pessoas e não para as pessoas.

O crescimento do Nude Project coincide com um momento em que os consumidores procuram autenticidade e propósito. Como é que a marca gere o equilíbrio entre seguir tendências e manter uma identidade fiel aos seus valores de origem?

Tentamos não forçar esse equilíbrio. Temos sempre presente a razão pela qual começámos isto: porque não conseguíamos encontrar nenhuma marca com que nos sentíssemos representados. Se um dia começássemos a fazer coisas só porque estavam na moda, perderíamos a nossa razão de ser. É por isso que temos muito cuidado com cada drop, cada campanha, cada colaboração. O Ronaldinho, por exemplo, não é apenas uma figura mítica, mas alguém que representa o que admiramos: talento, criatividade e fazer as coisas com paixão. O mesmo acontece com Belén Esteban e Victoria de Marichalar: são opostos, sim, mas são ambos autênticos. E é isso que procuramos. Sermos fiéis àquilo em que acreditamos, mesmo que isso nem sempre seja a coisa mais “na moda” a fazer. Porque, no final de contas, o que perdura é o que vem do coração.

Carolina Neves

Terça-feira, 27 Maio 2025 12:18


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