Briefing | A Chiado Editora surgiu em Portugal em 2008. Como tem sido o desempenho de uma editora num país de poucos leitores?
Gonçalo Martins | Confesso que para a maioria das pessoas mais próximas, a minha ideia de criar uma editora em plena crise de 2008 estava entre um impulso empreendedor ingénuo e um mero resultado da minha paixão pelos livros. A Chiado Editora nasceu durante a crise e num ambiente pouco convidativo a novas aventuras editoriais, quando alguns grandes lobbies tinham ocupado todo o espaço de forma muito confortável.
Sete anos passados, podemos dizer que somos o projeto editorial a registar o maior, mais rápido e mais sólido crescimento no país. Editamos atualmente uma média de 100 livros por mês, no último ano gerámos um volume de negócios superior a dois milhões de euros (€ 2.062.122,64), e prevemos registar um crescimento de 50% este ano, para os três milhões de euros.
O nosso modelo de negócio apostou na lusofonia, na internacionalização, e em segmentos de mercado que não tinham resposta nas editoras mais clássicas. Em 2014 editámos 1.306 novos títulos em Portugal, Espanha e Brasil.
Neste momento, temos 33 colaboradores diretos e cerca de 30 indiretos, entre designers, paginadores e editores, em regime de prestação de serviços.
Não nos queixamos de poucos leitores, temos uma abordagem muito realista do mercado, queremos responder a vários tipos de consumidores e interesses.
Briefing | Diz querer democratizar o mundo editorial. Mas como é que gera melhores oportunidades para os autores? E como se reflete no preço final?
GM | A política editorial da Chiado Editora viabiliza a publicação de autores emergentes de língua portuguesa, democratizando o acesso ao livro e à cultura, é um facto.
Em 2011 investimos numa unidade gráfica e logística própria, a Chiado Print, onde é produzido, em exclusividade, o catálogo das 5 divisões internacionais. Começou com uma estrutura pequena, com um investimento inicial de 200.000 € e, neste momento, é um dos maiores parques gráficos de impressão digital do país, resultado de um investimento total próximo de 1 milhão de euros. Esta foi uma aposta estratégica, que nos permitiu assumir a liderança do mercado nas impressões de tiragens mais reduzidas, além de descer de forma muito significativa os custos globais de produção de todo o catálogo.
Controlar a impressão e a distribuição era uma meta, construída a cada dia.
Briefing | O que determina a publicação de um livro?
GM | Queremos publicar muito, sem quaisquer preconceitos nem receio de inovar.
Briefing | Como a Chiado Editora enfrenta a adesão ao ebook?
GM | O crescimento do eBook só pode ser um motivo de grande entusiasmo para uma editora. Algumas editoras deixaram transparecer uma certa sensação de ameaça aos primeiros sinais de crescimento deste formato e a generalidade ainda demora a perceber a oportunidade e a necessidade de adaptação. Um dos nossos focos principais, neste momento, está precisamente no e-commerce. Apresentámos recentemente uma importante inovação na abordagem ao mercado de eBooks ao assumir frontalmente e sem preconceitos que livro em papel e o eBook são produtos diferentes, com custos diferentes, em que questões como o número de páginas ou os processos logísticos não têm o mesmo sentido como critérios para o PVP.
Todos os nossos livros têm versão eBook e todos os eBook’s têm preço único de 3€ ou 9 reais brasileiros.
Apresentámos ainda outras duas inovações muito bem recebidas pelos nossos leitores; a cada livro comprado no nosso site, o leitor recebe gratuitamente a versão eBook e comprando apenas o eBook pode descontar o valor numa futura compra do livro em papel.
Briefing | A Chiado Editora tem mais de dois milhões de seguidores no Facebook. Como se explica este sucesso?
GM | De facto, uma editora de livros ser a maior marca portuguesa no Facebook é algo que nos orgulha e deve orgulhar a todos os apreciadores de livros e literatura. Tão importante como os 2.2 milhões de seguidores da página, conseguidos de forma totalmente orgânica, é a interação que têm com a mesma, e que se reflete em 16 milhões de Gostos mensais nos nossos posts, 1.2 milhões de Comentários, e 3.6 milhões de Partilhas. Só as pessoas que nos seguem poderão dizer porque o fazem, mas acredito que seja porque a página da Chiado é irreverente, ousada, despretensiosa, e nunca perdeu o rosto humano.
Briefing | Mas o que a diferencia das demais editoras?
GM | A Chiado entrou na festa sem convite, é uma editora que corre de trás, que começou do zero num ambiente de grandes lobbies editoriais e guardiões do templo, por isso habituámo-nos desde a primeira hora a lutar por fazer diferente, por pensar diferente, por acreditar que é possível fazer mais e melhor. Acredito que é esse espírito desalinhado que está na base do nosso rápido crescimento.
O nosso posicionamento e internacionalização estão a tornar-nos um caso isolado, em Portugal. Não somos a clássica editora, ciosa do perfil do seu catálogo. Estamos tão confortáveis a editar nomes como os de Jorge Pinto da Costa, Carlos Zorrinho, Luís Osório, Filipe La Féria ou Edson Athaíde como a desenvolver a nossa relação com autores emergentes.
A 21 de Março reunimos 700 dos 1500 autores da Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho”, no Auditório dos Oceanos do Casino Lisboa, gostamos de estimular a proximidade dos nossos autores com o seu público.
Acreditamos que existem muitas mudanças no conceito de livro e na edição e que esta é, cada vez menos elitista, ou domínio de consagrados e das grandes tiragens. Esse mundo está em transformação e é já uma miragem.
Briefing | E o que motivou na expansão para o Brasil? Quais as principais diferenças no mercado editorial destes dois países?
GM | Uma das ideias chave na génese da Chiado Editora foi a aposta na lusofonia. O foco da Chiado Editora é a língua portuguesa, mais do que este ou aquele território em particular.
Nos primeiros anos, o nosso foco estava naturalmente no crescimento da Chiado em Portugal e na publicação de autores portugueses. No entanto, desde cedo se tornou evidente que o número de leitores brasileiros interessados nas nossas obras crescia mês após mês, fenómeno que rapidamente se alargou ao número de autores brasileiros que nos enviavam os seus manuscritos. A aposta na abertura do nosso escritório de São Paulo, em Setembro de 2014, veio criar todas as condições que afirmassem a Chiado como uma editora forte e credível num mercado tão competitivo como o brasileiro. Apesar de existirem dois escritórios distintos – Lisboa e São Paulo –, não existe uma operação portuguesa e uma operação brasileira da Chiado Editora. Todos os nossos livros são publicados simultaneamente nos dois países e disponibilizados para todas as principais livrarias dos dois países.
A escala é naturalmente uma diferença fundamental entre estes dois mercados. O mercado editorial brasileiro está no Top 10 mundial, com perto de 500 Editoras activas e cerca de 500 milhões de exemplares comercializados anualmente. E olhando para o futuro, é fácil pereber a existência de oportunidades enormes para quem se souber posicionar bem agora.
Briefing | Qual o mercado com melhor desempenho no negócio da editora?
GM | Naturalmente, Portugal é ainda o nosso principal mercado. No entanto, apesar de termos aberto o escritório de São Paulo apenas no final do ano passado, o mercado brasileiro representa já 25% da operação global da Chiado e com sólidos sinais de crescimento. Em pouco tempo os dois mercados terão com certeza peso semelhante nos resultados.
Briefing | E há planos para chegar a outros países?
GM | Além de Portugal e Brasil, começámos recentemente uma operação para Espanha e América Latina com a nossa chancela Chiado Editorial, que opera de forma autónoma a partir dos nossos escritórios de Madrid. Prevemos que a Chiado Editorial feche este ano com um volume de negócios de 200.000€.
Os planos para 2015 passam por consolidar estes mercados estratégicos, mas estamos sempre atentos a novas oportunidades de internacionalização.
Estamos já a publicar algumas obras no mercado francês, alemão e anglo-saxónico, que visam essencialmente testar as operações-piloto das respetivas chancelas internacionais e desenvolver canais de distribuição, durante este ano.
Em 2016 prevemos já ter criadas as condições para a entrada nestes mercados em moldes semelhantes ao que estamos a fazer presentemente em Espanha.


Nasceu em plena crise, mas com uma média de 100 livros por mês e um negócio superior a dois milhões de euros, a Chiado Editora regista “o maior e mais sólido crescimento do país”. Quem o diz é Gonçalo Martins, fundador e CEO da editora, que prevê crescer 50%, para três de milhões de euros. A meta – diz – está em controlar a impressão e a distribuição.