Não há Rambos no CCP e o Pedro explica porquê

Não há Rambos no CCP e o Pedro explica porquêA IV Semana Criativa de Lisboa arranca esta quarta-feira e culmina domingo com a gala do Clube de Criativos de Portugal (CCP). Este ano, tudo acontece sob o mote da multidisciplinaridade: na criatividade, mais do que os heróis individuais, devem prevalecer as equipas. Cada vez mais, todos fazem tudo com todos, sintetiza Pedro Pires, o rosto da organização.

Briefing | Como surge a associação a Rambo no tema deste ano?

Pedro Pires | Os temas do CCP são quase sempre um reflexo do contexto e em que estamos a viver. Ao longo dos últimos 3 anos, falámos do desconforto como condição essencial para a criatividade, dos novos caminhos que a criatividade está a percorrer, especialmente com o impacto das novas tecnologias, da urgência da poesia, como metáfora da defesa do virtuosismo técnico e conceptual.

Este ano decidimos abordar a importância cada vez maior da multidisciplinaridade e do trabalho de equipa para o sucesso de grandes projetos de comunicação. É um reequilíbrio das partes que compõem o todo.

Briefing | É um manifesto anti-individualismo na criatividade?

PP | Sim, de certa forma sim. O individualismo pertence a uma outra época muito mais simples e linear, em que os planos não se misturavam, em que uma campanha era TV, rádio e imprensa e todos os filmes tinham 30″. Hoje, para conseguirmos fazer alguma coisa verdadeiramente relevante, temos que reunir um conjunto de disciplinas e conhecimentos que é impossível alguém dominar por completo. Já não há esse tipo de heróis e provavelmente não faz sentido haver.

Por outro lado, o CCP tem sido um exemplo vivo de sucesso com base numa estratégia colaborativa, em que reunimos um conjunto diverso de pessoas, com propostas muito diferentes para conseguirmos ano após ano apresentar uma semana de criatividade coerente e de bom nível. Isso é também um reconhecimento da importância dessa mentalidade colaborativa nos dias de hoje.

Briefing | Mas a criatividade não beneficia com o génio individual?

PP | O “génio” sozinho não produz impacto significativo. O que produz impacto é a tradução do “génio” para todos, tornando-o acessível a uma cada vez maior conjunto de pessoas. Uma grande ideia pode vir de qualquer lado; quem achar que as consegue ter todas sozinho, acho que rapidamente se vai sentir ultrapassado.

Isto não invalida o brilhantismo de uma ideia que sai da cabeça de um determinado indivíduo, de uma consistência que é dada a trabalhos pela qualidade de determinadas pessoas. A criatividade beneficia se cada vez mais pessoas conseguirem ter mais ideias. Ninguém faz nada sozinho.

Briefing | O primado das equipas é já uma realidade ou ainda uma tendência emergente?

PP | Para mim, pessoalmente sempre foi. E em termos de resultados também. A maior parte dos prémios mais relevantes dos últimos anos tem origem em trabalhos multidisciplinares. Os grandes prémios do CCP dos últimos anos são a prova clara disso.

Briefing | E em relação à colaboração entre marketing e publicidade? Inscreve-se nesta tendência? As campanhas beneficiariam de maior articulação?

PP | Uma não vive sem o outro e vice versa. E acho que a intenção de qualquer diretor de marketing é conseguir sempre essa integração e do lado das agências o mesmo se passa. 90% do sucesso da criatividade comercial passa pela qualidade do produto de marketing, pelo briefing, pela relação que se estabelece entre os diversos agentes, pelo diálogo e pela.

Creio que o sucesso não pode ser construído de outra forma nesta área.

Briefing | Cada vez mais, todos fazem tudo? É o mercado que a isso obriga?

PP | Não, cada vez mais, todos têm que fazer coisas com todos. A multidisciplinaridade não elimina especificidades técnicas ou de media. O que se exige é uma maior complementaridade.

Briefing | E o que implica para os criativos? Sair da zona de conforto?

PP | É essencial para se conseguir ser criativo. Não há criatividade confortável. A boa criatividade implica sempre um processo de rotura ou de mudança de perspetiva. Nunca de conformidade ou conforto.

fs@briefing.pt

Terça-feira, 10 Maio 2016 11:01


PUB