Uma “epifania às 4 horas da manhã” explica, por um lado, a escolha de Lisboa. Pelo menos é o que conta Rohan Silva, que recorda uma viagem à capital portuguesa, onde teve “dos melhores momentos”. Ao contrário do que acontece em cidades como Londres ou Nova Iorque, que se tornaram menos “divertidas”, explica, em Lisboa ainda se sente muita liberdade. Também o facto de a capital inglesa se ter tornado muito cara, sendo cada vez mais difícil ser-se empreendedor, fez com que muitos estivessem à procura do próximo centro criativo. Além disso, o panorama “muito interessante” da arte, moda e design levou a que Lisboa fosse escolhida para ser a primeira cidade a receber o conceito londrino. Isso e a parceria com Alexandre Barbosa, cofundador e managing partner da capital de risco Faber Ventures, a primeira a inaugurar o espaço.
A missão é a mesma que a assumida em Londres e a criatividade o centro da questão. “A razão pela qual nos importamos tanto com a criatividade é porque há muitos trabalhos que, até agora, eram executados por humanos e que estão a ser substituídos por tecnologia”. Assim sendo, “como garantir trabalhos para as pessoas?”, questiona. A resposta está em desenvolver negócios que envolvam a criatividade, porque serão mais difíceis de substituir. “Somos apaixonados por apoiar a criatividade e ajudar as pessoas a serem mais criativas, porque esta é uma das formas que temos para apoiar os trabalhos do futuro”.
Mas será que Lisboa precisava desta oferta? A adesão ainda antes da abertura é por si só um indicador. Além disso, segundo o fundador do conceito londrino, “todas as cidades precisam de espaços onde diferentes indústrias e diferentes tipos de pessoas se possam encontrar”. “Lisboa é uma cidade pequena, mas, mesmo assim, como em muitas cidades, pessoas das finanças tendem a dar-se com pessoas das finanças e empreendedores tendem a dar-se com empreendedores, e isso é a natureza humana”, explica. “O mais significante é que escolhemos Lisboa para a nossa segunda Second Home, porque adoramos a cidade e esperamos conseguir fazer coisas positivas aqui”. Trata-se, assim, de mais do que um espaço de cowork, termo que Rohan Silva diz não ser capaz de definir completamente a Second Home. “Acho que os espaços de cowork são ótimos porque ajudam as cidades a tornarem-se mais flexíveis, e isso é uma coisa boa”. A diferença é que nestes, esclarece, é apenas necessário pagar uma quantia para lá poder trabalhar, enquanto na Second Home há uma seleção, uma escolha. “Não fazemos isso porque somos ‘snobs’, porque somos um clube de sócios ou porque nos importamos com a aparência das pessoas, até porque há quem esteja de fato e gravata e há quem opte por usar uns calções”. O que é importante, afirma, é o que as pessoas estão a tentar criar, qual a indústria a que pertencem, em que estádio está a empresa. E isto para assegurar um espectro diversificado e, assim, impulsionar a criatividade.
A expressão “creative workspace” é então a escolhida para definir o conceito, embora Rohan goste mais de descrever a Second Home como uma “aceleradora criativa”. Com a ressalva de que o termo pode parecer novo e necessitar de explicação, justifica dizendo que é porque espera, através da tal diversidade, conseguir acelerar os negócios e as suas equipas. “Não acho que a criatividade venha do céu, mas é possível criar ambientes, comunidades e programas culturais onde é mais provável haver uma faísca criativa”. “Ter isto e estar ao pé de pessoas que podem ajudar a tornar algo real… é isso que estamos a tentar fazer”, afirma. Mas para isso, e considerando que há uma seleção de membros, já houve empresas a quem a entrada foi recusada. “Já dissemos ‘não’, tanto em Londres como em Lisboa”. E isto por duas razões: a primeira, explica, é quando já há algumas empresas da mesma indústria de quem se candidata. A segunda razão é quando percebe que a equipa de uma determinada empresa não terá um bom ajuste cultural. “A razão mais comum é quando as pessoas se juntam à Second Home para parecerem ‘cool’ em vez de realmente contribuírem para a criatividade”. “Se alguém se candidatar e parecer que apenas quer conviver, não é atrativo”. Para reforçar a ideia, recorda uma frase de Steve Jobs: “Entrepreneurship is trying to make a dent in the universe”. “E nós concordamos com isso”.
Com esta convicção, Rohan volta a dizer que na Second Home estão sempre à procura de diversidade, de empresas em diferentes estágios, dimensão e indústrias. “Adoramos moda, media, publicidade, branding, design, mas também adoramos equipas de grandes empresas”. É que, conta, na casa-mãe, em Londres, há empresas que até podem surpreender, como departamentos da Ernst & Young, Cushman & Wakefield, a Taylor Wessing, mas também uma equipa da agência de criatividade Wieden & Kennedy. “Agora pensa-se que só as startups podem ser inovadoras, mas a inovação também pode vir de grandes empresas, porque têm todos os meios para isso, só que às vezes é difícil ser-se criativo numa empresa grande”. Por isso, afirma, “adoramos empresas grandes junto de outras mais pequenas, queremos tantas diferentes quanto possível”. O que a Second Home está a tentar fazer com este programa, conclui, é ajudar as grandes empresas a ter a mentalidade de uma startup, pelo menos por um curto período.
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