Um beijinho para Santa Comba Dão

Um beijinho para Santa Comba DãoPassavam poucos minutos das 5 quando Eduardo Severino Cabral – o meu avô Eduardo – atravessava a estrada em frente à igreja matriz em direção ao inevitável Café Cardal. Já sentado à sua mesa, acende um cigarro e repara naquele Cadillac preto que estaciona ali perto…

Entretanto, os seus dois companheiros de café juntam-se a ele e fica completo o trio mais temido da região de Pombal. Implacáveis nas suas partidas, eles são localmente reconhecidos por serem capazes de burilar as situações mais inusitadas. Sempre com um fino recorte de humor, algo que é categoricamente negado pelas vítimas.

Um dos amigos lança para cima da mesa:

– Então sempre é verdade que o Esteves vem aí fazer uma inauguração?

“Esteves” leia-se António de Oliveira Salazar, que, por questões de segurança nacional, nunca anunciava a sua presença onde quer que fosse, apenas era citado na imprensa no pretérito: “Salazar esteve aqui, Salazar esteve ali.”

E ainda a pergunta pairava no ar quando uma nova pergunta é solenemente disparada:

– Olhem lá, e se fizéssemos “uma” ao Esteves? – diz o avô Eduardo. “Antes de vocês chegarem, estava a olhar para o Cadillac e a pensar que é igual ao do Esteves”. Aponta discretamente para o motorista, sentado duas mesas atrás deles. O carro pertencia ao homem mais rico da região, que se vangloriava de ter um carro idêntico ao de Salazar.

O motorista é então convidado a juntar-se a eles e, entre um copo e outro, perguntam-lhe se tem o carro disponível nesse sábado e que precisavam de uma boleia. Ao 12.º copo ele diz que sim e o plano entra em marcha. Preparam os fatos, escovam impecavelmente os sobretudos e escolhem os chapéus que os ajudem a passar incólumes.

Nesse sábado, à hora marcada – uma hora antes da chegada prevista de Salazar, o Cadillac preto, igual ao de Salazar, aproxima-se do local da inauguração, onde os populares se juntam. O primeiro que vê o carro, grita bem alto:

– Vem aí o Salazar! Vem aí o Salazar!

De imediato, disparam-se os foguetes. A banda começa a tocar. O presidente da câmara, o presidente da junta, o padre e o chefe dos bombeiros aplaudem. O povo corre na sua direção para saudar o seu líder. O carro fura lentamente pelo meio da multidão. No seu interior, o trio cumprimenta a multidão com acenos diplomáticos. E quando o último foguete é lançado, em vez de pararem em frente ao largo do pelourinho, seguem estrada fora para espanto de todos.

Uma hora e pouco mais tarde, quando o verdadeiro Salazar ali chega, diz quem viu que “não havia foguetes, a banda estava desafinada, e os que não estavam na casa de pasto, nem na barbearia, apresentavam um semblante carregado e desconfiado.”

O que se passou a seguir estará algures nos arquivos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado. O que se passou há mais de 60 anos é mais que uma boa estória para contar aos meus filhos e aos filhos deles. É inspiração para marcas e para a KISS:

1 – Ter uma boa ideia.

2 – Aproveitar o contexto.

3 – Não ter medo de arriscar.

4 –Pensar e agir rápido.

5 – Fazer algo memorável.

Sexta-feira, 30 Setembro 2016 10:44


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