“É preciso um toque de magia no momento de compra, a criação de um ambiente onde tudo pode acontecer! Teresa Ricou, do Chapitô, fazia uma fortuna se quisesse tornar-se consultora de merchandising. Haverá algum lugar no marketing mix para o showbusiness? Eu julgo que sim”. As palavras têm mais de 20 anos e são, provavelmente, uma das primeiras associações do nome de Teresa Ricou ao mundo das marcas.
O seu autor foi James Lanham e foram publicadas num editorial da revista “Marketing & Publicidade”, uma das publicações criadas pelo jornalista, que também fundou o Briefing, em 1989, tendo sido o seu primeiro editor. Ele escreveu o editorial uns dias depois de ter visitado Chapitô.
A consultoria em merchandising teria sido, certamente, um rumo de sucesso para Teresa Ricou mas ela preferiu outras águas, mais agitadas mas onde a busca pela realização é constante. Como afirma num vídeo que conta a história do Chapitô: “A vida não é nada fácil para quem quer viver realizado”. Hoje, 33 anos depois de ter fundado um projeto que é uma referência nas áreas da ação social, da formação e da cultura, Teresa Ricou considera que está na altura de mostrar às empresas a marca Chapitô, até porque “somos uma marca que deixa ninguém ficar mal”.
O Chapitô afirma-se como “um espaço cosmopolita e um projeto transdisciplinar” onde as artes do espetáculo, com relevância para as artes circenses, são o pilar estratégico da ação. Apresenta-se como um projeto “ancorado num modelo de organização económica comprometido e responsável que permite um fluxo financeiro das áreas de negócio (animações, eventos, marketing e publicidade) para a ação social com as populações mais vulneráveis”.
Esta matriz é para manter. Ela é o ADN de um projeto que movimenta cerca de 500 jovens em diversas ações socio culturais e de formação e que tem na Escola de Artes e Ofícios do Espetáculo (EPAOE), um dos seus expoentes. Para além da sua componente social e de formação, o Chapitô tem uma área específica, a Produções Chapitô, vocacionada para a realização de eventos e que produz e apresenta animações para particulares, empresas, media, organizações e instituições, em Portugal e no estrangeiro. “Contratar os serviços às Produções Chapitô é também uma opção cívica de Responsabilidade Social” pois as empresas “que nos procuram sabem que estão a apoiar causas sociais e a fomentar a economia social”, diz a instituição.
Teresa Ricou afirma que o Chapitô tem vários públicos e por isso é um espaço para as marcas investirem. “Há gente interessada em se aproximar de nós assim que eu faça uma aproximação ao mercado e que se perceba que é um bom investimento. Essa aproximação vai ter de acontecer e estou a preparar-me para isso”, afirma. É que uma marca “só ganha com uma aproximação ao Chapitô pois está a apoiar um projeto escolar e de responsabilidade social”, reforça Ricou.
O Chapitô é uma organização não governamental que tem parcerias com diversas instituições nacionais e internacionais. Instalada numa antiga prisão de raparigas de Lisboa, as Mónicas, no Costa do Castelo, bem perto do Castelo de São Jorge, a instituição mantém-se como uma das principais referências entre as instituições portuguesas de solidariedade social. Quando questionada sobre como é que vão ser os próximo 33 anos da organização que fundou, Teresa Ricou não se alonga em grandes explicações. Refere apenas que o Chapitô “está em pleno andamento ontem, hoje e amanhã”.
Sabe que o marketing é essencial “para o mundo inteiro ficar a saber que existimos, para vender o produto cujas receitas pagarão depois a outra parte”, leia-se a imensa rede de atividades sociais que desenvolve. O mundo, pelo menos no Norte da Europa, já sabe o que faz o Chapitô, como o provam as parcerias existentes com instituições da Holanda, da Dinamarca ou da Noruega.
Portugal, e principalmente Lisboa, também sabe o que o Chapitô faz mas muita gente ainda tem a ideia de que tudo se resume a circo e palhaços. Mostrar que a instituição é muito mais do que isso e convencer as marcas e empresas a apostar num conceito diferente de responsabilidade social é um dos atuais desafios de Teresa Ricou.
Vontade não lhe falta e experiência e know-how também não. Basta recordar que, no início do Chapitô, conseguiu convencer Tomás Taveira a oferecer o projeto de reconversão do edifício onde está instalada a instituição e a Soares da Costa a fazer as obras em regime de mecenato.
A HISTÓRIA
O nascimento do Chapitô é fruto de uma história complexa, que se inscreve no quadro dos movimentos artísticos envolvidos na mudança social: a animação, as “artes circenses”, o espetáculo “popular” efémero e a intervenção sócio-cultural, foram algumas das ações desenvolvidas nos anos 70, por Teresa Ricou, um pouco por todo o país, ora integrando companhias de circo, ora atuando nos bairros e fazendo campanhas de sensibilização cultural, muito antes da formalização da Colectividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, entidade suporte do Chapitô, e criada em 1986.
Entre 1980 e 1986 foi realizada uma “empreitada” cultural. Tratou-se de recuperar o velho edifício, património do Estado, em ruínas, e transformá-lo em casa de cultura circense. Entre apoios privados e mecenas, Soares da Costa e arquiteto Tomás Taveira, deu-se início à obra.
Em 1986, ao abrigo do protocolo com a Justiça, o Chapitô instalou-se definitivamente na Costa do Castelo e passou a ser nomeado e publicamente reconhecido. Depois das intensas obras de recuperação da casa, o espaço Chapitô/Costa do Castelo abriu as suas portas em 1987-88, e arrancou com a realização de um Curso inovador do FSE (Projecto Circo/Jovem – Curso de Expressão Circense), que ao longo de três anos formou um primeiro conjunto de profissionais, que vieram a constituir a primeira geração de artistas de cariz circense implantados no mercado de trabalho.
A partir de 1991, o Chapitô criou a Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo (EPAOE) com dois Cursos de nível equivalente ao 12º ano. A escola é um dos sustentáculos do projeto.
Ao longo dos tempos a “casa-Instituição”, foi-se convertendo em “parceiro social” e integrando múltiplas “redes”. Tem relações protocolares com uma variedade de entidades, oficiais e privadas, aos níveis local e nacional, bem como ao nível internacional.
Fonte de A História: www.chapito.org

