Vivemos num contexto em que a mudança deixou de acontecer em ciclos previsíveis. A tecnologia acelera, os mercados reconfiguram-se, os modelos de trabalho transformam-se e as certezas que durante anos orientaram empresas e organizações deixam, muitas vezes, de ser suficientes.
A instabilidade deixou de ser exceção. Passou a ser contexto.
Perante esta realidade, a criatividade ganha uma importância que ultrapassa em muito as indústrias criativas. Não se trata apenas da capacidade de gerar ideias originais, mas de saber questionar o que fazemos, olhar para um problema de outra forma e encontrar respostas quando as soluções conhecidas já não chegam.
É também por isso que a criatividade deve ser entendida como uma competência estratégica. Num mundo em transformação permanente, empresas, organizações e territórios precisam de capacidade para experimentar, adaptar-se e estabelecer novas ligações. Precisam, sobretudo, de criar espaço para que pessoas com conhecimentos e experiências diferentes possam participar na construção das respostas.
Esta questão é particularmente relevante quando pensamos na competitividade dos territórios. Durante muito tempo, essa competitividade foi associada sobretudo a fatores como infraestruturas, capacidade produtiva ou atração de investimento. Hoje, é cada vez mais importante considerar a capacidade de um território para ligar conhecimento, talento, empresas, academia, tecnologia, criatividade e instituições.
Porque ter conhecimento não chega. É preciso criar condições para que circule. Ter talento não chega. É preciso criar oportunidades para que diferentes competências se encontrem. E ter empresas inovadoras não chega. É preciso um ecossistema capaz de aproximar pessoas e setores que, à partida, podem parecer distantes.
É muitas vezes desse encontro improvável que surgem novas perguntas. E são as novas perguntas que permitem encontrar novas respostas. A capacidade de um território para criar esses encontros pode ser tão importante como a capacidade de produzir ou atrair recursos.
Precisamos, por isso, de mais espaços de diálogo e experimentação. Lugares onde seja possível cruzar perspetivas, questionar ideias estabelecidas e olhar para os mesmos desafios a partir de diferentes ângulos. Não para procurar consensos imediatos, mas para aumentar a nossa capacidade coletiva de compreender e responder à mudança.
É uma das razões pelas quais o NEXXT Leiria parte este ano de “Where Chaos Meets Creativity”. Não para celebrar o caos, mas para reconhecer uma realidade: não conseguimos controlar toda a imprevisibilidade que nos rodeia, mas podemos desenvolver novas formas de responder a ela.
A criatividade pode ser uma dessas ferramentas. Não porque permita antecipar o futuro, mas porque nos ajuda a estar melhor preparados para um futuro que ainda não conhecemos.
A competitividade dos territórios dependerá cada vez mais da capacidade de aprender, adaptar, colaborar e criar. Num contexto em que o caos passou a fazer parte do cenário, talvez a verdadeira vantagem esteja precisamente na capacidade de criar a partir dele.
André Duarte Coelho, curador do NEXXT Leiria

