A opinião de… João Rodrigues, da Cocktail Team

Como a Geração Z está a mudar o mercado das bebidas

A opinião de... João Rodrigues, da Cocktail Team

Durante muito tempo, o mercado das bebidas foi construído em torno de hábitos relativamente previsíveis: o vinho à mesa, a cerveja entre amigos e os cocktails associados à noite ou a momentos de celebração. Hoje, este mapa está a mudar e uma das forças que mais contribui para esta transformação é a Geração Z.

Mais do que uma mudança de preferências, estamos perante uma nova relação com o consumo. Para os mais jovens, escolher uma bebida é também uma forma de expressão, de descoberta e de partilha. O produto continua a ser importante, mas já não chega por si só. A experiência ganhou protagonismo.

As redes sociais têm um papel evidente nesta transformação. Basta um cocktail surgir no TikTok ou no Instagram para despertar a curiosidade de quem o vê. A cor, o copo, a forma de servir ou um ingrediente inesperado podem ser suficientes para criar vontade de experimentar. A apresentação tornou-se, assim, uma porta de entrada para o consumo e uma parte importante da experiência.

Mas há uma regra que não muda: um cocktail pode ser visualmente extraordinário, mas tem de saber bem. Uma apresentação surpreendente perde todo o valor se não corresponder às expectativas de quem a prova. O verdadeiro desafio dos profissionais está em conciliar criatividade, estética e qualidade, sem deixar que a imagem se sobreponha ao sabor.

Esta procura de novas experiências também se reflete na crescente atenção às bebidas sem álcool. A moderação e a liberdade de escolha estão a ganhar espaço, alargando o conceito tradicional de convivialidade. Um mocktail não tem de ser apenas um sumo servido num copo elegante, pode combinar ingredientes frescos, explorar contrastes de sabores e exigir a mesma técnica, criatividade e cuidado de um cocktail com álcool.

O importante é que ninguém sinta que está a perder parte da experiência por escolher uma alternativa diferente. Há quem prefira um clássico, quem procure uma combinação inesperada e quem simplesmente não queira consumir álcool. Um mercado mais atento a estas diferenças é também um mercado capaz de responder a mais pessoas e a mais ocasiões de consumo.

Outra tendência relevante é a vontade de participar. A experiência já não se limita a receber uma bebida ao balcão. Nos workshops de mixologia, por exemplo, há interesse em usar o shaker, experimentar combinações, provar ingredientes e perceber como se constrói um cocktail, transformando o consumo numa atividade social, interativa e memorável.

Esta curiosidade exige também uma maior personalização porque nem todos gostam de bebidas doces, tal como nem todos procuram sabores frescos, ácidos ou intensos. Saber ouvir, fazer as perguntas certas e compreender as preferências de cada pessoa tornou-se tão importante como dominar uma receita. A capacidade de aconselhar e adaptar uma proposta é parte essencial da experiência.

É também aqui que o papel do bartender está a evoluir. A técnica, a organização e o conhecimento dos ingredientes continuam a ser fundamentais, mas já não são suficientes. É preciso saber comunicar, explicar o que se serve, interpretar tendências e criar uma relação com o cliente. Nas escolas de formação, este equilíbrio entre competência técnica e capacidade de relacionamento é cada vez mais importante.

A influência das redes sociais traz ainda um desafio adicional: muitos jovens chegam com referências visuais e ideias que querem experimentar. Essa curiosidade é uma oportunidade para a profissão, desde que seja acompanhada pelas bases necessárias para garantir qualidade, consistência e segurança na preparação das bebidas. Inovar não significa fazer tudo o que está na moda, mas saber transformar uma tendência numa proposta que funcione verdadeiramente.

Não acredito que os cocktails clássicos vão desaparecer, nem que todos os consumidores vão deixar de beber álcool. Acredito, sim, que os bares terão de oferecer mais escolha, estar atentos à apresentação e investir na qualidade do serviço. As tendências podem despertar o interesse, mas é a experiência completa que determina se alguém vai querer repetir.

É essa, talvez, a maior mudança trazida pela Geração Z: a necessidade de ouvir mais, experimentar mais e deixar de assumir que sabemos, à partida, o que o consumidor procura. Podemos criar o cocktail mais original do mundo, com uma apresentação capaz de conquistar as redes sociais. Mas, no final, o que realmente importa é que a pessoa goste do que bebeu, se sinta bem atendida e tenha vontade de voltar. É aí que a criatividade se transforma em valor e que uma boa bebida passa a ser uma boa experiência.

João Rodrigues, formador da Escola da Cocktail Team

Sexta-feira, 23 Outubro 2026 12:05


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