O sem-abrigo gourmet

O sem-abrigo gourmetQuem como eu nasceu no norte sabe muito bem dar valor às noites quentes de verão. Isso e não ver os amigos que vivem a 300 quilómetros de distância fez com que ficasse à conversa até mais tarde.

Quando já ia a descer os Clérigos à procura de um táxi, cruzo-me com um rapaz magro, muito magro, de gorro na cabeça e mochila às costas. Deve ser turista, esta cidade está cheia de turistas, pensei.

– Desculpe incomodar, saí de casa dos meus pais há duas semanas e tenho andado por aí… Agora estou a dormir no jardim do morro em Gaia, e não como nada desde as 10 da manhã. Pode ajudar-me?

Imaginar o rapaz a dormir naquele jardim que fica a dois passos lá de casa fez-me parar.

– Olha, queres ir jantar ao Piolho? (O Piolho é um restaurante que fica ali perto e está aberto até tarde.)

– Hum… Ao Piolho?? – torce literalmente o nariz. Estava a apetecer-me uma sandes de presunto da badalhoca com um espadal fresquinho.

– A esta hora? Já está fechado…

– Então e um pratinho de rojões no Big Ben? Ia bem.

– O Big Ben ainda é longe daqui.

– Uma francesinha no Capa Negra?

– Desculpa? Anda comigo ao Piolho que eu pago-te o jantar.

– Hum… Deixe estar.

Virou costas e seguiu a vida dele. Eu apanhei o táxi e enquanto revia aquela cena que mais parecia um sketch, pensava numa frase que o meu pai me disse várias vezes. Foi entre o 11.º e o 12.º ano, na fase em que se tem de escolher um curso que fará de nós adultos importantes. Sempre que o tema vinha à baila, eu, influenciado pelo outdoor do Dasex do Dariz que estava à porta da escola e pelo filme da prevenção rodoviária que martelava cabeças que saíam de uma mesa, não tinha qualquer dúvida: “Quero tirar um curso relacionado com publicidade”. O meu pai, que sabia que eu tinha média para Direito em Coimbra ou Psicologia no Porto, respondia com a mesma assertividade: “O importante é que escolhas algo que gostes.” E assim foi, e por isso lhe estarei sempre grato.

Quanto ao rapaz magro que se cruzou comigo naquela noite, e que definitivamente não gostava do Piolho, devo-lhe um pedido de desculpas por ter tentado impingir o critério de proximidade e não o da felicidade.

Afinal, o importante é escolher aquilo de que se gosta.

Segunda-feira, 28 Novembro 2016 09:40


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