O controlo profissional
Ninguém tem, sobretudo nesta atividade. O controlo é quase uma coisa que nem é bom ter muito, é só o q.b., porque as ideias não são coisas que se controlem ou que sejam tão melhores quando são controláveis. Uma dose de descontrolo e de coisas que acontecem por acaso é bom. Nunca tive muito controlo sobre o trabalho que produzo, nem sobre a minha carreira. As coisas vão acontecendo e eu vou indo com a corrente.
O ballet
Liderar equipas é menos doloroso fisicamente do que dançar em pontas, mas mental e emocionalmente consegue ser tão doloroso como isso. No outro dia, encontrei as minhas sapatilhas de pontas em casa, tentei calçá-las e foi uma dor lancinante, que já não me lembrava que sentia antes. E liderar equipas é doloroso às vezes, muito doloroso.
A dor física é uma coisa que podemos controlar, ou não, ou desistir. A dor emocional não é assim, e eu sou uma pessoa naturalmente empática, portanto acabo por sentir – às vezes demasiado – as dores e as emoções dos outros. É complicado, porque também temos de fazer coisas que sabemos que as pessoas não vão gostar.
O copy
Eu lembro-me de ter ficado muito marcada com os headlines do The Economist, que ocupavam páginas vermelhas, tinham lettering branco e eram só mesmo os headlines. Gostava de ter escrito alguns desses e de escrever tão bem como Javier Marías, que é um escritor que eu adoro e que já morreu. Sim, tenho essas invejas todas.
A notícia
De repente, veio-me à cabeça um obituário sobre mim. Quer dizer que já estou há tempo demais nisto. Mas não sei, provavelmente, uma notícia que dissesse “uma das mulheres criativas com mais longevidade nas agências”. Porque, na verdade, havia bastantes quando eu comecei, inclusivamente em cargos de direção, mas, ao longo do tempo, foram desaparecendo, parece que vão caindo pelo sistema. Eu tenho conseguido manter-me, a fazer coisas diferentes, é verdade, e com níveis de responsabilidade diferentes, mas já lá vão muitos anos e, provavelmente, não vai acabar tão cedo.
Carolina Neves


