A vida dupla de Samuel Meneses

A vida dupla de Samuel Meneses

Desde miúdo que Samuel Meneses batia com os lápis, canetas, ou – “à falta de melhor” – com os dedos em todo o lado, como se fossem baquetas. Estivesse na rua, nas aulas, ou no supermercado, era comum brincar com ritmos que imaginava. “Entretinha-me muitas vezes só com isso”, conta o diretor de Arte da Winicio. Mas, na verdade, enquanto adolescente nunca se tinha conseguido interessar mais a sério por música, porque a imagem que tinha resumia-se aos amigos que iam para as filarmónicas e que acabavam por aprender a tocar instrumentos de sopro, que, na altura, não lhe despertavam muito interesse.

Por isso mesmo, além daquele bichinho rítmico embrionário que já tinha, a prática da música só foi surgindo numa altura um pouco mais tardia. O primeiro instrumento, o baixo, teve-o aos 16 anos, quando um amigo que tocava guitarra no grupo de jovens da igreja o incentivou a experimentar aquele instrumento, para poder tocar com ele nas missas e nas atividades do grupo, complementando o som um do outro. 

“Foi aí que comecei a aprender o instrumento sozinho, com a ajuda da crescente imensidão da internet, e a estar cada vez mais atento à música que me rodeava”, conta.

Desde aí, aos 18 anos, apesar de se ter afastado da Terceira para ir estudar para Lisboa, continuou o contacto direto com a música ao fazer parte da tuna da Faculdade, onde começou por tocar contrabaixo e onde depois aprendeu a tocar guitarra. Foi lá que se cruzou com muitas gerações de amigos, com todo o tipo de gostos musicais, muita vontade de aprender e de tocar/cantar, e uma partilha constante de referências importantes para aquela fase de desenvolvimento musical. “Muitos deles inspiraram-me com os seus respetivos projetos pessoais, ajudaram-me a ter confiança nas minhas capacidades e versatilidade, e até me deram a oportunidade de fazer parte de alguns desses mesmos projetos”, diz.

Durante a sua estadia na tuna, já tinha tido a oportunidade de fazer parte de alguns projetos, mas só quando efetivamente saiu é que ganhou tempo livre para se dedicar a “este bichinho”, que cada vez mais se foi desenvolvendo.

Surgiu, então, durante a pandemia, com um dos seus amigos e colegas de casa da altura – Ricardo Dias – a ideia de criarem um projeto próprio de originais, e que o ajudou a despertar o interesse para a parte da produção musical, e todas as vertentes técnicas que ela implica. De tal modo que as suas músicas têm sido, até agora, “produções totalmente DIY”. Tem também andado, em conjunto com André Vazão, a produzir os seus originais, enquanto Bicho Vazão, cujos ensaios já decorriam antes da pandemia e que, entretanto, conseguiram retomar. Mais recentemente, voltou ainda a fazer parte do projeto de Inês Marques Lucas, que lançou em 2023 o seu primeiro álbum em nome próprio.

“A própria pandemia levou a que fosse fazendo crescer aos poucos um miniestúdio caseiro, onde tenho tido a oportunidade de receber os ensaios e as sessões de produção da maior parte dos projetos em que estou. Tem sido um prazer receber os meus amigos em casa várias vezes por semana para fazermos algo que adoramos, depois dos nossos dias de trabalho”, comenta o criativo.

“Nos ‘tempos livres’ dos tempos livres”, foi também começando a interessar-se por outros tipos de instrumentos, como os sintetizadores e as drum machines. E tem tentado explorar cada vez mais outros géneros musicais e a sua própria identidade como músico, muitas das vezes experimentando texturas mais eletrónicas, seja individualmente, seja com os restantes projetos. “Daí também ter o objetivo de continuar a desenvolver um projeto mais experimental em nome próprio”, revela.

Paixão crescente

A música tem sido quase como uma vida dupla, ou uma versão alternativa de vida, como se fosse um agente duplo a servir duas entidades diferentes, em dois mundos praticamente independentes um do outro. “Tem sido um hobby por vezes tão cansativo quanto esta experiência poderia ser, se fosse verdade”, adianta. Com ensaios vários dias por semana, logo a seguir a dias de trabalho só por si intensos. Por isso, tem sido igualmente um excelente escape, que proporciona uma liberdade e permite uma criatividade que não são possíveis noutros tantos aspetos da vida adulta. “Tem-se tornado uma paixão crescente”, revela, notando que quanto mais vai fazendo e aprendendo, mais quer fazer e aprender.

Encara a música como uma espécie de canivete suíço com as mais variadas funções e efeitos. “Tanto pode ser um moodsetter, pode aumentar o ritmo, dar motivação, animar, acalmar, ajudar a pensar e também ajudar a não pensar. É uma ferramenta tão poderosa que só temos que aprender a controlá-la bem”, observa.

A música faz com que tenha um espaço à parte do seu dia a dia profissional que pode servir também de tela em branco e brainstorming criativo onde é o seu próprio cliente e impõe os seus próprios limites. “Isto ajuda-me também a ganhar confiança para os trabalhos da agência, porque nestas atividades estou também a estimular a minha criatividade”, adianta. “Por outro lado, as características e as sensações provocadas pelas músicas que vou ouvindo inspiram-me muitas vezes para essas mesmas texturas e equilíbrios que podem ser construídos na direção de arte”.

Para o futuro, o sonho musical é “apenas” continuar a partilhar com os amigos estes bons momentos de descobertas e pequenas conquistas pessoais, de forma individual e coletiva, e eventualmente conseguir partilhá-los também com mais pessoas que se possam identificar com os trabalhos. Tocar num Musicbox cheio de amigos seria um desses sonhos.

Como diretor de arte, a ambição também é “grande”: “quero mover as pessoas respondendo à atualidade. Quero descobrir e enfrentar novas necessidades, atendê-las com eficácia e criar impacto. Quero pegar na mesa gráfica e materializar boas ideias, ser atual, surpreender e arriscar”.

Além de ambicionar conquistar prémios e reconhecimento, o principal sonho enquanto diretor de arte é poder continuar a trabalhar em agências “cheias de malta criativa” que o continue a inspirar todos os dias e o ajude a fazer um bom trabalho. “Essa tem sido a mais-valia de trabalhar em publicidade, porque todos os dias são diferentes, com problemas e soluções novas, e todos os dias me tenho sentido um sortudo por poder dizer que o meu trabalho é ser criativo”, finaliza.

Sexta-feira, 26 Julho 2024 11:23


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