Briefing | A Liga Portugal tem vindo a afirmar-se como uma marca com identidade própria, para lá dos clubes. Que estratégia de branding está por trás dessa evolução?
Susana Curto | A Liga Portugal tem, um pouco à luz daquilo que tem sido a tendência internacional de evolução, olhado para o futebol, nomeadamente para o futebol profissional, numa lógica evolutiva. Portanto, temos de nos adaptar aos tempos. Sabemos que há caminhos inevitáveis, por isso, há alterações que têm obviamente de ser feitas e a Liga tenta seguir essa tendência.
Adicionalmente, as marcas presentes nas competições eram, por norma, até há alguns anos, muito focadas nas CamCarpets [tapetes publicitários de alta visibilidade] e nos painéis. E o que tentámos foi ultrapassar isso e trazer uma maior visibilidade das próprias marcas, noutro tipo de ativações e de produtos, de forma a criar uma experiência muito maior para o consumidor final, neste caso, para o adepto. Humanizar o futebol é ir além daquilo que são as práticas e as tendências mais habituais.
Tem sido esse o caminho e, este ano, temos vários parceiros e patrocinadores com quem desenvolvemos ações e ativações que são disruptivas – até diria disruptivas no sentido daquilo que era o tradicional.
E a ação não se prende só com uma componente comercial ou de marca, mas a outros níveis: a ponderação nos quadros competitivos, as condições e o contexto económico da própria indústria do futebol, que também tem de ser revista. Há aqui um atuar em várias áreas no sentido de apoiar as sociedades desportivas, de forma a reforçar o papel de cada uma num campeonato cada vez mais competitivo e internacional.
Hoje, o futebol é mais do que o jogo, é conteúdo, entretenimento, experiência. Como se posiciona a Liga neste novo ecossistema mediático?
No nosso quadro diretivo mais estratégico, um dos colegas tem a pasta dos Conteúdos, porque reconhecemos a importância que tem toda esta área de conteúdos digitais, em particular no contexto do processo de centralização dos direitos audiovisuais.
Há toda uma intensa atividade que ultrapassa aquilo que se passa nas quatro linhas, nomeadamente no digital, na gamificação e no eGaming, e que tentamos acompanhar, como é óbvio.
Que espaço ocupam os valores do desporto – respeito, equipa, fair play e inclusão – na construção da marca Liga Portugal?
É curioso fazer essa pergunta – seria daquelas perguntas que pediria para me fazerem. O slogan da nossa direção é “Uma liga para todos” porque a questão dos valores assume, para nós, uma importância tremenda. E isso pauta-se não só ao nível da Fundação do Futebol, que já por si tem essa missão, mas nas nossas ações e atitudes, naquilo que transportamos para fora. Somos responsáveis por transmitir isso. E o futebol tem uma força inacreditável, conseguindo juntar as pessoas, independentemente da raça, do credo, do idioma; por isso, tem a responsabilidade de ter impacto social e de passar os valores.
Ao nível da Fundação, estamos a desenvolver uma série de ações com vários parceiros e entidades, como a PSP, a GNR, o Ministério da Educação e a APCVD [Autoridade Prevenção e Combate à Violência no Desporto], porque consideramos que temos a missão e a responsabilidade de passar e de tornar o futebol como uma força que une, junta, agrega e não o contrário. Claramente, esses valores estão na ordem do dia.
O futebol está numa fase quase de alteração de paradigma por vários motivos. E é a tempestade perfeita para mudarmos aqui algum mindset, algumas mentalidades.
Que novos formatos de marketing e ativação estão a ser explorados para aproximar adeptos e marcas?
A aproximação ao adepto é um dos nossos grandes desafios. É mesmo uma das linhas de orientação do Plano Estratégico da Liga para 2023-27. O compromisso com o adepto assume diversos pilares, não só por lhe proporcionar a melhor experiência em dia de jogo. As questões dos valores e da inclusão também se colocam: o estádio tem de ser um espaço seguro, onde as famílias podem estar, porque é um dia de festa, um dia de celebração. A par com os futebolistas e as sociedades desportivas, o adepto é um elemento fulcral, uma peça-chave. Por isso, tem havido uma grande preocupação por parte das sociedades desportivas. Há uns anos, a questão da responsabilidade social não era um tema. Não era, de todo, uma prioridade. A Fundação do Futebol tem feito um trabalho enorme a incentivar as sociedades desportivas para que tenham a sua própria fundação ou, no caso de não a terem, para que exista uma área que esteja atenta a esses aspetos. E todas têm planos e projetos executados ou em curso na área de responsabilidade social. Todas, sejam as da Liga Betclic, sejam as da Liga Meu Super.
Mas estamos, enquanto Liga Portugal, a desenvolver vários projetos. Um deles é o “12.º Jogador”, que é o adepto. A nossa Liga TV também tem produzido um conjunto em crescendo de conteúdos que criam engagement, como as séries “Sem filtros”, “Capitães” ou “Homem do Leme”, onde os protagonistas – jogadores e treinadores –, bastidores e emblemas de cada um são narrativas de sucesso audiovisual.
Que peso têm hoje os dados e a tecnologia nas decisões estratégicas da Liga, nomeadamente na relação com o público e com os parceiros?
É um caminho incontornável. Em várias componentes, quer em termos de fortalecimento da ligação entre o jogo e o adepto, através de novos formatos, quer em termos de conseguirmos ter data e conhecimento que permita melhores decisões – por exemplo, o treinador analisar o comportamento do seu atleta, melhorar a sua performance, etc..
As coisas estão muito avançadas. Um dos nossos projetos para esta época e a próxima é conseguir desenvolver um cluster de inovação com startups, ao nível nacional e internacional, para termos acesso, em primeira mão, a estas novas soluções, e conseguir – em contacto com os próprios clubes – testar e validar porque vai ser imprescindível.
Também nos próprios conteúdos, há a introdução de muitas soluções digitais. Não posso afirmar que será uma realidade, mas, em princípio, vamos conseguir no final da Taça da Liga, a Allianz Cup – que se vai realizar em 10 de janeiro, em Leiria –, comercializar os direitos de transmissão televisiva para o estrangeiro, nomeadamente, para outras geografias bem distantes. E estamos a utilizar uma tecnologia que permite formatar e personalizar a publicidade que aparece naqueles locais. Portanto, a publicidade que vai aparecer em estádios não vai ser a mesma que vai aparecer na televisão, por exemplo, no Dubai.
É uma evolução natural – e ainda bem que assim o é. Há novas fontes de receita, abre novos mercados e consegue-se chegar a determinados targets. A energia do futebol está a adaptar-se aos novos tempos e a transformar-se também, por isso, temos de estar atentos e conseguir responder à altura.
*Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa de outubro de 2025
Carolina Neves

