Vivemos tempos acelerados. Esta frase, que se dá como um facto, não é mais do que uma constatação da realidade vigente que, aos nossos olhos, toma contornos acentuados porque a sentimos na pele, na mente, nos órgãos, no espaço. Tudo aquilo que nos rodeia nos parece, hoje, mais frenético. O tempo tornou-se um bem valioso, inestimável – e, sobretudo, impassível de mercantilização. À luz do ano de 2026, gostaríamos de poder comprar tempo para estarmos com as pessoas que amamos; tempo para fazermos aquilo de que gostamos; tempo para fazermos aquilo de que não gostamos, mas que é necessário estar feito; tempo para aproveitarmos o tempo que temos.
Em 2003, numa comunicação apresentada em Coimbra (no XVII Encontro de Filosofia, Cultura & Cidadania) a filósofa espanhola Victoria Camps dissertava já sobre a forma como via a sua Sociedad de la Información y Ciudadanía. No seu entender, os meios de comunicação viam-se minados por dois tipos de tiranias que lhes velavam o rigor e a verticalidade: por um lado, a Tirania da Velocidade – que nos impõe um tipo de informação que, ainda que pouco criteriosa, é rápida – e, por outro, a Tirania do Espetáculo – que vive da teatralização das mensagens, que toldam e inebriam o julgamento fundamentado, com recurso a tudo o que, ainda que oco, é visualmente apelativo. Deveríamos, em conjunto, refletir pela opção generalizada que a sociedade moderna tem tomado, escolhendo rapidez e performance, em detrimento de ponderação e análise. A autora seleciona criteriosamente o termo “tirania” de forma deliberada, e a não-inocência da opção por esta palavra deixa antever o impacto que estes dois conceitos vêm exercendo nos cidadãos, manifestando-se mais do que nunca na sociedade atual: nos dias de hoje, tudo o que nos chega é veloz e é espetacular. Inevitavelmente, tudo o que chega aos alunos nas nossas universidades é célere, triturado, vistoso e agradavelmente apresentado para um fácil consumo.
Cabe-nos, enquanto docentes, a responsabilidade de incutir a visão crítica que combate o facilitismo de raciocínio e incute o pensar mais além. Torna-se imperativa a transmissão desse estímulo, do encorajamento pela curiosidade, para que os nossos estudantes pratiquem o gosto pela procura, não se contentando com a informação mastigada que lhes é oferecida por cognições fabricadas; para que não percam o que neles, e nos demais, é humano: o despertar para um mundo que pensa, que se relaciona, que aprende com o seu par e que o ensina também. Os tempos são de tirania, mas é possível revertê-los com preocupação consciente e agente; com inconformismo face a um mundo onde a humanidade é secundária.
Ana Margarida Coelho, coordenadora do CTeSP em Comunicação e Marketing do ISEC Lisboa

