Acess Lab: “A tecnologia foi provavelmente o maior motor de progresso”

Da inteligência artificial à Língua Gestual Portuguesa, passando por novas políticas de bilheteira e pela certificação de espaços, a acessibilidade está a deixar de ser um conjunto de projetos pontuais para assumir uma dimensão mais estrutural nos festivais e eventos culturais. O cofundador da Acess Lab Tiago Fortuna faz o balanço à Briefing do último ano e identifica um desafio maior: criar standards universais que tornem a acessibilidade uma regra, e não uma exceção, na cultura e no entretenimento.

Acess Lab: "A tecnologia foi provavelmente o maior motor de progresso"

Briefing | Na última conversa com a Briefing, diziam que o setor tinha evoluído muito nos últimos anos, mas que ainda havia um longo caminho a percorrer. Passado um ano, o que mudou? Que avanços concretos destacariam na acessibilidade dos festivais e dos eventos culturais em Portugal?

Tiago Fortuna | Continua a mudar. Este ano, a tecnologia foi provavelmente o maior motor de progresso. Passámos de projetos-piloto para recursos que estão efetivamente nas mãos das pessoas: audiodescrição com recurso a inteligência artificial, aplicações que permitem aceder a Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição em diferentes pontos dos recintos ou tecnologias que começam a tornar estes recursos mais sustentáveis e fáceis de replicar.

Mas também houve avanços menos tecnológicos e igualmente importantes. Temos mais festivais com bilhete de acompanhante, melhor informação sobre acessibilidade. E conseguimos algo que procurávamos há vários anos: uniformizar a gratuitidade do bilhete de acompanhante nos cerca de 400 equipamentos culturais do Estado.

O caminho continua a ser longo porque ainda falhamos em coisas muito básicas. Uma boa aplicação não resolve uma plataforma de mobilidade reduzida mal localizada ou uma casa de banho inacessível. Precisamos das duas coisas.

Na altura, referiam que havia mais marcas e promotores a procurar a Access Lab, já não apenas por uma questão de cumprimento, mas por reconhecerem o valor da acessibilidade. Essa tendência consolidou-se ao longo deste último ano? Como evoluiu a procura pelo vosso trabalho?

Sim, e acho que a principal mudança está na ambição dos projetos. Já não nos procuram apenas para colocar uma rampa ou garantir um recurso específico num determinado dia. Há organizações que querem pensar toda a experiência e construir projetos para vários anos.

Nos festivais, continuam a as marcas a investir na mudança. Este ano trabalhámos com a NOS, a Fundação Ageas, Fundação MEO e MEO e todas encontraram territórios diferentes para intervir. Isso é muito positivo porque mostra que a acessibilidade não deve ser uma competição.

Uma das principais reivindicações era a criação de uma categoria de bilhete para pessoas com deficiência. Houve avanços nesta matéria ou continua a ser um dos principais desafios por resolver?

Continua por resolver e continua a ser fundamental. Sem uma categoria de bilhete não temos dados: não sabemos quantas pessoas com deficiência compram bilhetes, que eventos frequentam ou quantas deixam de comprar por não encontrarem condições.

Mas houve um avanço muito importante. Este ano foi instituído o decreto-lei 65/2026 com a gratuitidade do bilhete de acompanhante em cerca de 400 equipamentos culturais do Estado e vários festivais privados adotaram voluntariamente a mesma política. Nós fizemos essa transição com o Ageas Cool Jazz e com o MEO Marés, mas sabemos que outros festivais como o Primavera Sound e o Vodafone Paredes de Coura também começaram a fazê-lo. Faltam mesmo poucos festivais, o problema, agora, são salas privadas. Mais de 600 contando com cinemas.

Nós não defendemos que uma pessoa com deficiência não pague bilhete. Defendemos que não tenha de pagar dois para conseguir ir a um concerto. É uma questão de equidade, mas também de negócio: estamos a remover uma barreira à compra.

Estiveram presentes em vários festivais, como o NOS Alive, o Ageas Cool Jazz e o MEO Marés. Que balanço fazem desta edição dos eventos, e quais foram as principais conquistas e aprendizagens?

Foi provavelmente o nosso Verão mais completo porque os três festivais mostraram caminhos diferentes.

No NOS Alive, com a NOS, lançámos a Guia-NOS e testámos audiodescrição gerada por inteligência artificial para pessoas cegas e com baixa visão. No Ageas Cool Jazz, com a Fundação Ageas, trabalhámos uma política de bilheteira inclusiva, Língua Gestual Portuguesa, coletes sensoriais e a certificação de Festival Acessível pelo Turismo de Portugal (que culminou com a visita da Ministra da Cultura, Juventude e Desporto). No MEO Marés, continuámos um trabalho de três anos com a MEO e a Fundação MEO e estreámos a app Sentido que permite aceder a Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição através do telemóvel em qualquer parte do recinto.

A maior aprendizagem talvez seja que não existe uma única forma de trabalhar acessibilidade. Há problemas diferentes e soluções diferentes.

E há uma coisa que repetimos muitas vezes às equipas: tão importante como comunicar aquilo que um festival tem é dizer claramente aquilo que não tem. Para uma pessoa com deficiência, essa informação pode determinar se compra ou não um bilhete.

Olhando para os próximos anos, qual é hoje a grande prioridade da Access Lab? Há algum objetivo que considerem essencial alcançar para que a acessibilidade deixe definitivamente de ser uma exceção, e passe a ser um standard na cultura e no entretenimento?

Precisamos de criar standards universais. E isso implica o trabalho concertado de especialistas, marcas, promotores e tutelas. Não estamos, ainda, todos em sintonia e isso cria muitos problemas. Há coisas que não dependem de grandes orçamentos ou de tecnologia: uma política de bilheteira justa, uma página de acessibilidade, equipas formadas, informação clara e condições básicas de mobilidade.

Depois podemos inovar. E vamos continuar a fazê-lo. O verdadeiro sucesso da Access Lab é uma pessoa com deficiência poder comprar um bilhete para um festival com a mesma espontaneidade que qualquer outra pessoa. Aí deixamos de estar a falar de acessibilidade como exceção e começamos simplesmente a falar de progresso e inovação.

Carolina Neves

Quinta-feira, 20 Agosto 2026 11:10


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