Briefing | Regressa ao Jornal Económico para assumir a direção editorial. O que o motivou a aceitar este desafio?
João Marcelino | Aceitei por várias razões. Primeiro, porque continuo a gostar profundamente de Jornalismo e porque a possibilidade de voltar a dirigir uma redação representa para mim um desafio muito estimulante – e volta a fazer sentido nesta etapa da minha vida. Depois, porque conheço o Jornal Económico, acompanhei o seu percurso e acredito que é um projeto com espaço para crescer. É um jornal relativamente pequeno na dimensão da sua equipa, mas grande no trabalho que faz e na relevância que conquistou.
Há também uma dimensão pessoal: gosto de projetos em construção, de equipas com ambição e de momentos de mudança. O Jornal Económico está precisamente num desses momentos. Há muito trabalho bem feito que deve ser preservado e valorizado, mas há também oportunidades que podemos aproveitar para aumentar a influência, a audiência e a relevância da marca.
Regresso, por isso, com entusiasmo, mas também com alguma prudência. Neste primeiro mês, quero sobretudo ver, ouvir e perceber. A experiência ensinou-me que, muitas vezes, a melhor maneira de andar depressa é começar por fazer devagar. Gosto de reformas; desconfio de revoluções.
Depois da experiência mais recente como diretor de Conteúdos do Canal 11, que aprendizagens traz dessa passagem para a liderança de uma redação e de um título de informação económica?
A passagem pelo Canal 11, com o qual continuarei a colaborar na minha condição de comentador, foi uma experiência muito diferente, mas extraordinariamente rica. Permitiu-me trabalhar num universo em profunda transformação, a televisão, que não conhecia tão bem e perceber ainda melhor que hoje os conteúdos já não podem ser pensados para uma única plataforma.
E há uma coisa que o futebol ensina particularmente bem: podemos ter bons jogadores, mas precisamos de uma equipa. Numa redação não é muito diferente.
Quais são as principais expectativas para esta nova etapa e que prioridades gostaria de definir para o Jornal Económico nos próximos meses?
A primeira prioridade é conhecer profundamente a redação e o projeto. Não quero chegar com uma lista de mudanças previamente decididas. Quero perceber o que fazemos bem, o que podemos fazer melhor e onde existem oportunidades que ainda não estamos a aproveitar.
Dito isto, há algumas orientações claras. Quero reforçar a qualidade e a capacidade de diferenciação da informação económica, aumentar a relevância do Jornal Económico junto dos decisores e dos leitores, e acelerar a transformação digital da marca.
Teremos em breve um novo site e gostaria que não olhássemos para esse momento apenas como uma mudança tecnológica ou gráfica. Deve ser uma oportunidade para repensarmos a forma como produzimos e distribuímos informação. Vídeo, podcasts, newsletters, redes sociais, eventos e conferências têm de fazer cada vez mais parte do mesmo projeto editorial.
Gostaria também de reforçar a ligação do Jornal Económico ao espaço económico de língua portuguesa. Portugal tem uma posição privilegiada nesse universo e acredito que podemos ser uma plataforma de informação e de aproximação entre empresas, investidores e decisores dos vários mercados lusófonos.
No fundo, quero um Jornal Económico mais influente, mais digital, mais próximo dos seus leitores e com maior capacidade de produzir informação própria e distintiva.
Como olha para os desafios, como, por exemplo, a transformação digital e a mudança nos hábitos de consumo de informação, e que papel acredita que o Jornal Económico deve assumir neste contexto?
A transformação digital deixou há muito de ser uma questão tecnológica. É uma transformação do próprio Jornalismo. Mudaram os hábitos de consumo, mudaram as plataformas, mudou a velocidade da informação e está agora a mudar, com a Inteligência Artificial (IA), até a forma como as pessoas procuram e recebem notícias.
Isso obriga-nos a mudar, mas não significa abandonar aquilo que distingue o Jornalismo. Pelo contrário. Num mundo em que a informação será cada vez mais abundante e em que uma parte crescente dos conteúdos poderá ser produzida, resumida ou distribuída por máquinas, o valor do Jornalismo estará cada vez mais naquilo que é distintivo: informação própria, investigação, análise, contexto, entrevistas, capacidade de fazer perguntas e credibilidade.
A IA deve ser encarada também como uma oportunidade. Se conseguirmos utilizá-la para acelerar tarefas que não são distintivas, libertamos jornalistas para fazerem aquilo que realmente acrescenta valor.
E temos de estar onde estão os leitores. O Jornal Económico não pode pensar-se apenas como um jornal ou como um site. Tem de pensar-se como uma marca de informação económica multiplataforma. Uma boa história pode começar num artigo, transformar-se num vídeo, ser aprofundada num podcast, chegar a outro público através de uma newsletter ou das redes sociais e prolongar-se numa conferência.
As plataformas mudam. O essencial não muda: produzir informação credível, relevante e útil. É aí que o Jornal Económico deve procurar distinguir-se. Venho com essa missão e entusiasmado.
Carolina Neves

