A opinião de… Gabriel Augusto, da FLAG

No Dia Mundial da Criatividade e Inovação, 0 diretor-geral da FLAG partilha a sua perspetiva sobre o futurpo que acredita que não será exclusivamente moldado pela tecnologia. Num contexto em que a inteligência artificial acelera a produção, Gabriel Augusto defende que o verdadeiro fator de diferenciação estará menos nas ferramentas e mais na capacidade humana de pensar, escolher e dar significado ao que se cria.

A opinião de... Gabriel Augusto, da FLAG

Há uma narrativa dominante de que o futuro será decidido pela tecnologia, que a Inteligência Artificial (IA), os algoritmos e a automação vão redesenhar tudo, do marketing à criatividade, das marcas às relações com os consumidores. Mas, olhando para 2026, isto é apenas metade da história. A outra metade, a que vai separar relevância de ruído, é menos técnica e mais humana.

Nunca foi tão fácil gerar texto, imagem, vídeo, campanhas, apresentações, ideias e variações de ideias. O difícil, agora, é decidir o que merece atenção num ambiente onde quase tudo já nasce formatado para parecer convincente.

Esta abundância tecnológica democratizou a produção e, ao mesmo tempo, banalizou-a. Quando quase tudo pode ser criado em segundos, o valor passa da execução para o critério, o gosto, a visão e a leitura de contexto. Numa palavra: autoria.

É por isso que a obsessão com a perfeição começou a perder força. Estamos saturados de superfícies impecáveis, de mensagens afinadas ao milímetro, de marcas que parecem ter sido treinadas para não falhar ou hesitar. Mas o custo dessa assepsia, disfarçada em consistência, começa a sentir-se. Quando tudo parece demasiado polido e calibrado, quase nada parece verdadeiro.

A autenticidade tornou-se uma palavra gasta porque muita gente aprendeu a encená-la e até o imperfeito já pode ser fabricado. Com isto, em vez de parecer mais humano, o que realmente diferencia estará em sê-lo de forma reconhecível, na coerência entre discurso e gesto, na capacidade de mostrar intenção sem transformar tudo em performance.

Este é, aliás, um dos paradoxos mais interessantes do momento, quanto mais o digital se torna poderoso, rápido e invisível, mais cresce a valorização do que carrega marcas de presença, como o erro, a textura, a hesitação e o detalhe não otimizado. No fundo, aquilo que não foi completamente alisado por ferramentas, templates e automatismos. E isto pouco tem a ver com a rejeição da tecnologia pelo público, que a utiliza todos os dias. O que rejeita é a sensação de estar diante de algo sem voz, sem risco e sem assinatura.

A Inteligência Artificial é, provavelmente, a ferramenta mais poderosa alguma vez colocada nas mãos de profissionais e organizações. Seria absurdo negá-lo, até porque o problema não está na ferramenta, mas no seu uso preguiçoso. Quando a IA é usada para acelerar exploração, testar hipóteses, expandir possibilidades e libertar tempo para pensar melhor, torna-se multiplicadora de talento. Porém, quando é usada para replicar fórmulas, uniformizar linguagem e encher canais com mais do mesmo, transforma-se num acelerador de mediocridade. É aqui que muitas marcas vão falhar, ao confundir velocidade com clareza, e produção com significado. 

No trabalho, a mudança é semelhante. Se tantas tarefas podem hoje ser distribuídas, automatizadas ou feitas à distância, então a presença precisa de justificar-se de outra forma. Mais do que apenas eficiência, as equipas procuram propósito, pertença e oportunidade para experimentar. Este novo equilíbrio exige organizações mais flexíveis, mas também mais conscientes do seu impacto interno e externo.

Por isso, a aprendizagem contínua deixou de ser opcional. Não só porque “o mundo muda depressa”, frase que já repetimos até ao desgaste, mas porque o próprio valor profissional está a ser reavaliado em tempo real. Mais do que aprender ferramentas novas, é rever critérios, desaprender automatismos e evitar o erro de utilizar tecnologia nova com mindset antigo. 

Se tivesse de resumir 2026 numa ideia, diria isto: não será o ano em que a tecnologia nos tornará mais extraordinários. Será o ano em que ficará mais visível a diferença entre quem apenas produz e quem realmente pensa. E isso continua a ser um problema profundamente humano.

Gabriel Augusto, diretor-geral da FLAG

Terça-feira, 21 Abril 2026 10:05


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