A opinião de… Susana Costa e Silva e Rafael Almeida

A centralização dos direitos televisivos pode marcar um ponto de viragem no futebol português, criando condições para uma gestão mais sustentável, competitiva e profissional. A reflexão é da diretora do MBA Executivo em Futebol – programa da Liga Portugal Business School e da Católica Porto Business School (CPBS) – e professora associada da CPBS, Susana Costa e Silva; e do docente do IPAM Porto Rafael Almeida.

A opinião de... Susana Costa e Silva e Rafael Almeida

A ideia de que a gestão do futebol português precisa de uma abordagem mais profissional, com o rigor e a visão que habitualmente se reserva a outros setores económicos, já foi amplamente discutida. O endividamento crónico e a dependência excessiva da venda de ativos desportivos são fragilidades estruturais que não se resolvem apenas com carisma ou paixão. No entanto, há outra frente que merece reflexão: a criação de um ecossistema mais coeso, capaz de gerar receitas de forma mais equitativa. É isso que está em jogo com a centralização dos direitos televisivos, já aprovada e com início previsto para 2028/29. Esta medida não é um mero ajuste burocrático, mas sim uma oportunidade para reposicionar o futebol português como um ecossistema mais competitivo, mais integrado e mais preparado para gerar valor dentro e fora de campo. E, para liderar esta nova era, os clubes e as suas estruturas precisam hoje, mais do que nunca, de líderes academicamente preparados e capazes de transformar visão em execução. 

O modelo atual de negociação individual gera uma assimetria enorme. Enquanto os três grandes clubes capturam a maior fatia das receitas, os restantes lutam por valores residuais. Esta fragmentação, ao contrário de proteger os interesses individuais, acaba por enfraquecer o produto coletivo, reduzindo a competitividade e, consequentemente, o valor internacional da Liga. Pela primeira vez, Portugal aproxima-se do modelo europeu, adotado pelas principais ligas, onde a Liga negoceia em nome de todos, gerando um bolo de receitas potencialmente muito superior. A proposta já aprovada estabelece que um terço do bolo será distribuído de forma igualitária, mas a maior fatia (44,2 %) continua ligada ao mérito desportivo, ao histórico e à contribuição para o ranking da UEFA.

Olhar para o que aconteceu lá fora é reconhecer que esta mudança não é apenas uma troca de receitas, mas um verdadeiro catalisador de profissionalização.

A Premier League inglesa e a La Liga espanhola são os casos paradigmáticos. A liga inglesa centralizou a venda dos seus direitos em 1992. Na altura, a Sky pagou £304 milhões por um acordo de cinco anos. Trinta anos depois, o valor disparou para os recentes acordos de £6.7 mil milhões. O segredo, como referiu sir Dave Richards, antigo presidente da Premier League, está na distribuição equitativa: “Antes, um grande clube recebia uma grande receita e um clube pequeno uma pequena receita. Agora, há um nivelamento. Toda a gente beneficia com isso. A competição torna-se mais fluida”.

Já na La Liga, a centralização deu os primeiros passos em 2015. Ainda assim, o impacto é brutal: a liga espanhola garantiu ,recentemente, um acordo de 6,135 mil milhões de euros para o ciclo 2027/28 a 2031/32. Ao contrário do receio de alguns, a centralização não empobreceu os grandes. Pelo contrário, ao aumentar o valor global do produto, todos ganham. Em Portugal, o “bolo” deverá situar-se entre os 180 e os 225 milhões de euros iniciais, com a possibilidade de crescer rapidamente se o modelo conseguir atrair mais investimento internacional.

Mas talvez o impacto mais transformador da centralização não esteja apenas na dimensão financeira. Este pode também ser o momento em que o futebol português deixa de ser visto exclusivamente como uma competição desportiva e passa a afirmar-se como uma plataforma integrada de conteúdo, atenção e relevância cultural. Num mercado onde a atenção é hoje disputada diariamente por múltiplas formas de entretenimento, desde plataformas como Netflix, YouTube, experiências culturais e espetáculos ao vivo, o valor já não está apenas nos 90 minutos de jogo, mas em tudo aquilo que acontece antes, durante e depois deles: conteúdos digitais, storytelling, dados, análise, bastidores, experiências e comunidades. Clubes como o Manchester City F.C. ou o FC Barcelona são hoje exemplos claros de organizações que ultrapassaram a lógica exclusivamente competitiva, posicionando-se como marcas globais com capacidade de gerar conteúdo, mobilizar comunidades e manter relevância muito para lá do apito final. Os clubes que compreenderem esta mudança estarão mais próximos de competir não apenas no plano desportivo, mas também nos planos mediático, comercial e internacional.

Neste contexto, a necessidade de quadros dirigentes com preparação executiva é ainda mais premente. A centralização não é a solução mágica para todos os problemas, mas cria as condições de escala, previsibilidade e coesão que faltavam. Só que gerir este novo paradigma exige competências específicas, porque um clube que recebe receitas mais estáveis precisa de saber reinvesti-las com inteligência e responsabilidade. Tal como o dinheiro não compra felicidade, receitas mais justas não garantem sustentabilidade se a gestão continuar a ser feita à antiga.

Por isso, o trabalho desenvolvido para unir o conhecimento das escolas de gestão à realidade do terreno é absolutamente vital. A parceria entre a Católica Porto Business School e a Liga Portugal Business School, que resultará num programa de MBA inteiramente dedicado ao futebol já no próximo ano letivo, surge na altura certa. Este curso não será apenas um currículo; será um laboratório onde dirigentes, administradores e quadros técnicos aprenderão, com casos reais e apoio de especialistas, a aplicar instrumentos de gestão modernos ao contexto único do desporto-rei. O futebol português precisa de passar da intuição para a evidência, do voluntarismo para o planeamento e da gestão com paixão para a paixão pela gestão. Se na última década o foco foi o cumprimento das regras financeiras da UEFA, na próxima década será a capacidade de aproveitar a centralização para criar valor sustentável. E isso não se faz apenas com jogadores; faz-se com pessoas formadas, capazes de ler balanços, interpretar dados, gerir infraestruturas, e liderar equipas com critério e visão estratégica. E é precisamente quando esse conhecimento se traduz em melhores práticas de governance, maior accountability e numa visão estratégica capaz de ultrapassar o curto prazo que a formação ganha o seu verdadeiro impacto.

O campeonato terminou, o ruído das celebrações começou a dissipar-se. Em cima da mesa está a oportunidade de consolidar uma verdadeira indústria do futebol. A centralização dos direitos televisivos é o trampolim. O salto, esse, será dado nos gabinetes, por líderes devidamente preparados. 

Portugal já provou que sabe formar jogadores para competir com o mundo. A próxima década dirá se também sabe construir organizações capazes de competir ao mais alto nível. As grandes ligas não se distinguem apenas pelo talento que produzem, mas pela visão estratégica, pela solidez das suas estruturas e pela capacidade de transformar escala em vantagem competitiva. E o futebol português, talvez pela primeira vez, tem diante de si a oportunidade de deixar de gerir a escassez para começar a gerir o futuro.

Susana Costa e Silva, professora associada da Católica Porto Business School e diretora do MBA em Futebol – CPBS & LPBS; e Rafael Almeida, docente do IPAM Porto

Segunda-feira, 15 Junho 2026 11:23


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