Da economia à comunicação

Estudou Economia, mas a vida encaminhou-a para a comunicação – e para os Estados Unidos. Ana Baptista é vice-presidente de Comunicação Externa da Mars desde agosto de 2022, altura em que se mudou para Washington DC. Conheça a sua história.

Da economia à comunicação

Ana Baptista vive há 20 anos fora de Portugal e há quase dois nos Estados Unidos. Foi em agosto de 2022 que viajou para a outra margem do Atlântico para assumir a vice-presidência da Comunicação Externa da Mars, Incorporated. A sua formação profissional não deixava, porém, adivinhar este caminho. Cursou Economia, na Universidade Nova de Lisboa, hoje Nova SBE, mas essa também não foi uma escolha óbvia. “Naquela altura, o que queria mesmo era trabalhar para as Nações Unidas e mudar o mundo, mas a área de estudo que me ia levar lá não era evidente”, conta. Aconselhada pelo pai, acabou por optar por um curso abrangente, que lhe abrisse várias portas e lhe permitisse a flexibilidade necessária para decidir um futuro que ainda estava por delinear. “Foi uma ótima escolha da qual não me arrependo”, diz, 

Iniciou a carreira como Finance Graduate na L’Oréal, em Lisboa, e se tinha alguma dúvida, rapidamente percebeu que, de facto, procurava uma carreira mais orientada para a comunicação e relações internacionais. Foi quando decidiu avançar para o mestrado em Assuntos Europeus que fez posteriormente em Varsóvia. “Foi uma experiência extremamente enriquecedora. Conheci pessoas de dezenas de nacionalidades, com culturas e experiências de vida bastante diferentes da minha, E claro, aprendi muito sobre como funcionam as instituições europeias em Bruxelas”, adianta. Pouco tempo depois, era nessa capital que estava a trabalhar para uma consultora de Public Affairs, a Grayling. “Não fui trabalhar para a Comissão Europeia como inicialmente sonhei, mas trabalhava muito de perto com as instituições europeias. Como consultora, trabalhei com variadíssimas multinacionais e apercebi-me do poderoso impacto que as grandes empresas podem ter na sociedade e no planeta”.

Depois de quatro anos, sentiu que precisava de dar “o salto”, passar de consultora para executora. Queria não só desenvolver estratégia, mas também fazer parte da implementação e ter a satisfação de atingir resultados. Foi quando iniciou a sua experiência na Nestlé UK & Ireland, onde permaneceu durante dez anos. Entretanto, sentiu que era altura de mudar e experimentar uma cultura empresarial diferente. Aí surgiu a oportunidade de se juntar à equipa de direção da Mars Wrigley, no Reino Unido, para onde entrou em 2018 como diretora de Corporate Affairs, responsável pela comunicação interna e externa e advocacia junto ao governo britânico. Quatro anos depois, foi promovida para o cargo atual de vice-presidente Global External Communications na sede da Mars, perto de Washington DC, nos Estados Unidos. Mudou-se com o marido e as duas filhas e estão a “adorar” a experiência. 

“Aqui na sede, sou responsável pela comunicação externa da Mars, Incorporated e pela relação da nossa Comissão Executiva com os media. Estou muito focada no nosso propósito, na sustentabilidade e na promoção do conceito de ‘crescimento responsável’, temas que estão muito alinhados com os meus valores”, partilha, defendendo a vantagem da flexibilidade dos portugueses. “Regra geral, talvez devido à nossa cultura, os portugueses tendem a ser flexíveis, adaptam-se rapidamente à mudança e sempre tiveram curiosidade em conhecer o mundo. Revejo-me nestas características que penso sempre jogaram a meu favor. Nestes cargos globais, uma boa capacidade de liderança e visão estratégica são fundamentais. Mas são também as soft skills, como a capacidade de interagir com pessoas a todos os níveis da organização, saber gerir conflitos, estar confortável com a ambiguidade e saber traduzir situações complexas em soluções e mensagens simples, que fazem toda a diferença– e estas são competências que continuo a praticar e desenvolver todos os dias”. 

Ana Baptista encontra “claras diferenças” entre trabalhar em Portugal, no Reino Unido ou nos Estados Unidos. “Em cada um dos locais por onde andei, vivi experiências culturais únicas e tirei sempre lições importantes”, observa. “Em Portugal já trabalhei há muito tempo, e por um curto período, o que quer dizer que não posso falar muito na primeira pessoa. No Reino Unido, há um forte sentido de trabalho, com dias intensos, muito estruturados, e uma valorização de espírito estratégico e crítico. Nos Estados Unidos, onde estou atualmente, há um enorme sentido de ‘possibilidade’ e ‘oportunidade’. As pessoas são incentivadas a experimentar, correr riscos e ver os resultados”.

O que mais gosta no seu trabalho é a oportunidade de fazer a diferença e influenciar positivamente o mundo através das decisões que tomam na empresa. “Empregamos mais de 150.000 pessoas em todo o mundo e temos uma pegada carbónica equivalente à Finlândia. Esta dimensão vem com uma enorme responsabilidade”, admite. “O impacto que podemos ter em termos de sustentabilidade e o compromisso em reduzir o nosso impacto climático – redução de 50% em 2030 e sermos net zero em 2050 – é substancial. Ao trabalhar para a Mars, uma empresa em que as decisões são tomadas de uma forma consciente, responsável e com um propósito, sinto que faço a diferença”.

“É engraçado que apesar de ter uma formação base em economia, a minha mente está cada vez mais direcionada e focada na parte criativa”, nota, considerando-a essencial para passar a mensagem, nesta era das redes sociais e trabalhando em comunicação. Não é por isso surpreendente que aquilo que menos prazer lhe dá fazer são tarefas repetitivas “que embora sejam necessárias em todos os trabalhos, têm pouco impacto externo”. 

Chegou a um ponto da carreira em que – salienta – o mais importante não é planear a próxima promoção. Gosta de estar no momento e valoriza o facto de estar feliz e realizada com o que faz. 

“O que importa é dar o meu melhor e desenvolver as pessoas à minha volta, as minhas equipas. Mantenho uma mente aberta”, diz. Se é ambiciosa? “Claro que sim”, responde. “E pretendo continuar a crescer como pessoa, como profissional e como líder. Mas mantenho mente aberta em relação àquilo que vou fazer a seguir ou onde é que o vou fazer. Às vezes é bom ter surpresas!”, remata.

Sofia Dutra

Quarta-feira, 17 Julho 2024 11:02


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