Tenho uma quantidade considerável de coisas guardadas no telemóvel que provavelmente nunca vou comprar. Peças de roupa que aparecem no Instagram, restaurantes que quero experimentar, objetos de que não precisava até os ver num vídeo. Guardo tudo com a ideia de que, um dia, vou voltar àquilo. Na maioria das vezes, não volto. E acredito que não sou a única.
Estamos habituados a pensar no consumo como uma decisão simples: vemos um produto, gostamos e compramos. Mas, para a minha geração, há todo um caminho entre gostar de alguma coisa e decidir comprá-la. Primeiro, guardamos. Depois, enviamos a alguém, voltamos a ver, comparamos com outras opções e, por vezes, esquecemo-nos de que alguma vez quisemos aquilo. O desejo existe, mesmo quando a compra nunca acontece.
As redes sociais vieram tornar este processo quase automático. Todos os dias descobrimos coisas novas, muitas vezes sem as procurar. Um vídeo pode fazer-nos querer uma mala, uma rotina de cuidados de pele ou uma viagem a um destino em que nunca tínhamos pensado. Durante alguns minutos, conseguimos imaginar-nos com aquele produto ou naquele lugar. E, mesmo que não compremos nada, aquela marca já conseguiu despertar o nosso interesse.
É aqui que acho que existe uma oportunidade interessante para o marketing. Nem todas as decisões de compra são imediatas, e nem todas as marcas têm de fazer parte da nossa vida através de uma compra. Às vezes, fazem-no porque guardámos uma publicação, porque reconhecemos um produto quando voltamos a encontrá-lo ou porque ficou na nossa cabeça depois de o vermos várias vezes.
Claro que gostar de alguma coisa não significa que a vamos comprar. O preço, a necessidade e as prioridades acabam por pesar mais do que a vontade do momento. E talvez seja precisamente por isso que o desejo é tão interessante: pode existir sem se transformar numa transação.
Numa altura em que estamos constantemente expostos a novos produtos, saber despertar interesse é importante. Mas conseguir manter esse interesse, sem esperar que ele se transforme imediatamente numa compra, também pode ter valor.
Afinal, nem tudo o que guardamos acaba no carrinho. Mas isso não significa que tenha passado despercebido.
Inês Francisco, Account Cliente da LPM Comunicação

