O futuro do vinho também é branco

Com uma história documentada desde 1218, a Quinta da Romeyra guarda uma ligação secular ao vinho branco e ao Arinto de Bucelas. A Head of Prestige Wines Marketing, PR & Hospitality da Sogrape, Joana Pais, revisita este património e explica como a propriedade procura projetá-lo no futuro.

O futuro do vinho também é branco

O branco é uma boa cor. É luz, clareza, espaço para criar. Talvez por isso faça sentido pensar que uma parte importante do futuro do vinho português se escreva precisamente a branco.

Temos hoje grandes vinhos brancos, grandes castas e, também, origens históricas com muito por descobrir. É precisamente aí, no que é menos óbvio, menos conhecido, mas profundamente nosso, que pode residir uma das grandes oportunidades para o vinho português.

Não temos de ser enormes para sermos relevantes. Nem conhecidos por todos para sermos desejados por muitos. Num mundo onde tudo parece estar cada vez mais acessível, há um valor especial na autenticidade, na descoberta e nas histórias que ainda não foram contadas vezes sem conta.

É nessa lógica que olho para o Arinto, para Bucelas e para a Quinta da Romeyra.

Porque o Arinto pode hoje ser de Portugal inteiro, mas nasceu em Bucelas. E poucos lugares podem contar essa história como a Quinta da Romeyra. Uma relação que atravessa séculos: a Quinta está documentada desde 1218, o vinho branco faz parte da sua memória desde a Idade Média e, em 1540, encontramos na propriedade uma das primeiras referências ao Arinto. Mais tarde, já integrada no Morgado de Santa Catarina, a Romeyra cruza-se até com a passagem do Duque de Wellington por Bucelas. Não são apenas episódios históricos. São camadas de uma relação muito antiga entre um lugar, uma variedade e o vinho.

Mas a importância desta profundidade histórica não está apenas na história em si. Património não pode ser um exercício de nostalgia. O seu verdadeiro valor está na capacidade de continuarmos a acrescentar-lhe significado e relevância.

Quando a família Guedes adquiriu a Quinta da Romeyra, em 2019, não houve pressa em construir um projeto à volta dela. Começámos pela vinha, por conhecer melhor o lugar e por perceber até onde nos podia levar o Arinto de Bucelas. O propósito foi, desde o início, de longo prazo. E há qualquer coisa de muito coerente nisso: quando se recebe um legado de séculos, o tempo deixa de ser apenas uma medida. Passa a ser uma responsabilidade.

Foi com essa mesma lógica que construímos a nova Quinta da Romeyra. Regressámos aos arquivos, recuperámos a grafia original do nome, com “y”, e construímos uma nova identidade e um portefólio capaz de interpretar o Arinto de Bucelas com uma expressão contemporânea. Não para fazer a Quinta da Romeyra parecer nova. Precisamente para tornar mais visível aquilo que nela é único.

E único é também um conceito que interessa. Porque exclusividade não tem necessariamente de significar inacessibilidade. Pode estar na raridade de um lugar, na força de uma identidade, no prazer de descobrir aquilo que ainda não se tornou óbvio. O Arinto de Bucelas tem essa qualidade. E quero acreditar que a Quinta da Romeyra também. Mas valorizar uma origem implica assumir responsabilidade sobre ela.

A Quinta da Romeyra representa cerca de metade da área de vinha da DOC Bucelas. Por isso, o nosso compromisso não pode terminar nos vinhos que colocamos no mercado. Os 500 clones de Arinto que estamos a plantar são talvez a expressão mais concreta dessa responsabilidade: preservar a diversidade para que outros possam continuar a descobrir e a interpretar esta variedade.

É isto que queremos dizer quando nos assumimos como guardiões do Arinto de Bucelas. Não guardar para nós. Guardar para o futuro.

Talvez seja também este um dos caminhos para os grandes vinhos brancos portugueses. Não precisamos escolher entre tradição e contemporaneidade, entre escala e singularidade, entre história e desejo. Precisamos de ter confiança suficiente naquilo que é nosso para lhe dar um novo lugar no presente.

O futuro do vinho também é branco.

E, felizmente, ainda há muito por descobrir.

Joana Pais, Head of Prestige Wines Marketing, PR & Hospitality da Sogrape

Sexta-feira, 06 Novembro 2026 12:15


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