A diretora executiva e criativa da AC Brand Design, Ana Cunha, reconhece que o mundo da criatividade ainda é “muito de homens”, pelo que atribui significado à escolha de mulheres, embora entenda que a diferença “não se devia destacar”. E nem lhe parece que haja diferenças de visão entre masculino e feminino: “Somos todos profissionais”, resume, considerando que o que conta é a qualidade do conhecimento, a capacidade de saber avaliar a criatividade e originalidade dos trabalhos”.
Já a diretora-geral da consultora LPM, Catarina Vasconcelos, admite que o facto de os representantes portugueses no júri serem mulheres possa proporcionar um olhar diferente: “Havia aquela ideia errada de que os homens conseguiam representar melhor as empresas, que inspiravam mais respeito, que conferiam maior grau de segurança e outras ideias do género. Mas não é verdade. A prova disso é que as mulheres têm vindo a conquistar cada vez mais lugares de liderança em muitos setores de atividade. Por mérito. E isso é o que realmente importa”.
Por sua vez, a diretora criativa executiva da Leo Burnett Lisboa, Luciana Cani, aporta a este tópico o entendimento de que “é importante misturar pessoas com cultura e países diferentes” e a convicção de que “é preciso aumentar a diversidade para gerar discussões mais interessantes”.
Com vasta experiência em júris de prémios internacionais, Luciana sustenta que Cannes é diferente: “Sempre será o Oscar da publicidade, mesmo que saibamos existirem pelo menos dois festivais tão ou até mais criteriosos que Cannes”.
Vai ser jurada em Imprensa, categoria que enfrenta o desafio do crescente peso que o digital ganha nos orçamentos e no planeamento de meios: “Há tempos que nos perguntamos o que vai acontecer a esta categoria. Alguns dizem que é preciso reinventar o print. Mas a verdade é que, até ao ano passado, esta categoria e outdoor ainda foram as que tiveram mais inscrições”. A reinvenção parece, aliás, estar a acontecer: “O Grand Prix do ano passado era um material de apoio da ideia. Ou seja, o grande prémio desta categoria não utilizava o meio print como peça principal de uma campanha. E isso pode ser uma tendência. Outra tendência pode ser agregar tecnologia e tentar criar interatividade num meio que, em princípio, não é interativo”.
Olhando para a criatividade nacional nesta área, Luciana é de opinião de que não é onde o país é mais forte. E, falando pela Leo, confirma que no último ano não houve projetos que envolvessem print de um modo significativo. Mas, isso não a impede de desejar que Portugal traga de Cannes um Leão nessa categoria. Não será para a Leo, mas Luciana até gostava de saber que trabalhos nacionais estão inscritos para os “defender se for preciso”.
Catarina Vasconcelos vai ser jurada em Relações Públicas, afinal a área em que desenvolve a sua carreira profissional. O convite encara-o como o reconhecimento de um trabalho de equipa: “A equipa LPM é excelente e os resultados obtidos comprovam-no de modo muito concreto e objetivo”.
Reconhece que “julgar e pontuar os melhores dos melhores é sempre um desafio” mas parte com a certeza de que, em Portugal, a comunicação está ao nível do melhor que se faz lá fora. “Quando participei como jurada no Dubai Lynx tive a oportunidade de constatar algo muito interessante: na LPM temos uma carteira de clientes que muitas das grandes agências internacionais não conseguem igualar, quer ao nível do número, quer do valor das marcas. Trabalhamos diariamente em ambiente internacional: Coca-Cola, Bayer, Nike, Pfizer, McDonald’s…”, afirma, salientando que “é notável verificar que a comunicação é dos poucos setores em que as empresas portuguesas são líderes de mercado”.
Ainda assim, esta não é uma categoria muito concorrida em Cannes, o que a diretora-geral da LPM atribui ao facto de ser relativamente recente num festival que, por definição, se destinava às agências de publicidade. Além disso, por tradição quem concorre a estes prémios são as marcas internacionais, que apresentam campanhas para várias categorias em simultâneo. Ora, em Portugal vive-se uma realidade distinta ao nível da comunicação, com as maiores agências do setor a serem empresas nacionais. “Talvez por estas razões ainda não tenham tido tanta capacidade e/ou apetência para participar neste concurso”, admite.
Mas se, ainda assim, Portugal não traz mais Leões de Cannes, “não é por falta de capacidade profissional”, até porque – sublinha – muitos projetos premiados internacionalmente integram profissionais portugueses.
Design, categoria em que a diretora executiva e criativa da AC Brand Design é jurada, também não é uma das que atrai mais inscrições portuguesas. Mas não por falta de qualidade do trabalho: “Trabalho não faltou. Houve muitos processos de branding e muito bom trabalho feito, quer por grandes agências, quer por pequenos ateliês, quer por designers individuais”, diz Ana Cunha.
Há, além disso, muitos designers disponíveis. É que, diz, o paradigma está a mudar e se, antes, para ter visibilidade era preciso estar integrado numa grande agência, as redes sociais vieram permitir o culto do trabalho individual, com a divulgação online a abrir, por exemplo, caminho para que jovens designers portugueses trabalhem para clientes estrangeiros.
Mas temos design para ser premiado em Cannes? Ana responde positivamente, mas vai dizendo que este é um concurso em que se premeiam a criatividade e a originalidade, com a qualidade da execução a ser remetida para um segundo plano. Para o design há, ademais, concursos mais apelativos, com a designer a reiterar que o que se faz em Portugal tem qualidade internacional.
E é ao reconhecimento pelos seus trabalhos recentes de maior relevo – o branding da NOS e do Novo Banco – que atribui o convite para integrar o júri em Cannes. Uma oportunidade excelente, pelo networking com alguns dos melhores profissionais do mundo e pela inspiração que advirá do que se faz de melhor a nível global.

