Why music matters, ou as razões pelas quais ouvimos rádio

Paula Cordeiro, Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSPPara a maior parte das pessoas, a rádio é música. Não são precisos relatórios produzidos nos Estados Unidos para chegar a essa conclusão. Até os mais simples ou rudimentares estudos revelam isso mesmo.

Há vários anos que trabalho esta matéria. São também bastantes os trabalhos que já acompanhei que revelam isso mesmo: o quanto a música é importante para as pessoas. Metodologia quantitativa. Qualitativa. Métodos mistos. Amostras maiores ou menores. Rigor na selecção do método e acuidade no seu desenvolvimento à parte, a verdade é que a indicação final é invariavelmente a mesma: “a rádio é uma companhia e oiço a rádio pela música”.

Estudos de mercado, investigações científicas e relatórios profissionais desvendam a relação indelével entre a rádio e a música. Facto que me leva frequentemente a pensar na dispersão dos indivíduos: rádio, televisão, sites de redes sociais (YouTube, no caso), serviços de música online (Spotify como exemplo top of mind), aplicações móveis (jogos, principalmente).

E a considerar, também, outras três questões: “a rádio é companhia e oiço rádio pela música”, afirmam as pessoas. As audiências de rádio, via Bareme Rádio, da Marktest, mostram uma audiência de rádio estabilizada ao longo dos últimos dez anos e as estações de maior notoriedade batem-se pela liderança com percentagens de share superiores a estações equivalentes em outros mercados.

No entanto, há também dados que mostram a audiência crescente de serviços como o Spotify ou redes como o YouTube. E, quando perguntamos directamente a grupos entre os 12 e os 24 anos, afirmam não ouvir rádio. Em compensação, consomem muita música, sob as mais diversas formas e usando as mais diversas fontes. Vão a concertos e festivais e não se preocupam com planos de dados, simplesmente porque há wireless em quase todo o lado. E que dispositivo utilizam mais, para isso? O smartphone, claro está.

Por outro lado, algumas estações de rádio recebem prémios de marketing e de reputação de marca. O que não seria possível se ninguém as ouvisse. Portanto: as estações de rádio inovam (distribuição, oferta de conteúdos); enchem salas com espectáculos próprios; têm níveis de reputação elevados e, apesar da crise, não lhes falta publicidade.

Há, portanto, algo nesta equação que não está bem. Ou andamos todos a trabalhar para uma audiência que afirma ouvir rádio e que, na realidade, não existe… Mas, desta forma, os espectáculos organizados por estas estações de rádio estariam vazios. E não estão. Ou fazemos as perguntas erradas às pessoas igualmente erradas… O que me parece pouco provável. Pode ser que a rádio se tenha concentrado (demais) naqueles que conduzem, aproveitando a circulação automóvel para contactar com uma, ainda assim, imensa audiência… Mas, então e os jovens que constam do Bareme Rádio?

Finalmente, pode ser que se tenha tornado cool entre os jovens afirmar que não se ouve rádio. O que é mau para a rádio, no geral… Contudo, são estes mesmos jovens que reconhecem as marcas quando se lhes pergunta sobre cada estação de rádio e, a não ser que os pais os obriguem, também estão nas salas de espectáculos. Afinal, há jovens a ouvir rádio, ou não? É que também eles afirmam ouvir rádio pela música e a companhia. Ou não?

Segunda-feira, 09 Junho 2014 11:20


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