Informação televisiva diferenciada? É Now

Já arrancou o novo canal de informação português que pertence ao grupo Medialivre. Nas palavras do diretor-geral editorial, Carlos Rodrigues, o Now procura oferecer uma proposta diferenciada, sob o ponto de vista do conteúdo, e ser um canal marcado pela reflexão e não pela emoção. Quer fazer melhor, e sobretudo diferente, para que o espectador perceba a diferença para a oferta informativa concorrente. O futuro é Now?

Informação televisiva diferenciada? É Now

Briefing | Existem três canais meramente informativos em Portugal: a SIC Notícias, a CNN Portugal e a RTP3. O que leva à Medialivre lançar mais um?

Carlos Rodrigues | E há a CMTV, que também tem um forte pendor informativo. Na lista, há quatro canais de cabo com influência e espectadores. Procurámos analisar a oferta que temos na CMTV e encontrar um produto que fosse complementar. A CMTV destina-se a um determinado segmento público, apesar de ser maioritário na generalidade dos públicos porque o avanço no cabo é de tal forma que acaba por liderar em praticamente todas as idades, estratos sociais, regiões, etc.. Através do Now, vamos trabalhar outro tipo de público, que, atualmente, tem à sua disposição, de facto, esses três canais, mas achamos que podemos ter uma proposta diferenciada para que essas pessoas encontrem aqui novos hábitos de consumo. Foi essa a reflexão que fizemos.

Genericamente, o Now vai ser concorrente da CMTV. O público vai sentir que são duas propostas totalmente distintas. Já para o nosso posicionamento no mercado, vão ser complementares, porque a CMTV destina-se a um determinado público, faz um tipo de serviço público, um tipo de trabalho jornalístico; e o Now vai destinar-se a um público diferenciado do da CMTV.

Então, qual é a mais-valia de ter dois canais concorrentes no mesmo grupo?

É precisamente essa: para o espectador, são concorrentes; para o nosso posicionamento no mercado, são complementares. Mesmo nas conversas com colegas do comercial, sempre fui informado de que há determinado tipo de mercados que podem não estar totalmente satisfeitos com a oferta da CMTV – as áreas da banca, dos seguros, dos carros topos de gama, dos perfumes, da relojoaria, da moda… Esses parceiros, esses anunciantes, passam a ter no portefólio da Medialivre um canal preferencial para anunciar e para nos ajudarem e serem nossos parceiros – é o Now.

Acho que essa é a ideia central. Para os espectadores em casa, são dois canais concorrentes e distintos; para o nosso posicionamento no mercado e relacionamento com anunciantes e parceiros, são dois canais complementares. Fazia sentido lançar esse segundo canal dentro da empresa precisamente para reforçar essa complementaridade dentro do nosso portefólio.

Os anunciantes são os mesmos nos dois canais?

Penso que sejam, porém, acreditamos que o nosso posicionamento no mercado vai alargar e, ao acontecer, vai fazer com que haja necessariamente mais espectadores, mais anunciantes. A minha expectativa – é a primeira vez que o estou a dizer, mas posso afirmá-lo – é que o share conjugado da CMTV e do Now vá necessariamente ser superior ao share atual da CMTV. Logo, a posição no mercado televisivo da empresa Medialivre vai crescer com a NOW. Isto para contrariar já algum discurso que possa haver sobre se o Now vai canibalizar a CMTV – não vai canibalizar, vai complementar e vamos crescer televisivamente.

A empresa tem uma grande tradição no papel e ainda há uma grande dependência de publicações em papel. Estamos a fazer uma alteração no nosso posicionamento no digital através do Projeto Alfa, que é outro projeto muito forte que estamos a desenvolver aqui dentro. Mas com o nascimento do segundo canal de televisão, seremos cada vez mais uma empresa multiplataforma e com um pendor televisivo mais presente.

Como descreve a vossa relação com anunciantes e agências de meios?

Trabalhamos com toda a gente numa lógica de parceria. Estamos muito gratos a todos os que nos têm acompanhado neste processo, a começar pelas operadoras MEO, NOS e Vodafone, que, desde o início, aderiram com muita satisfação e energia à nossa proposta de um canal novo, bem como incentivaram a utilização do canal nove nas três plataformas. Também estamos muito gratos a todos os agentes de mercado, agências e anunciantes, porque têm sido muito solidários e generosos connosco, e nós procuramos retribuir.

Olhamos para o mercado sempre numa lógica de parceria, mesmo com os nossos concorrentes. Ou seja, quando há pouco falou da SIC Notícias, RTP3 e CNN, fiz questão de o dizer e di-lo-ei em todos os fóruns que não surgimos para combater ninguém, nem para derrotar ninguém. Surgimos, sim, para ter uma nova proposta, que é diferenciada em relação à deles, mas continuaremos atentos ao que eles fazem, porque faz-se muito boa televisão em Portugal e muitíssimo boa televisão no cabo em Portugal – vamos continuar a aprender com eles. Quanto melhores e mais fortes forem os nossos adversários, melhores seremos nós também, porque outra característica que nos distingue, e é isso que faz com que todos trabalhem connosco com a mesma lealdade, é sermos uns competidores muito fortes. Faremos tudo para atingir a liderança. Estou convencido de que a atingiremos rapidamente, mas sempre no respeito e na aprendizagem do que os nossos concorrentes fazem.

Têm algum teto ou prazo que queiram atingir em matéria de audiências?

Todos os projetos da Medialivre têm de liderar – o nosso ADN é esse. Portanto, o objetivo é liderarmos os canais de informação deste segmento. Vamos trabalhar afincadamente para aprender com os nossos concorrentes, que fazem todos eles um excelente trabalho, quer a SIC Notícias, quer a RTP3, quer a CNN Portugal – digo-os por ordem de posicionamento da grelha, não por ordem de importância nem de relevância. Apreciamos muito o trabalho, aprendemos muito com eles, respeitamos muito os nossos adversários…

Vamos procurar fazer melhor, mas fazer sobretudo diferente, de forma a que o espectador perceba perfeitamente qual é a diferença entre o Now e esses três canais. O que acontece é que, atualmente, esses três canais são cada vez mais parecidos entre si e o espectador passará a ter três alternativas: SIC Notícias, RTP3 e CNN, que são, no fundo, uma mesma realidade; CMTV; e Now.

O Now está, como todos os projetos desta casa, destinado a liderar.

Como pensam abordar as matérias?

Em termos de grelha de conteúdos, vamos ter uma leitura mais clássica da atualidade, respeitando muito a pirâmide invertida, em que os assuntos da política, da economia, do internacional, do mundo, da diplomacia vão ser predominantes.

O Jornal de Negócios terá uma presença diária na antena – essa presença da economia é muito importante. Teremos também, diariamente, um jornal do mundo com informação internacional; e os nossos protagonistas, que são, muitos deles, personalidades da política.

A nossa abordagem é muito mais relacionada com os conceitos clássicos do Jornalismo em termos de pirâmide invertida. Será esse o nosso olhar sobre a atualidade.

A CMTV tem uma grande rede de correspondentes regionais e locais. Esses profissionais vão colaborar com o Now?

Teremos formas criativas de criar sinergias. O Now vai cobrir sobretudo as matérias respeitantes a este padrão de conteúdos, que é mais próprio, ou seja, matérias de política de economia internacional. Já as matérias do jornalismo de proximidade, que é aquilo em que a CMTV é forte e que marca a liderança no cabo, de forma destacadíssima, continuarão a ser cobertas pela CMTV.

Portanto, haverá uma espécie de trabalho em rede. É como se aprofundássemos a malha nacional da Medialivre, isto é, à malha do CM e da CMTV, vamos acrescentar a do Now, que se destinará sobretudo a alargar o espectro de conteúdos que cobrimos em todo o País.

E lá fora, como é que vão assegurar a cobertura?

Vamos ter cobertura sobretudo junto das realidades da construção europeia. Teremos uma posição forte em Bruxelas [Bélgica] e Estrasburgo [França]; e um correspondente em Londres [Reino Unido], porque, não sendo União Europeia, achamos que também é um sítio importante para estarmos. Vamos dar muito interesse à construção europeia porque também faz parte do nosso estatuto editorial o interesse e o acompanhamento permanente dessa realidade.

Adiantaram nomes como António Costa, Rui Rio, Pedro Santana Lopes, João Cotrim Figueiredo, Luís Paixão Martins… Depois revelou que os mesmos, além de terem uma presença no canal, aceitaram fazer parte do “Conselho de Senadores”. Do que se trata?

Como também fazem parte do Now, estão todos eles habilitados a dar um contributo positivo para me ajudarem a pensar não só o canal, como o fenómeno televisivo. Esse é o Conselho de Senadores. É uma honra para mim eles terem aceitado isso.

É uma forma de juntar pessoas com relevo na sociedade e que pensam bem diversos temas, mas também os media, e tenho o privilégio de ter estes conselheiros. Além disso, é uma iniciativa inédita. Eu próprio estou curioso para saber qual é que vai ser a reação deles, quais é que vão ser os inputs e os conselhos para fazermos, digamos, melhor este canal.

A decisão é sempre minha, é sempre do diretor, mesmo sob o ponto de vista legal. Os conteúdos serão sempre fruto da investigação jornalística e pautados pela máxima liberdade. Porém, ao nível do pensamento do canal e do fenómeno da televisão, acho que é importante e é uma iniciativa inédita que tem graça e que vai ser útil para mim. Aliás, estou expectante para ver o que é que vai dar.

É como que um trabalho de consultoria?

Ou melhor, curadoria… Vou partilhar com eles a forma como estamos a pensar fazer o canal, a grelha, as ideias principais, etc. e ouvir as suas reações e os seus conselhos. Nas reuniões que tivemos com todos os protagonistas para os desafiar a trabalharem para o canal, todos se mostraram muito interessados em perceber, afinal, que proposta diferenciada é essa.

Por exemplo, não vamos ter comentadores naquele sentido clássico dos comentadores que falam sobre tudo e sobre nada. Vamos ter protagonistas, analistas, especialistas; vamos trazer sempre à antena alguém que tem algo a acrescentar aos temas sobre os quais é convidado a falar. Isso é uma proposta diferenciadora. Foi precisamente nessa parte que todos eles manifestaram mais curiosidade, para perceber como é que se ia processar. E quando entenderam que esta diferenciação da proposta incluía pedir-lhes para serem ouvidos e para aconselhar o diretor sobre a melhor forma de fazer o canal, todos aderiram e isso deixou me bastante grato. Como disse, estou muito ansioso para que isso possa acontecer.

Até porque os ritmos de informação mudaram…

Exatamente. Atualmente, penso que estamos a correr um risco e esses três canais que referi no início estão a acelerar demasiado e a emocionalizar demasiado o debate político. Hoje, nos três canais clássicos de informação, vemos que muitos debates políticos são quase debates de futebol. Há um fenómeno que eu costumo chamar de “futebolização da política” – vamos combater isso. Não quero que os debates, as intervenções no Now, sejam marcados pela emoção e pelo pior que há relativamente à comunicação televisiva. Vamos ser um canal marcado pela reflexão e não pela emoção.

Porém, disse-o aqui também na cerimónia de apresentação do canal: isto não vai fazer com que o canal seja chato, aborrecido, pesado, institucional. Vamos procurar, permanentemente, as mais apelativas formas de comunicação televisiva e, sob o ponto de vista do conteúdo, ter uma proposta diferenciada.

Qual será o grande desafio do canal?

Agora, o grande desafio é começar. Depois, os canais de televisão têm uma vantagem única: quando começam, nunca mais acabam; e, portanto, assim que nós começarmos, a equipa sabe que nunca mais acabamos. O nosso desafio mede-se ao segundo. Nesta empresa temos sempre um desafio, o espectador é que manda. Analisamos a performance minuto a minuto, com todas as ferramentas que temos ao dispor e depois avaliamos todos os conteúdos, para ver quais são os que estão bem e os que estão mal.

Mas o grande desafio, genericamente, eu costumo traduzir numa frase: fazer hoje melhor do que ontem e fazer amanhã melhor do que hoje. Esse é o nosso desafio permanente, no Now e nos outros títulos desta empresa. É uma responsabilidade porque é um novo canal. São cerca de 60 pessoas que têm aqui novos postos de trabalho e que precisaram de lutar por eles e de ter sucesso, mas o princípio é sempre o mesmo: olharmos para os sinais que os espectadores nos dão através da medição de audiências, respeitar absolutamente essa medição de audiências e esses espectadores, e trabalhar para que todos os dias possamos fazer melhor em relação ao dia anterior.

*Esta entrevista foi realizada antes do lançamento do canal.

Carolina Neves

Quinta-feira, 20 Junho 2024 11:56


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