Hoje em dia, devido à multiplicidade de efemérides existentes, algumas delas, embora relevantes, podem passar quase despercebidas, o que me leva a destacar o Dia Mundial da Criatividade e Inovação, que se assinala a 21 de abril. Mais do que celebrar ideias “fora da caixa”, assenta no poder da imaginação, enquanto estímulo para o pensamento crítico e para potenciar a criação de novas soluções que resolvam os problemas globais. No fundo, é uma data que tem subjacente o desafio de olharmos para o que já conhecemos e perguntar se estamos a fazer o suficiente com o que sabemos ou podemos fazer diferente e melhor.
Num mundo onde os desafios se acumulam, desde os efeitos das alterações climáticas até à forma como consumimos e descartamos recursos, a criatividade surge como ferramenta essencial. Não por acaso, esta data é reconhecida pela ONU e está correlacionada com vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: ODS 9 (Indústria, inovação e infraestruturas); ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e ODS 13 (Ação Climática). No fundo, trata-se da nossa capacidade coletiva de encontrar novas respostas para o que já não pode esperar.
Talvez a maior mudança resida precisamente aí, em percebermos que a criatividade não começa nas grandes ideias, mas no “como”: como olhamos para a realidade, como questionamos o que parece adquirido e como decidimos agir perante isso. Porque quando mudamos a forma de ver, a nossa perceção, abrimos espaço para mudar aquilo que fazemos.
Dou como exemplo concreto o setor da gestão dos resíduos e reciclagem de embalagens em Portugal que, para continuar a evoluir, precisa de criatividade e muita inovação, alocando o investimento nos sítios certos. Tem de repensar-se a operação, nas várias fases: como as embalagens são desenhadas, como são utilizadas, como chegam até nós, como são descartadas e o que lhes acontece depois de serem recolhidas dos ecopontos. Isto implica, também, repensar as próprias infraestruturas e a forma como o sistema funciona no dia a dia, garantindo um nível de serviço mais eficaz, acessível e que corresponda às necessidades dos cidadãos.
Por isso, é preciso adotar soluções mais circulares, mais eficientes, mais sustentáveis. E, acima de tudo, conseguir envolver mais as pessoas de forma a mudar comportamentos, enraizar hábitos, gerar consciência.
Nada disto acontece sem colaboração. Empresas, cidadãos, entidades públicas, sistemas municipais e multimunicipais que prestam os serviços de recolha seletiva de resíduos de embalagens, todos fazem parte desta equação. É neste esforço conjunto que a criatividade ganha escala e a inovação se torna possível.
Ao mesmo tempo, vivemos num momento em que os dados e a tecnologia (como a inteligência artificial) estão a transformar a forma como pensamos soluções. Hoje conseguimos medir o impacto do que é feito, analisar padrões, antecipar cenários e testar ideias, o que antes seria impensável.
Mas há algo que a tecnologia, por mais avançada que seja, não substitui: o contexto humano e o pensamento crítico, que dá direção aos dados. É a nossa capacidade de questionar, interpretar e decidir que transforma informação em ação. A tecnologia acelera, mas somos nós que damos significado.
Talvez por isso faça cada vez mais sentido olhar para a criatividade não como um talento isolado, mas como parte do coletivo. Algo que nasce da forma como pensamos, mas que cresce na forma como colaboramos. E é neste cruzamento entre pessoas, pensamento, dados e tecnologia que a inovação deixa de ser ideia, é concretizada, gera impacto e pode ganhar escala.
Ricardo Sacoto Lagoa, diretor de Marketing, Sensibilização e Comunicação da Sociedade Ponto Verde

