É muito fácil apaixonarmo-nos pela tecnologia que criamos. Trabalhar diariamente numa indústria onde a inovação acontece a uma velocidade extraordinária torna quase inevitável o entusiasmo por uma nova funcionalidade, uma melhoria de desempenho ou uma solução que, pouco tempo antes, parecia impossível.
Mas há uma ideia que se foi tornando cada vez mais clara ao longo do meu percurso: a tecnologia não precisa de parecer complexa para ser extraordinária. Aliás, diria que acontece precisamente o contrário. Quanto mais avançada se torna, mais simples deveria ser a experiência de quem a utiliza.
Durante muito tempo, comunicámos inovação através de especificações, siglas e capacidade de processamento. Continuam a ser importantes, naturalmente, mas não é nisso que pensamos quando estamos atrasados de manhã, quando chegamos a casa depois de um dia longo ou quando queremos simplesmente sentar-nos no sofá e desligar. Nesses momentos, queremos que as coisas funcionem.
É também aqui que encontro uma das partes mais interessantes do meu trabalho em marketing: converter inovação tecnológica em soluções com impacto real. A pergunta deixa de ser apenas “o que é que este produto oferece?” e passa a ser “Como é que este produto muda verdadeiramente a vida de alguém?”.
Às vezes, a resposta está em coisas aparentemente banais. Pode ser conseguir ver televisão durante a tarde sem ter de fechar as cortinas por causa dos reflexos. Ou ter a sensibilidade de perceber que um ecrã passa muitas horas desligado e que, por isso, também deve respeitar o espaço onde está inserido. É essa reflexão que encontramos, por exemplo, no modelo The Frame, onde tecnologia, arte e design se cruzam para que a televisão possa integrar-se na decoração e assumir uma nova função quando deixa de ser apenas um ecrã. Noutras situações, é uma máquina de lavar capaz de tomar pequenas decisões de forma autónoma ou um ecossistema capaz de integrar vários equipamentos e gerir o consumo energético sem exigir atenção constante.
É nesta ideia que revejo aquilo a que, na Samsung, chamamos Inovação com Propósito. Não se trata de acrescentar tecnologia porque podemos, mas de perceber onde ela pode retirar uma tarefa, uma preocupação ou uma decisão desnecessária do nosso dia.
Talvez por trabalhar tão perto da tecnologia, tenha aprendido também a valorizar aquilo que ela nos permite fazer quando deixa de exigir a nossa atenção. Para mim, esse é um dos desafios mais estimulantes da criatividade e do marketing hoje: conseguir tornar visível o benefício de algo que, idealmente, funciona quase sem darmos por isso.
Porque, no final, talvez a inovação mais sofisticada não seja aquela que nos faz pensar constantemente na tecnologia que temos à nossa volta. É aquela que nos devolve tempo e espaço mental para pensarmos em tudo o resto.
Carolina Simões de Almeida, Head of Marketing & Retail da Divisão de Consumer Electronics da Samsung Portugal

