A opinião de… Patrícia Adegas, da Novartis

A IA não vai substituir a comunicação interna, mas obrigar-nos a redescobrir o seu valor

A opinião de... Patrícia Adegas, da Novartis

Nos últimos meses, tenho participado em várias conversas sobre Inteligência Artificial (IA) e Comunicação. Quase todas começam da mesma forma: “A IA vai substituir os comunicadores?”

Pessoalmente, acredito que essa é a pergunta errada.

A verdadeira questão é outra: se a IA passar a fazer uma parte significativa do trabalho que hoje ocupa o nosso tempo, onde devemos colocar o nosso foco?

Durante anos, a Comunicação Interna foi muitas vezes associada à produção de conteúdos. Escrever newsletters, preparar mensagens da liderança, gerir canais e garantir que a informação chegava às equipas. Estas continuam a ser atividades importantes, mas a realidade é que a IA consegue hoje executar muitas delas, de forma mais rápida e eficiente.

Isso não diminui a importância da função. Pelo contrário.

Ferramentas capazes de criar conteúdos, resumir informação, adaptar mensagens ou produzir apresentações em segundos já fazem parte do dia a dia das empresas. O relatório “The Road to 2030 – A study of Corporate Affairs functions in an unpredictable world” identifica estas áreas como algumas das principais aplicações da IA nas funções de Corporate Affairs.

Na minha perspetiva, a IA está a acelerar uma transformação que já estava em curso: a passagem da Comunicação Interna de uma função centrada na informação para uma função centrada na transformação.

As organizações enfrentam hoje mudanças constantes – novas estruturas, novas formas de trabalhar, novas exigências de negócio e níveis crescentes de incerteza. Neste contexto, o verdadeiro desafio já não é comunicar mais. É ajudar as pessoas a compreender, acreditar e agir.

É aqui que a comunicação interna continua a fazer a diferença.

Ao mesmo tempo, a IA traz um desafio adicional. Estamos a entrar num mundo onde qualquer pessoa consegue gerar conteúdos, apresentações ou mensagens em segundos. A informação será abundante. A confiança não.

Por isso, acredito que uma das missões mais importantes dos comunicadores será ajudar as organizações a preservar autenticidade, clareza e credibilidade. Quanto mais conteúdo for produzido por máquinas, maior será o valor do julgamento humano.

E é precisamente aqui que vejo o futuro da profissão.

Não na capacidade de produzir mais conteúdos, mas na capacidade de aconselhar líderes, interpretar o sentimento das equipas, reforçar a cultura organizacional e apoiar a execução da estratégia.

A IA pode escrever uma mensagem de transformação.

Mas continua a ser necessário alguém que compreenda o contexto, antecipe reações, perceba o impacto emocional da mudança e ajude a liderança a construir confiança.

Por isso, as competências mais importantes para os profissionais de comunicação nos próximos anos talvez não sejam apenas técnicas ou digitais. Serão competências como pensamento estratégico, compreensão do negócio, influência, gestão da mudança e storytelling.

Em última análise, não acredito que a IA venha substituir a comunicação interna.

Acredito que vai fazer algo mais desafiante: obrigar-nos a abandonar algumas das tarefas que definiram a profissão durante anos e a focarmo-nos naquilo que realmente cria valor.

Porque, no fim de contas, a missão da comunicação interna nunca foi produzir conteúdos. Sempre foi ajudar as organizações a mobilizar pessoas em torno de uma direção comum.

E essa continua a ser uma capacidade profundamente humana.

Patrícia Adegas, Country Communications & Patient Advocacy Head da Novartis

Segunda-feira, 07 Setembro 2026 09:36


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