A Comporta tem aroma? Tem. E Pierre Bouissou sabe qual é

E inspirou-se nele para criar um perfume com alma.

A Alma de Pierre A Comporta tem aroma? Tem. E Pierre Bouissou sabe qual é

É a sua letra que desenha o nome da marca no rótulo: Alma da Comporta, escrita à mão por Pierre Bouissou, o francês que trocou a cosmopolita Paris pela tranquila localidade da costa alentejana. E que – as palavras são dele – se apaixonou ao ponto de querer captar o espírito e os aromas da pequena vila num perfume.
Foi há 12 anos que descobriu a Comporta. Na sua primeira visita a Portugal. Foi amor à primeira vista e ali construiu uma casa, a sua casa e a casa da sua marca. Mas seria preciso esperar até 2016 para que este francês nascido em Nice se decidisse a fazer pausa numa vida profissional intensa, de mais de 30 anos pontuados por viagens aos quatro cantos do mundo.
Pierre Boussion é um nome (re)conhecido no mundo da cosmética. Estava destinado, é o que se depreende das suas palavras: “A vida é feita de encontros e de acasos, mas é preciso definir um objetivo. E eu tinha apenas um – trabalhar para a beleza e para o luxo.” Assim foi desde cedo: recorda que era muito pequeno e já dizia que queria ser cirurgião estético. Com familiares na Medicina, foi para este curso que se encaminhou, até que – partilha – um pequeno grande obstáculo se lhe deparou: o sangue inevitável no bloco operatório. Estava no quinto ano e, portanto, numa encruzilhada, que venceu ingressando em Cosmetologia. Estava no seu mundo, tanto que, ao terminar a licenciatura, a indústria de beleza lhe pareceu a opção certa. Um MBA em Paris e a L’Oréal foram os passos seguintes. Durante quase dez anos, trabalhou essencialmente as marcas do canal farmácia, em que pontuam a Vichy e a La Roche-Posay. Trocou de empresa, mas não de segmento: por dois anos, assumiu a direção-geral da Avène, do grupo Pierre Fabre.
Contudo, o universo do luxo continuava a atraí-lo. E, numa altura em que se ressentia do foco em marcas de farmácia, ingressou na LVMH, tendo sido, por seis anos, diretor da Unidade de Negócio Skincare da Dior. Até que, em 2011, um novo ciclo começava: sempre neste universo, passou dos cosméticos às joias, como CEO da Boucheron.
Mas, afinal, porque é Pierre Bouissou tão atraído pela beleza e, em particular, pelo luxo? “Pelo sonho, porque as pessoas se projetam. O luxo é o sonho”, responde, não deixando, porém, de partilhar uma nota realista: “É preciso ter lucidez. A tecnologia evoluiu enormemente e há novos ativos, mas um creme não devolve a juventude.”
Ainda assim, é o sonho que comanda este mundo, um mundo em que “a textura é mais importante do que o ativo, em que o prazer é transbordante e a simples alegria de possuir um destes produtos proporciona prazer”. E, aqui, o perfume ocupa igualmente um lugar de destaque: “Faz parte do prazer. Num produto medicalizado, o perfume deve evocar a eficácia e, por vezes, até cobrir a base da fórmula, mas, no luxo, o perfume tem de ser sensorial, se não o for, o produto não é de luxo.”
E a conversa chega assim ao perfume Alma da Comporta. Aconteceu “naturalmente”, com a inspiração a chegar dos aromas da vila alentejana. “Adoro os aromas da Comporta. Quando se chega, passa-se pelos arrozais, pelos campos de alfazema… é uma mistura olfativa única. O trabalho que fiz foi recriar esta alquimia”, conta.
Regressou ao seu universo profissional para uma “contratação” de peso: a de François Demacgy, perfumista-criador da Parfums Christian Dior. “É de uma exigência incrível”, comenta, evocando o briefing que transmitiu ao “nez”: notas frescas, mas sensuais. Foi como que uma batalha de narizes, com François a defender um aroma mais verde e Pierre a contrapor que a Comporta é sofisticada e, simultaneamente, discreta. O impasse dissipou-se quando o perfumista teve oportunidade de sentir os aromas. Regressou a Paris e o perfume ganhou corpo. “Escolhemos os melhores ativos, fomos muito escrupulosos”, afirma o fundador da marca, especificando que o seu Alma se faz de três famílias olfativas: as hespirídeas, como o limão, a laranja e a bergamota, que transmitem frescura; as aromáticas, como a alfazema e o tomilho, que evocam os jardins; e os amadeirados, com o cedro e o pinho a evocarem a sensualidade que desejava.
Seria, ainda, preciso passar um último teste: o das gentes locais. François desafiou Pierre a dar a conhecer o seu perfume aos habitantes da Comporta, o que fez – era preciso que se reconhecessem nele. E reconheceram. “Não queria lançar um perfume qualquer, queria lançar ‘o’ perfume. Era muito importante para mim que fosse um perfume emblemático e icónico da Comporta”, enfatiza. O lançamento aconteceu há três anos, como “um presente para a Comporta”.
E precisamente por isso o nome da marca surgiu de forma intuitiva. Tinha de ser português – diz – porque queria que fosse uma marca portuguesa. E “Alma” é “bonito”. Já a caligrafia no logótipo é a sua, porque “queria algo pessoal”, a pensar nas pessoas da Comporta que – comenta – são refinadas. “Tal como a Comporta, o perfume é um segredo escondido, não se sabe bem o que se passa, tudo é subtil e requintado”.

Quarta-feira, 08 Março 2023 13:02


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