A poucos minutos de Lisboa, entre as dunas da Costa da Caparica, há um lugar onde a praia é apenas o ponto de partida. No Praia Irmão, é a ideia de comunidade que dá identidade ao espaço. Mais do que um restaurante ou um beach club, apresenta-se como um lugar pensado para criar ligações entre pessoas, gastronomia e cultura, descanso e celebração. É essa filosofia que continua a orientar o projeto dos irmãos franceses Nini, Nico e Romain Sainte-Claire Deville.
A experiência começa muito antes de chegar à mesa. O ambiente descontraído, construído com materiais naturais e peças desenvolvidas por artesãos locais, prolonga a paisagem das dunas para o interior do espaço. Durante o dia, há quem procure simplesmente um almoço sem pressas ou um lugar reservado na praia – as marcações estão disponíveis online com até 30 dias de antecedência –; ao final da tarde, a música acompanha o pôr do sol e transforma o ambiente, sem perder a sensação de proximidade que distingue a casa. Entre sessões de ioga, pilates ou fitness no Playground, e sunsets, sessões de vinil ou pequenos concertos, o Praia Irmão procura que cada visita vá sendo diferente.
Essa ideia de felicidade partilhada também se sente na cozinha. A nova carta, assinada pelo chef Welder Silva, mantém a inspiração mediterrânica, privilegiando ingredientes frescos, sazonais e preparados de raiz. Nas entradas, destacam-se propostas como as Celestial Oysters, servidas com molho ponzu e sunomono; o Carpaccio de Lírio, com malagueta, laranja e vinagrete cítrico; ou o Hummus & Crudité, acompanhado por focaccia da casa, dukkah e mix de vegetais. Nos pratos principais, convivem o Polvo Zarandeado na brasa com romesco de pistáchio; o Bife da Vazia Grelhado, servido com molho jus, chimichurri e alho confitado; e a proposta vegetariana Nature’s Magic, que combina croquetes de batata doce roxa, raiz de aipo, gengibre e lentilha vermelha, acompanhados com tabulé de quinoa tricolor, maionese de couve-flor, e puré de feijão branco e beterraba. Para terminar, sobremesas como a Panna Cotta, com compota de fruta da época, ou o Ananás Maturado Grelhado, com gelado da casa e caramelo salgado de miso, mantêm o equilíbrio entre sofisticação e informalidade. A acompanhar, há ainda uma carta de cocktails de autor, da qual Maurício Leal Cardoso propõe o Wavey Daze, o C’est La Vie ou a Korean Paloma, pensados para prolongar o espírito descontraído dos dias de verão.
Ao lado da cozinha, há outra protagonista: a pizza. Preparadas pelo pizzaiolo Rawezh Amin, tornaram-se uma das imagens de marca do Praia Irmão e justificam até um corner próprio de take-away na praia, além do serviço de delivery através da marca Irmão ZAP. Natural do Curdistão iraquiano e em Portugal há oito anos, Rawezh acompanha o projeto desde o início. “Nós começámos com a venda de dez pizzas por dia. Agora, num dia normal, saem cerca de 150; ao fim de semana, chegamos às 300 ou 350”, conta. O segredo está na técnica: uma fermentação lenta, que pode chegar aos quatro dias, maioritariamente em frio, para responder às oscilações de temperatura e humidade da praia. O resultado é uma massa com uma textura própria, que segue para o forno durante apenas três a quatro minutos.
Também para Welder Silva, a ligação ao Praia Irmão vai muito além da cozinha. Brasileiro, de Minas Gerais, recorda que foi precisamente naquela costa que viu o mar pela primeira vez, há 21 anos. Hoje, cinco anos depois de integrar a equipa quando estava a arrancar o projeto, continua a sentir esse simbolismo. “Cozinhar com esta vista é outra coisa”, resume. Mais do que o cenário, destaca a cultura da casa. Recorda que, quando chegou, nem conseguiu identificar quem eram os proprietários: “Estavam descalços, a trabalhar com madeira, misturados com toda a equipa. Esta cultura do Irmão emociona a gente.”
É precisamente essa ausência de barreiras que parece definir o projeto. Num espaço onde turistas, famílias, surfistas e clientes habituais convivem naturalmente, a gastronomia é apenas uma parte de uma experiência mais ampla. Seja à mesa, numa espreguiçadeira, numa aula de bem-estar ou ao som de um DJ durante o pôr do sol, o Praia Irmão parece continuar a apostar na ideia de criar um lugar onde as pessoas regressem não apenas pela comida ou pela vista, mas pela forma como ali se sentem.
Carolina Neves












