Há uns anos, se alguém nos dissesse que tinha visto no TikTok uma cura para enxaquecas feita com óleos de alho e entoações, a reação natural seria rir. Hoje, o mais provável é perguntarmos quantas visualizações teve e pedirmos o link. O digital prevalece sobre a ciência por excesso de desinformação. A ciência não falhou, mas a comunicação sim.
O problema não está nas redes sociais. Está em termos deixado que o espaço fosse ocupado por discursos simplistas, promessas mágicas e filtros, muitos filtros. As redes sociais não são o inimigo, são o palco. E, se as marcas de saúde não souberem entrar em cena, outras vozes vão fazê-lo, mesmo que menos informadas.
Durante muitos anos, a comunicação em saúde baseava-se em linguagem técnica e necessidade de controlo absoluto. Mas atualmente esta indústria está bem ciente de que não basta ter a verdade científica, é preciso saber comunicá-la no mesmo lugar onde as narrativas ganham força: no feed.
Sim, este é um setor altamente regulado – o que se pode dizer, como e a quem –, tudo para garantir segurança, fiabilidade e ética. Mas, do outro lado, os criadores de conteúdos não seguem o mesmo rigor. E isso cria um desequilíbrio entre uma indústria controlada e um universo digital onde se pode dizer quase tudo, sem consequências. Mas nada disto deve ser visto como um entrave. Antes pelo contrário. É na fiabilidade e nas regras que está o poder distintivo da mensagem em saúde.
Campanhas de consciencialização, conteúdos educativos, bastidores da ciência, testemunhos reais, tudo isto é comunicar bem seguindo regras. A literacia em saúde tanto pode passar por um outdoor, como por um vídeo no YouTube.
Comunicar melhor é mais do que responsabilidade. É estratégia. Porque informação clara trazida com criatividade reforça a confiança e, a longo prazo, beneficia a saúde pública e o próprio setor. O desafio não está em escolher entre o rigor científico e o alcance. Está em saber unir os dois, o que é, igualmente, uma grande oportunidade.
Diana Moreira, Project Manager da Shift

