A opinião de… Hugo faria, da Culligan

A facilidade de produzir e distribuir conteúdos – acelerada pela inteligência artificial – trouxe escala, mas também saturação. Neste contexto, como defende o diretor de Marketing Ibérico da Culligan e conselheiro das Superbrands, Hugo Faria, o verdadeiro desafio já não está em comunicar mais, mas em construir marcas com significado, consistência e credibilidade.

A opinião de... Hugo faria, da Culligan

Vivemos um tempo paradoxal para as marcas. Nunca foi tão fácil comunicar, publicar e amplificar mensagens. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil ser verdadeiramente ouvido, reconhecido e, sobretudo, acreditado. A aceleração tecnológica — impulsionada pela inteligência artificial — trouxe uma capacidade inédita de produzir conteúdos, automatizar interações e multiplicar pontos de contacto com os consumidores. Mas trouxe também um novo desafio: a permanente interrogação da autenticidade da comunicação! 

Num contexto de imediatismo, onde o consumo de informação é rápido, fragmentado e muitas vezes superficial, construir uma marca tornou-se um exercício muito mais complexo do que simplesmente comunicar. A facilidade com que hoje se produz conteúdo criou um ruído constante no espaço público. As mensagens sucedem-se, os formatos multiplicam-se e as narrativas tornam-se cada vez mais confusas e indistinguíveis umas das outras. Neste ambiente, a diferença raramente está na quantidade de comunicação, mas na capacidade de sustentar significado. 

Durante muito tempo, acreditou-se que as marcas se construíam sobretudo através da visibilidade. Hoje percebemos que visibilidade sem propósito gera apenas mais uma camada de ruído. A verdadeira construção de marca exige algo mais difícil: consistência, relevância e credibilidade ao longo do tempo. 

No entanto, esta lógica nem sempre encontra espaço no atual ecossistema de comunicação. A pressão pelo resultado imediato, pelas métricas rápidas e pela presença constante tende a empurrar muitas estratégias para uma lógica de curto prazo. Comunica-se muito, mas nem sempre se constrói. Publica-se constantemente, mas nem sempre se acrescenta valor. 

O risco é claro: quando o propósito de existência de uma marca — satisfazer necessidades reais dos consumidores através de propostas de valor relevantes — deixa de estar no centro da estratégia, a comunicação torna-se um fim em si mesma. E quando isso acontece, a relação entre marcas e pessoas fragiliza-se. 

A inteligência artificial amplifica este desafio. A capacidade de gerar textos, imagens ou campanhas inteiras em segundos levanta inevitavelmente uma questão essencial: o que é verdadeiramente humano na comunicação de uma marca? Quando tudo pode ser produzido rapidamente, a autenticidade deixa de ser assumida e passa a ter de ser demonstrada. 

Por isso, talvez o verdadeiro desafio das marcas hoje não esteja na tecnologia que utilizam, mas na clareza do seu propósito e na coerência das suas ações. A tecnologia pode amplificar mensagens, mas não substitui a substância que lhes dá sentido. 

Construir uma marca implica, cada vez mais, resistir à tentação do ruído e focar-se no essencial: compreender profundamente as necessidades das pessoas e responder-lhes com propostas de valor que façam sentido no seu quotidiano. Nem sempre são as soluções mais visíveis ou mais mediáticas. Muitas vezes são aquelas que atuam de forma silenciosa, mas consistente, melhorando a vida das pessoas de forma concreta. 

É nesse espaço — menos ruidoso, mas mais significativo — que as marcas conseguem verdadeiramente construir relevância. Não através de grandes promessas, mas através da capacidade de responder a necessidades reais com soluções que se integram naturalmente na vida das pessoas.

Num mundo de comunicação instantânea, construir uma marca continua a ser, paradoxalmente, um exercício de longo prazo. Exige tempo, coerência e uma certa humildade estratégica: aceitar que o valor de uma marca não se mede apenas pelo volume da sua comunicação, mas pela confiança que consegue gerar. 

E talvez seja precisamente essa confiança — construída de forma paciente e sustentada — que continuará a distinguir as marcas que apenas comunicam daquelas que verdadeiramente fazem sentido na vida das pessoas.

Hugo Faria, diretor de Marketing Ibérico da Culligan

Segunda-feira, 30 Março 2026 12:34


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