A opinião de… Maryanna Franco, da BrilliantSEO

Num cenário em que a inteligência artificial redefine a forma como procuramos informação, já não basta ser encontrado, é preciso ser recomendado. A fundadora da BrilliantSEO, Maryanna Franco, alerta para o fosso crescente entre reconhecimento e recomendação, explicando por que razão muitas marcas, apesar de visíveis no Google, continuam ausentes nas respostas dos sistemas de IA.

A opinião de... Maryanna Franco, da BrilliantSEO

A interseção entre reconhecimento e recomendação é falsamente acreditada por muitos profissionais como se as palavras fossem sinónimas. Infelizmente, estes termos estão cada vez mais distantes e, embora um (a recomendação) dependa do outro (o reconhecimento), o oposto já não se verifica.

Quando faço testes com perguntas reais (queries) em ferramentas como ChatGPT, Gemini ou Perplexity:

“Quem são os melhores especialistas em SEO?”

“Que empresas devo contratar para este problema?”

Verifico frequentemente que marcas que têm sites bem construídos e que aparecem nos resultados do Google para certas (relevantes) palavras-chave, desaparecem nas respostas dos LLMs.

E num mundo onde 40% de todos os queries geram uma resposta automática, não aparecer é o mesmo que não existir.

O problema principal não é os LLMs não saberem quem é certa pessoa ou marca (se eu perguntar quem é X e a pessoa tiver uma presença online significativa, provavelmente irei obter uma resposta correta), o problema é não sugerirem estas mesmas pessoas ou marcas (o ChatGPT sabe quem é certa pessoa, mas não a recomenda em queries relacionados).

Esta divisão de concertos vai fazer toda a diferença à medida que mais e mais respostas se tornam automáticas.

Por que é que o SEO tradicional não chega e o que mudou?

Durante quase 30 anos, SEO foi relativamente simples de explicar e o objetivo era claro: aparecer em primeiro lugar nos resultados de pesquisa com as palavras-chave designadas.

Mas a forma como os utilizadores pesquisam mudou. Hoje em dia, cerca de 40 % das pesquisas dão origem a respostas geradas por IA (quer seja ChatGPT, AIO ou Claude).

Mesmo que o tráfego oriundo de motores como o ChatGPT ainda seja baixo, a verdade é que todos vimos o número de impressões subir e o número de cliques descer. Não fica assim dúvida: estas respostas impõem alterações à forma como implementamos medidas de SEO.

O problema é que muitos profissionais de marketing ainda estão a otimizar para o modelo antigo: medem rankings, impressões e cliques. Métricas que fazem todo o sentido num mundo de links, mas que não capturam o que acontece quando a resposta já vem pré-fabricada.

A questão passou de “apareço nos resultados?” para “sou mencionado quando alguém pergunta quem resolve este problema?”.

São perguntas diferentes que exigem respostas diferentes.

Como os LLMs escolhem o que recomendar

Para perceber o problema, é preciso identificar como estes sistemas (LLMs) funcionam. Não em detalhe técnico, mas o suficiente para compreender o que pesa, o que é considerado e o que faz a diferença.

Quando um modelo de linguagem gera uma resposta, não está simplesmente a copiar o que aparece em primeiro lugar no Google. Este processo combina três camadas de informação:

–  Conhecimento pré-treinado: o que o modelo aprendeu durante o treino, a partir de enormes volumes de texto da web.

–  Recuperação em tempo real: informação recolhida da web no momento da pergunta.

–  Avaliação de confiança: uma espécie de filtro interno que decide se uma entidade é suficientemente fiável para ser citada numa resposta.

É esta terceira camada que faz a diferença.

Os LLMs são sistemas naturalmente avessos ao risco. Se o modelo não tiver confiança suficiente numa entidade (se os sinais forem fracos, contraditórios ou ausentes), prefere não a mencionar. Neste caso, o modelo poderá ficar em silêncio (responder algo como “não há uma única pessoa famosa ou universalmente conhecida com este nome”) ou recorrer a nomes já amplamente reconhecidos, do que arriscar uma recomendação que pode estar errada.

Isto cria um fenómeno curioso que podemos chamar o silêncio da IA: a tua marca não é criticada, nem é descartada, mas simplesmente não aparece. E para o utilizador que está a fazer a pergunta, é como se nunca tivesse existido.

Reconhecimento vs. recomendação: A distinção que ninguém explica

Distinguir entre reconhecimento e recomendação é fundamental para percebermos como chegar às listas de recomendações.

Reconhecimento significa que o sistema sabe que a entidade existe. Se alguém perguntar “quem é [nome]?” ou “o que é [empresa]?”, o modelo consegue responder. A entidade foi identificada, processada e compreendida.

A recomendação exige algo mais complexo e acontece quando o sistema inclui a entidade como resposta a uma pergunta mais ampla:

– “Quem são os melhores especialistas em [tema]?”

– “Que ferramentas devo usar para [problema]?”

– “Quais as empresas mais recomendadas para [serviço]?”

Aqui o modelo já não está apenas a reconhecer uma entidade, mas também a fazer uma escolha ativa, sugerindo-a.  Mas para o fazer, precisa de algo muito mais difícil de construir: confiança suficiente para assumir o risco da recomendação.

O equívoco que vejo repetidamente é assumir que uma coisa leva automaticamente à outra: que ser reconhecido implica ser recomendado. Não implica! E o espaço entre as duas é exatamente onde se está a perder visibilidade.

As camadas de confiança da entidade

A partir de observação e testes, começa a emergir um padrão claro sobre o que os sistemas de IA utilizam para construir confiança numa entidade. Podemos organizar esses sinais em quatro camadas.

Camada 1:  Definição clara da entidade

O sistema precisa de perceber, sem ambiguidade, quem ou o que é a entidade. Embora possa parecer básico, muitas marcas falham aqui, uma vez que apesar de terem sites ricos em conteúdo, não têm uma página clara que explique o que fazem, para quem e com que especialização. Na maioria das vezes também não têm schema markup ou schema markup completo o suficiente. Usam nomes inconsistentes em plataformas diferentes bem como definições que variam consoante o contexto.

Sem esta base, o modelo pode até reconhecer o nome, mas não consegue enquadrar a entidade com confiança suficiente para a recomendar.

Camada 2: Corroboração externa

Uma empresa pode dizer o que quiser sobre si própria no seu site. Esta é uma vantagem que entidades como a Wikipedia não nos dão: o controlo da nossa narrativa. Mas os sistemas de IA sabem disso. Por esse motivo, procuram confirmação externa: artigos publicados noutros sites, entrevistas, podcasts, participações em conferências, menções em publicações do setor.

Cada uma destas ocorrências funciona como uma validação independente. O sistema não precisa de confiar na empresa para confiar em quem fala sobre ela. E quando múltiplas fontes independentes confirmam a mesma informação, a confiança cresce de forma exponencial.

Camada 3: Associação temática consistente

O modelo precisa de perceber em que tema a entidade é relevante. Isso acontece quando a entidade aparece repetidamente associada aos mesmos tópicos nos seus próprios conteúdos, mas principalmente nas fontes externas.

Se uma pessoa aparece em cinco entrevistas diferentes, todas sobre o mesmo tema, o sistema começa a construir uma ligação forte entre essa pessoa e esse assunto. A consistência cria padrão e o padrão cria associação. A associação aumenta a probabilidade de recomendação.

Camada 4 — Autoridade das fontes

Nem todas as menções têm o mesmo peso. Uma entrevista num meio de referência do setor vale muito mais do que dez menções em blogs de baixa qualidade. O sistema avalia não só a quantidade de corroboração, mas também a reputação das fontes que corroboram.

Isto tem uma implicação prática importante: uma estratégia de visibilidade para IA depende intrinsecamente de publicações nas fontes certas, dando prioridade à qualidade vs quantidade.

O teste das três perguntas

Existe uma forma rápida de perceber onde está a tua marca neste espectro. Basta fazer três perguntas a qualquer sistema de IA.

Pergunta 1 — Reconhecimento

«Quem é [nome da pessoa ou empresa]?»

Se o modelo responde corretamente e com detalhe, existe reconhecimento. A entidade está no radar do sistema. Claro que este teste deve ser feito num playground neutro, e não no nosso chat próprio pré-treinado.

Pergunta 2 — Associação temática

«Quem são os especialistas em [tema principal da entidade]?»

Se a entidade não aparece aqui, os sinais de associação temática são fracos. O modelo reconhece o nome, mas não a associa com força suficiente ao tema para a incluir numa lista.

Pergunta 3 — Recomendação

«Quem devo contratar para [problema que a entidade resolve]?»

Esta é a pergunta que mais importa. Se a entidade desaparece aqui, normalmente significa que faltam sinais de confiança ou corroboração externa. O modelo sabe que ela existe, mas não tem confiança suficiente para a colocar numa lista de recomendações.

O que fazer a seguir: cinco prioridades concretas

Não existe uma fórmula mágica. Mas existe trabalho estruturado. E para a maioria das marcas, as lacunas mais críticas concentram-se em cinco áreas.

  1. Criar uma página central da entidade

Uma página clara, estruturada, que explique quem é a entidade, o que faz, para quem e com que especialização. É como criar uma página da Wikipédia mas no nosso próprio site. Para ter sucesso, esta página deve conter:

– Schema markup completo,

– Nome consistente,

– Informação que o sistema possa extrair e usar com confiança.

  1. Usar títulos e descrições consistentes em toda a web

A mesma descrição profissional deve aparecer no site, no LinkedIn, no Google Business Profile, em biografias de artigos convidados, etc.  Inconsistência é ruído para os sistemas de IA. Consistência é sinal de confiança.

  1. Construir validação externa de forma deliberada

Artigos publicados noutros sites, entrevistas em podcasts, participações em conferências, menções em publicações do setor. É preciso que outras fontes falem sobre a entidade, e que o façam no contexto certo.

  1. Reforçar as associações temáticas

A entidade deve aparecer repetidamente ligada aos mesmos tópicos: nos seus próprios conteúdos e, sobretudo, nas fontes externas. Quanto mais consistente for essa associação, mais forte se torna o sinal de especialização.

  1. Priorizar fontes com autoridade real

Uma menção numa publicação de referência do setor vale mais do que dez menções em sites de baixo tráfego. Não se trata de quantidade, trata-se de qualidade e relevância das fontes. Uma entrevista bem colocada pode fazer mais pela visibilidade em IA do que meses de publicações internas.

A nova responsabilidade dos profissionais de SEO

Há uma tensão que sinto cada vez mais nesta profissão. Durante anos, o nosso trabalho foi técnico e mensurável: rankings, impressões, cliques, conversões. Métricas claras, objetivos claros.

Mas a realidade que estamos a enfrentar é mais complexa. Os sistemas de IA não funcionam como motores de pesquisa tradicionais. Não há uma posição #1 para conquistar. Não há uma métrica simples que diga «está a ser recomendado». Há confiança e a confiança constrói-se de forma lenta, consistente e multidimensional.

Isto exige uma mudança de mentalidade. Em vez de nos focarmos apenas em otimizar páginas, é preciso construir a reputação da entidade de forma deliberada: no site, fora do site, nas fontes certas, com as associações certas.

Fechar a diferença

O maior erro que vejo hoje nas estratégias de visibilidade digital é assumir que SEO e visibilidade em IA são a mesma coisa. Embora exista alguma sobreposição, os mecanismos são diferentes, os sinais são diferentes, e as lacunas são diferentes.

Marcas que estão bem posicionadas no Google podem estar completamente ausentes nas respostas de IA. E marcas com fraca presença orgânica mas fortes corroborações externas podem aparecer exatamente quando mais importa: no momento em que alguém está a decidir quem contratar.

A diferença entre reconhecimento e recomendação é estratégica. E fechar essa diferença começa com uma pergunta simples:

Quando alguém pergunta quem resolve o problema que eu resolvo, o meu nome aparece?

Se a resposta for não, já sabes onde está o trabalho.

Maryanna Franco, fundadora da BrilliantSEO

Quarta-feira, 22 Abril 2026 15:12


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