A produção virtual começa a ganhar espaço em Portugal, abrindo novas possibilidades para o audiovisual, a publicidade e os eventos. O investigador, professor e profissional do audiovisual Rodolfo Silveira analisa o potencial deste mercado e os desafios que ainda se colocam à sua consolidação.
A produção virtual abre novas possibilidades para marcas, agências e produtoras. A consolidação do setor dependerá, porém, menos da tecnologia do que da capacidade de gerar demanda, de formar profissionais e de integrar novos métodos de trabalho.
Portugal afirma-se no mercado audiovisual internacional através das suas localizações, das suas equipas técnicas e dos incentivos à produção. Tornou-se competitivo para filmagens estrangeiras, mas os ambientes digitais e os cenários virtuais continuaram, muitas vezes, a ser desenvolvidos no exterior.
Esse panorama começa a mudar agora. A instalação de estúdios equipados com paredes LED, tracking de câmara e motores gráficos em tempo real indica que a produção virtual está a deixar de ser apenas experimental. Entre os sinais mais visíveis encontram-se o estúdio da EMAV, em Lisboa, e a entrada da Diveline Production no mercado português, por meio de uma estrutura no Parque das Nações, articulada com a Showreel Studios.
Estas iniciativas ainda não significam que Portugal possua uma indústria consolidada. Demonstram, apenas, que o mercado nacional passou a dispor de condições técnicas para integrar uma área que está a transformar a publicidade, o cinema, a televisão e os eventos.
O que muda?
Na produção virtual, uma câmara filma intérpretes, produtos ou objetos diante de um cenário digital exibido numa parede de LED. O sistema ajusta a perspetiva do ambiente à posição da câmara, produzindo o efeito de paralaxe e a sensação de profundidade.
Ao contrário do chroma key tradicional, este método permite visualizar parte da composição final durante a rodagem. Os reflexos e a iluminação emitidos pelo ecrã interagem diretamente com os objetos e os intérpretes, reduzindo problemas que normalmente se resolvem na pós-produção.
Isto pode significar, filmar em diferentes cidades ou universos visuais sem deslocar toda a equipa, reutilizar cenários digitais, adaptar campanhas a vários mercados ou produzir versões do mesmo conteúdo.
O valor da produção virtual resulta do equilíbrio entre controlo criativo, reutilização de ativos, previsibilidade e custos de preparação. A tecnologia não reduz automaticamente as despesas: a criação de ambientes digitais e os testes técnicos exigem investimento antecipado. Parte dos custos, anteriormente concentrada na pós-produção, passa, assim, para a pré-produção.
O método tende a ser mais vantajoso quando há complexidade logística, necessidade de controlo visual ou de reutilização de ativos. Para produções simples, uma localização real pode continuar a ser mais económica. Para projetos com várias geografias ou universos visuais complexos, a produção virtual pode oferecer maior previsibilidade.
Capacidade técnica, mas pouca escala
Portugal dispõe de empresas de pós-produção, animação, som e efeitos visuais, bem como de experiência na prestação de serviços a produções estrangeiras. Esta base é relevante porque a produção virtual depende da colaboração entre estúdios, equipas criativas e fornecedores especializados.
A combinação destes recursos com novos estúdios pode tornar Lisboa, e potencialmente outras regiões, mais competitiva na captação de produções internacionais. O principal obstáculo é a dimensão do mercado. A produção audiovisual portuguesa continua fragmentada entre empresas de pequena dimensão, com volumes de trabalho irregulares. Em contraste, um estúdio virtual exige utilização recorrente, atualizações tecnológicas, manutenção especializada e equipas mobilizáveis.
A questão decisiva não é saber se Portugal consegue instalar esta tecnologia, mas se existirá procura suficiente para a tornar sustentável. Para isso, os estúdios terão provavelmente de combinar publicidade, televisão, cinema, eventos, conteúdos corporativos e produções internacionais. A publicidade poderá assumir um papel central por reunir ciclos curtos, diferenciação visual e abertura à experimentação.
O talento será o fator competitivo
Outro desafio é a escassez de profissionais capazes de atuar na interseção entre o audiovisual e a computação gráfica em tempo real. Um projeto necessita de artistas 3D, operadores de motores gráficos, técnicos de tracking e supervisores capazes de articular os departamentos virtuais com a realização, a direção de fotografia e a direção de arte.
Portugal começa a desenvolver esta capacidade através de iniciativas académicas e redes internacionais. A Universidade Lusófona participa no projeto europeu Cutting Edges, enquanto o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave integra uma rede de estúdios orientada para o ensino.
Ainda assim, o conhecimento não pode permanecer apenas nas instituições de ensino. A consolidação do setor dependerá da circulação de profissionais entre universidades, estúdios, produtoras e empresas tecnológicas. É neste contexto que comunidades como a VPPt podem promover encontros e a partilha de conhecimento entre profissionais do cinema, da publicidade, dos eventos, da investigação e da arte imersiva.
Enquanto cofundador desta comunidade, tenho observado uma necessidade crescente de aproximar profissionais, empresas e instituições de ensino, criando uma linguagem comum entre as práticas audiovisuais tradicionais e as tecnologias em tempo real.
Uma oportunidade que precisa de mercado
Portugal chega mais tarde à produção virtual em larga escala do que outros mercados europeus, mas pode beneficiar da experiência acumulada noutros países. A consolidação desta oportunidade dependerá menos da aquisição de equipamento do que da combinação entre tecnologia, talento, criatividade, formação e capacidade de trabalhar internacionalmente, o que exigirá às produtoras novas competências, aos estúdios procura constante e ao setor uma articulação sustentável entre empresas, instituições de ensino e centros de investigação.
Rodolfo Silveira, investigador, professor e profissional do audiovisual

